O tema do debate em que você irá participar hoje à noite, como convidado do Londrix, é inspirador: "O Lugar da Poesia". Qual é o lugar da poesia?
O lugar da poesia é a vida. Somos seres de palavras. Pensamos, e até sentimos, dentro de um idioma. Sem as palavras não seríamos o que somos. E a poesia é essencialmente a arte da palavra. Quando a nossa relação com as palavras se empobrece, a vida sofre as consequências. Veja: a canção, que traz o tipo de poesia mais popular no Brasil, teve um papel fundamental na expressão das emoções, da imaginação e até do pensamento político brasileiro. Quando os meios de comunicação passam a difundir um cancioneiro mercantilista, mais voltado para o lucro do que para a percepção, tudo em volta se empobrece. Não tenho dúvidas de que a pobreza das relações humanas nos dias atuais se deve, em grande parte, ao empobrecimento da poesia veiculada na canção que se ouve no rádio, nas festas. Antes ouvíamos Raul Seixas cantando: "Eu que não me sento no trono de um apartamento/ com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar". Hoje ouvimos Michel Teló: "ai se eu te pego, delícia".

Como a conquista do Prêmio Jabuti, com o livro "A Voz do Ventríloquo", repercutiu em sua autoavaliação como poeta? Ao reler seus livros anteriores, acredita que atingiu a "maturidade" no domínio da técnica e da percepção poética?
Na minha autoavaliação como poeta, não teve grandes repercussões. Nunca escrevi para ganhar prêmios. Escrevo para organizar minha percepção, antes de tudo. Para me manter atento. Quando publico um poema ou um livro, não estou querendo me exibir, mas levar essas percepções a outras pessoas. Quanto à maturidade, sinceramente, não sei. Claro que tenho muito mais experiência, mas mesmo depois de tantos anos, nunca sei como vai começar o próximo poema.

Simultaneamente à "A Voz do Ventríloquo", você lançou o CD "Viralatas de Córdoba" em que sua poesia é turbinada com arranjos musicais de ritmos variados, como o rock, o blues, o jazz e o pop. Você montou um show com banda para executar essa proposta ao vivo. Como tem sido a experiência?
O contato direto com o público é muito estimulante. É possível perceber como um poema, às vezes até mesmo um único verso, é capaz de atingir as pessoas. Procurei durante muitos anos uma linguagem para a poesia falada, dessa forma, no contexto de um show mesmo. Os músicos tocam guitarra, baixo, bateria. Eu toco a palavra. É o meu instrumento.

Sua publicação mais recente é o livro "O Caio e o Cuio", sua estreia na literatura infantil. Como surgiu o interesse em escrever para crianças?
A entrada das crianças pequenas no mundo das palavras é fascinante. Em vez de falarem "galo", por exemplo, elas falam "cocó", que é o som que o galo produz. Antes de assimilar o significado das palavras, elas vão fazendo associações incríveis, brincando com os sons, com os fonemas. Quando meus filhos eram pequenos, eu me divertia com eles inventando poemas, histórias e até palavras. Então, não foi bem um interesse em escrever para crianças. Foi surgindo naturalmente. Mas tenho um cuidado enorme em publicar. Não quero encher a cabeça das crianças com bobagens, regras e lições que depois elas levarão muito tempo para se livrar.

mockup