De que forma as grandes cidades influenciaram a transição da poesia tradicional para a contemporânea?
Pode-se dizer, por exemplo, que, se o campo é o lugar das raízes, a cidade é o lugar do desenraizamento. A cidade não surge em primeiro lugar da terra em que se localiza, mas surge em cruzamentos e de cruzamentos. E as ruas da cidade, de certo modo, se prolongam pelas ruas de todas as cidades do mundo. Ora, também a poesia da cidade surge, em primeiro lugar, dos mais diversos cruzamentos.

Quais são os pontos positivos e negativos deste atual cenário?
Um dos principais pontos positivos é que quase todos os poetas já sabem que não existe nenhuma forma privilegiada para a poesia. Cada poema deve ser avaliado por si, e não por pertencer a esta ou aquela forma ou escola. Ele pode ser rimado ou não; pode ser metrificado ou não; pode usar uma forma fixa ou não; pode usar artifícios visuais ou não; etc. Um dos principais pontos negativos é que isso leva muita gente, erroneamente, a pensar que "vale tudo" na poesia contemporânea. Isso não é verdade. Não vale senão o que, entre outras coisas, mobiliza e faz interagirem criativamente nossas faculdades: intelecto e emoção, sensualidade e memória, razão e sentimento etc.

Destacaria quais nomes entre os poetas modernos?
Entre os modernos e contemporâneos, destacaria, por exemplo (por ordem alfabética) Alberto Pucheu, Alex Varella, Alice Ruiz, Ângela Melim, Antonio Carlos Secchin, Augusto de Campos, Eucanaã Ferraz, Ferreira Gullar, Francisco Alvim, Gastão Cruz, Nelson Ascher, Omar Salomão, Paulo Henriques Britto, Paulo Leminski, Ricardo Silvestrin, Salgado Maranhão, Waly Salomão etc. etc. A lista é aleatória e, certamente injusta: esses são os que me ocorrem assim, de repente. Mas estou certamente esquecendo de outros, certamente tão bons quanto esses.

Os elementos urbanos também estão presentes de forma explícita em suas obras?
Sim. Basta dizer que um dos meus livros de poemas se chama "A cidade e os livros".

Além de poeta, você é um compositor consagrado pelas parcerias com a Marina Lima e mais recentemente pela bela e elogiada canção "Sem Medo Nem Esperança", gravada por Gal Costa. Qual a diferença básica entre criar poesias para um livro e letras para música?
Para mim, a diferença básica é que eu não faço letras senão para músicas que me apresentam. A música vem antes e, além de inspirar o poema, dá a forma dele.

Entre os poemas e letras de música de sua autoria, quais são seus preferidos?
Quanto aos poemas, gosto, por exemplo, do poema "Balanço" (do livro "Porventura"), do poema "Alguns versos" (do livro "A cidade e os livros") e do poema "Guardar" (do livro "Guardar"). Quanto às letras, gosto, por exemplo, da letra de "Virgem" (com música da Marina) e da letra de "Inverno" (com música da Adriana Calcanhotto).

Quais escritores mais admira?
Admiro muitos. Dos poetas brasileiros, admiro muito, por exemplo, Drummond, Bandeira e Cabral: no que não pretendo ser nada original.

Quais são seus projetos atuais e futuros?
No início do ano que vem deve sair, pela Companhia das Letras, um livro meu de ensaios sobre poesia. No momento, encontro-me a escrever um livro de filosofia.

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