Formado em artes cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), Juliano Cazarré é apontado como um dos atores mais promissores de sua geração. Além de participar de novelas de sucesso da Globo como "Insensato Coração", "Avenida Brasil" e "Amor À Vida", o ator tem participado de várias produções cinematográficas, como "O Grande Circo Místico" (Carlos Diegues), "Obra Prima" (Daniel Filho), "O Lobo Atrás da Porta" (Fernando Coimbra), "Serra Pelada" (Heitor Dhalia), "360" (Fernando Meirelles) e "A Febre do Rato" (Cláudio Assis), entre outros.
Em cartaz na novela "A Regra do Jogo" e viajando pelo Brasil para divulgar o filme "Boi Neon", no qual vive o protagonista Iremar, o ator concedeu a seguinte entrevista por e-mail à FOLHA:

Como foi o processo da construção de um personagem tão complexo como o Iremar?
Apesar da minha pinta de garotão, queria que o personagem fosse genuíno. Fiz uma imersão nesse universo e sempre ficava prestando atenção no modo como eles falavam, agiam... Daí saí anotando tudo que achava importante para incorporar no personagem. Aposto todas as fichas na composição. Mudo a voz, sotaque, a maneira de me mexer, de andar.

O que o motivou a aceitar o papel?
Desde o início, vi que esse era um personagem com muitas nuances, masculino e delicado ao mesmo tempo. Logo de cara, esse aspecto me interessou.

Quais foram os maiores desafios enfrentados durante as filmagens?
Sabe o que é mais difícil do que fazer uma cena de sexo? Fazer aquela cena em que estou serrando um manequim e conversando com a Cacá, uma menina de 11 anos que mora no sertão de Pernambuco e que não é atriz. Eu tenho que improvisar completamente! Tenho que serrar o manequim na hora em que ela não tá falando, parar pra ela falar, acertar meu texto e, se ela errar o dela, eu tenho que dar um jeito de fazer ela lembrar o que ela tinha que falar sem o público perceber. E ao mesmo tempo eu tenho que fazer as pessoas acreditarem que eu, Juliano, poderia existir naquele universo tão diferente. Embora a cena de sexo seja difícil, pra complexidade do nosso trabalho de ator, às vezes uma cena de texto como essa é muito mais difícil.

O que esta experiência no universo das vaquejadas no Nordeste acrescentou à sua vida?
A coisa mais rica para mim foi a amizade com Josinaldo (Josinaldo Alves), um vaqueiro que trabalha numa fazenda perto de onde a gente gravou, e com Carlos (Carlos Pessoa), que é outro vaqueiro de lá. Ficamos amigos mesmo, amigos de beber juntos, de chorar abraçados. Foram dois meses e meio de muita convivência.

O filme abre debate sobre antigos estereótipos, arquétipos e clichês que já soam defasados há tempos. Na sua avaliação, qual a importância de levantar esse tipo de questão?
O filme tem uma pegada estética incrível! O Gabriel trabalhou muito bem isso, principalmente o questionamento de certos estereótipos. Como, por exemplo, o que seria um filme Nordestino, que na maioria das vezes só mostra a seca e sofrimento. O filme tem a parte dos animais, tem a aridez do território, mas também mostra um Nordeste em transformação, onde tem esse polo têxtil lá em Santa Cruz do Capibaribe. Quer dizer, então, que o nordestino tem que ser sempre um homem macho, brabo, machista e tal. E a mulher tem que ser sempre feminina e submissa? O filme brinca com isso, com a mulher que dirige o caminhão, mas que também faz dança sensual. E do homem que alisa o cabelo e nem por isso é homossexual. O filme questiona muito essas ideias preconcebidas.

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