ENTREVISTA
Você vem lançar o livro "Filosofia Prática: Ética, Vida Cotidiana, Vida Virtual". Poderia resumir as ideias exploradas nessa obra?
Pretendo mostrar no livro que o que chamamos de filosofia, algo visto pela maioria das pessoas como algo "abstrato" é, na verdade, uma coisa muito concreta. Sobretudo, eu quis mostrar que a filosofia é um exercício de pensamento que orienta, de uma maneira muito profunda, as ações das pessoas e que, neste sentido, ela é intimamente ligada à prática. Tendemos a ver a filosofia como o contrário da prática, mas eu quis mostrar que ela é um tipo de ação que está faltando entre nós. Filosofia Prática é uma boa tradução para a ética. No livro eu tentei elaborar a questão da ética a partir de três perguntas: "Como me torno quem sou?", "O que estamos fazendo uns com os outros?" e "Como viver junto?". A partir das respostas propus que pensássemos o cotidiano. Digamos que falamos em ética sem saber o que esta palavra pode significar, do mesmo modo, falamos em cotidiano sem saber do que se trata. E estamos dentro dele como se ele fosse algo natural. Eu quis tornar esse encontro entre ética e cotidiano problemáticos. Entendo que isso pode ajudar as pessoas a se entenderem melhor com a questão essencial da ética.
Você esteve há dois anos por aqui participando da 8ª edição do "Festival Literário de Londrina/Londrix". Na ocasião, estava lançando o romance "Era Meu Esse Rosto". No Brasil, salvo engano, são raros os filósofos que também se lançaram à aventura da escrita literária, não? Considera-se uma "estranha" em seu meio acadêmico?
Na verdade, há essa espécie de "divisão do trabalho". Eu gosto de escrever várias coisas, de artigos de revista a artigos acadêmicos, de crônicas a ensaios, de contos a romances. Verdade que a minha forma preferida é o romance. Escrevo filosofia porque creio que é necessário, e que a contribuição filosófica que posso dar ao meu tempo implica escrever esses livros sobre questões do nosso tempo. No geral, o que a filosofia pode fazer é sempre incentivar o diálogo. A literatura está próxima disso, mas, em certo sentido, é mais "perigosa", pois não cria, necessariamente consciência. A filosofia sim, sua tarefa é criar consciência, ou, quando a consciência transforma-se em crença ou ideologia, criar até mesmo a contraconsciência, certa espécie de dúvida, que nos permita ainda pensar mais.
Como vai a intelectualidade brasileira? Acredita que ela está em sintonia ou em descompasso com o mundo pulsante fora dos campi universitários?
Hoje há certa quantidade de intelectuais públicos. Mas creio que os professores ainda podem ocupar mais espaço. Um dos problemas que vejo é que os meios de comunicação não dão muito espaço aos intelectuais mais críticos. E, muitas vezes, esses intelectuais também não estão disponíveis para a conversa pública. Eu vejo como algo muito positivo que estreitemos as conversas, que os intelectuais se engajem na crítica social. Que participem de um projeto de transformação e emancipação das mentalidades. No Brasil cresce a mentalidade fascista e fundamentalista, não podemos deixar que o cenário seja dominado por ela. Nem pelo pensamento conservador ou pela ignorância. Eu sou a favor da crítica social capaz de recriar as potências dos debates e do diálogo em escala social.
Você defende posições abertamente feministas como intelectual pública. Quais são as questões que mais a mobilizam hoje?
Em primeiro lugar, o feminismo é, a meu ver, uma ética. Ou seja, uma teoria-prática. Entendo que é preciso afirmar o feminismo em termos muito concretos como movimento capaz de fazer operar a democracia. O feminismo hoje em dia não trabalha apenas com questões de gênero (as diferenças de papéis sociais em função de identidades sexuais) e sexualidade, mas também com os problemas relativos ao tema da raça e das classes sociais. São estas questões que estão em pauta hoje a partir de reivindicações de minorias. O feminismo começou como uma luta pela inclusão das mulheres no espaço público, em busca de direitos, mas integrou na sua luta o respeito à diferença em todos os seus âmbitos. A meu ver é a melhor e mais fundamental orientação atual quando se trata de lutar por direitos e democracia.
O Brasil está em pleno debate político a um mês das eleições. Como vê o cenário? Já decidiu seu voto?
Sempre podemos abordar as eleições pelo seu caráter circense ou publicitário. Há sempre algo de ridículo e ao mesmo tempo muito sério acontecendo nesses momentos. É da natureza da coisa chamada política que haja certo teatro do qual a retórica faz parte - e nem sempre os atores são muito bons. Votarei em Luciana Genro. Sou filiada ao PSOL, mas mesmo que não fosse, votaria nela. Creio que é a melhor candidata.(N.S.)





