ENTREVISTA
Se você fosse escrever um cartão de apresentação sobre seu estilo literário, o que ressaltaria sobre suas técnicas narrativas?
Fiz oficina de criação literária com Luiz Antonio de Assis Brasil, que considero um maravilhoso escritor e o melhor professor de técnicas narrativas e de literatura que alguém poderia querer. Creio que tenho razoável domínio da escrita em terceira pessoa, mais especificamente com o narrador focalizador, se essa é a questão que me é feita (e que é bem específica). Se estás perguntando o que mais gosto de escrever e no qual tenho melhores retornos, acho que é a descrição de cenários e a narração de ações rápidas.
Seu livro mais recente, o volume de contos "Essa Coisa Brilhante Que É a Chuva", recebeu dois prêmios de prestígio: o Prêmio Portugal Telecom de Literatura e o Prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional. Há agourentos que dizem que premiações costumam "travar" o processo de criação do livro seguinte do contemplado. Você "travou" ou já está escrevendo uma nova obra?
Travar, a gente trava todo o tempo. Um livro acabado é sempre a ameaça de ser o último, e o próximo tem que ser melhor que o anterior. Claro, prêmios literários, ainda mais desse porte, criam uma grande expectativa com relação à obra do autor, que passa a "carregar", digamos assim, um peso extra, mas uma alegria monumental. Acho no entanto que prêmios ajudam a carreira do escritor: é sinal de que se vai bem, em bom caminho. Eu não travei com os prêmios, sou grata a eles, imensamente, inclusive. E, sim, já estou trabalhando em duas novas obras.
Há 10 anos, você foi uma das autoras elencadas na antologia "25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira", organizada por Luiz Ruffato. Na ocasião, o idealizador do livro justificou o projeto argumentando que as autoras eram ignoradas em antologias e matérias de jornais que saudavam o surgimento de uma nova geração de escritores talentosos a partir dos anos 1990. Ele dizia que, raramente, uma autora aparecia em tais panoramas literários. Você também constatava essa lacuna? Acredita que essa situação mudou?
Na verdade, essa discussão se iniciou com o "Geração 90: Manuscritos de computador", organizada pelo Nelson de Oliveira (hoje ele trabalha com o nome de Luis Braz). À época, de fato, escritoras mulheres não tinham tanta produção muito menos tinham visibilidade, tanto é que o Luis, num exaustivo trabalho de pesquisa em todo o Brasil, somente achou uma mulher, que era eu. O Ruffato, um dos grandes nomes da nossa cena cultural, comprou a briga (que nunca foi briga de verdade) e foi atrás. O "25 mulheres" surgiu assim. Não creio que todas aquelas mulheres continuem em atividade. O fato é que, depois dessa publicação, houve outras (houve até o "Mais 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira"). E as mulheres passaram a aparecer mais. Não sei se foi casualidade, não sei se era um fenômeno real, mas sei que não havia tantas mulheres escrevendo como hoje. Ainda hoje, há muito mais homens escrevendo. Acho que precisamos estudar melhor o assunto.
Como vê o futuro do livro? Você faz parte da legião que resiste à leitura de livros na tela ou é adepta entusiasta das novas plataformas ?
Adoro tecnologias! Tenho tudo o que se imagina e que pude comprar, sou uma entusiasta das plataformas da Apple, etc. Mas livro, só em papel. Me acostumei a ler em papel, a vida inteira foi em papel, e gosto muito de ler virando as páginas, sentindo a textura do papel. Mas estou me preparando para fazer um acervo digital, porque imagino que é bastante mais fácil para consulta. Agora: fruição é papel.
Com a proximidade das eleições, o Brasil vive um momento de grande debate político. Pesquisas apontam que duas mulheres poderão chegar ao segundo turno. Já definiu em quem votar?
Eu não estarei no Brasil no primeiro turno. Creio, no entanto, e as pesquisas têm mostrado, que haverá um segundo turno e o embate será entre essas duas mulheres, sim. Creio que é muito significativo do ponto de vista cultural e social que duas mulheres cheguem em posição de destaque. Mas também acho que já não era sem tempo e que temos que ver com naturalidade a chegada das mulheres ao poder e ao centro das decisões. Prefiro não abrir voto. Política e literatura não costumam ser boas parceiras.





