Disse Caetano: ''Não existe nada mais Z do que um público classe A''. A frágil frase de efeito foi pulverizada à platéia que, em maio de 1973, presenciou atônita um dos encontros mais inusitados da MPB. No palco do Anhembi, em São Paulo, Caetano Veloso se juntou a Odair José para cantar ''Vou tirar você desse lugar'' essa mesmo que você, dileto leitor, um dia assoviou ou cantarolou o refrão em tom jocoso. O dueto ocorreu durante o Phono 73, mostra musical promovida pela Phonogram (atual Universal), durante quatro dias, e que reuniu o elenco da gravadora então a detentora de contratos da grande maioria de artistas do primeiro escalão da música brasileira.
O hit, uma homenagem de Odair José às prostitutas da Praça Mauá, foi registrado no formato voz e violão e pode agora, 31 anos depois, ser conferido no disco ''Eu não sou cachorro, não'' álbum complementar ao livro homônimo lançado em 2002 por Paulo César Araujo responsável também pela compilação de sucessos representativos da música cafona durante a ditadura militar no Brasil.
Em resumo, o autor defende que durante os anos de chumbo não apenas a elite musical (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento, entre outros), mas a perseguição dos censores também atingia artistas populares (Paulo Sérgio, Luiz Ayrão, Benito de Paulo, Waldik Soriano e, principalmente, Odair José). ''Ao longo dos anos, historiadores, pesquisadores e críticos musicais (todos evidentemente do Brasil-Bélgica) exaltaram a música identificada à tradição ou à modernidade, excluindo e detratando as vozes e canções da parte mais pobre do país'', escreveu Paulo César de Araujo, no encarte do disco. E vai mais além para sustentar sua tese: ''Aos cantores populares românticos, além da desqualificação estética implícita no termo brega, acrescentava-se a pecha de alienados ou, o que é pior, apologistas do governo ditatorial''.
E assim, entre equívocos e fortes argumentos, o autor esmiúça em 458 páginas o que ele mesmo classifica de ''apartheid musical'' entre a ''casagrande'' e a ''senzala'' da MPB. Mas para quem quer tem uma base, um resumão com direito a trilha sonora pode acompanhar as 14 canções compiladas no álbum com direito a comentários do próprio Araujo.
''Eu não sou cachorro, não'', o disco, tem como chamariz principal, claro, o dueto de Odair-Caetano. No entanto, a inclusão ainda inédita ''Em Qualquer Lugar'' proibida e execrada graças aos comedores de capins, raça que se reproduzia rapidamente durante o regime militar conhecidos também como censores. A canção, bobagem sentimental nos dias de hoje, foi vetada em 73 sob argumento de que o texto da música é ''descritivo de atitudes comportamentais alusivas ao desejo sexual''. Um trecho da música: ''Se você quiser/ A gente pode amar/ No meio deste mundo/ Em qualquer lugar/ Dentro do meu carro/ Parado em um jardim/ Debaixo do chuveiro''. É ou não de provocar risos?
O disco traz alguns absurdos como o bolerão ''Tortura de Amor'', um dos sucessos de Waldick Soriano, que ao se regravado em 1974 foi proibido simplesmente por conter a palavra ''tortura''. A chamada linguagem da fresta, método para enganar o sistema repressor, foi utilizada por Agnaldo Timóteo para falar de uma certa galeria do amor ''onde a gente que é gente se entende''. Seria apenas mais uma canção duvidosa não fizesse uma referência à Galeria Alaska, conhecido reduto carioca de homossexuais.
Dom & Ravel, duplinha camarada dos militares, comparecem em ''Você também é responsável'' (1971) canção deslocada já que para o autor da compilação foi cantada em forma de lamento. Viagem! E por falar em viagem, canção homônima de Odair José foi proibida por ''estar enquadrada na legislação sobre entorpecentes''. Os advogados de Odair José recorreram argumentando se tratar de uma viagem ''fantástica viagem cósmica'' e conseguiram a liberação. Se fazia alusão à maconha? ''Fui jovem, né? E a música falava da viagem da maconha sim'', admite Odair José em entrevista exclusiva à Folha2. Confira os principais trechos do bate-papo em o cantor e compositor fala sobre o episódio das vaias com Caetano Veloso, rótulos e censura.


Como se deu esse encontro com o Caetano Veloso?
Soube através do André Midani (então diretor da gravadora Phonogram) que o Caetano gostaria de se apresentar comigo no Phono 73. Lembro que fretaram um avião para ir ao interior de São Paulo, se não me engano Piracicaba, onde ele estava se apresentando. Cheguei e o Caetano disse que gostava muito da música e queria cantá-la comigo. Tive uma boa impressão do Caetano que, por sinal, é um cara muito simples

E como foi o show? As vaias o incomodaram?
Para mim era apenas mais um show em minha vida, não dei tanta importância ao fato até chegar ao palco. Fui®MDBO¯®MDNM¯ muito bem recebido por Caetano mas ficou bem claro para mim a distância de estilos através da reação de parte do público. Nunca tive como meta atravessar o ''outro lado'' da MPB, eu só sei fazer o que faço e pronto. Se é brega, popular ou outra coisa não me importo. Eu me lembro que diante das vaias, Caetano jogou o microfone no chão, falou alguma coisa sobre classe A e Z e saiu do palco. Eu permaneci no palco, não tinha porque sair de lá e cantei outras duas músicas''

Você foi muito perseguido pela censura durante o regime militar?
No final de 1972 passei a ser muito visado. Os censores me achavam imoral e a igreja dizia que eu desagregava valores familiares através das minhas músicas. Não sou nada disso. Eu me considerava, e ainda me considero, um repórter musical pois observo o cotidiano e devolvo à minha maneira através da música. Nunca achei que minhas letras tinham nada de mais. Nunca afrontei o sistema.

Você concordava com o regime vigente na época?

Fui estudante, participei de passeatas. Não achava correto o que a ditadura fazia, mas não sabia falar das coisas terríveis que aconteciam através da minha música. Uma coisa eu sei: alienado nunca fui. ®MDBO¯®MDNM¯Toda censura é burra. O pior de tudo é que os censores acabam por desenvolver a auto-censura na gente. Porra, isso aconteceu muitas vezes comigo.

E a pecha de brega, o incomoda?
Aceito na boa ser taxado de cantor das empregadas, das prostitutas, dos bregas. Assim como há disco do Tom Jobim que é uma merda, há disco do Herbie Hancock e do Odair José que são merdas também. Mas sou profissionalmente realizado porque fui muito além do que imaginava ser como artista. Você vê como são as coisas: agora também me apresento em faculdades, rapaz.

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