ENTREVISTA
Ao avaliar sua obra, qual disco você elegeria como o mais completo ao longo de suas cinco décadas de carreira? E, da mesma forma, qual a canção favorita de seu repertório?
Tudo que aconteceu na minha vida até hoje eu considero muito especial. Nunca fiz cálculo ou projeção de carreira, as coisas foram naturais. Se eu disser que gosto de todos os meus trabalhos você dificilmente iria acreditar. Mas a explicação é simples, tenho carinho por todos os meus discos e todos os meus projetos porque eu sempre faço exatamente aquilo em que eu acredito. E eu nunca fiz um trabalho, um show que tenha sido imposto por alguém, por gravadoras, etc. Mas é claro que alguns trabalhos acabam marcando mais do que outros. Isso não posso negar. Eu tenho quase 500 músicas gravadas, então, imagine, escolher uma só seria uma injustiça inclusive com meus parceiros de vida inteira.
Você é muito assediado por jovens músicos ou compositores? Já conheceu algum talento promissor que mais tarde tornou-se um grande artista de nossa música?
Imagine um artista como eu, com 50 anos de carreira. Não posso enumerar aqui todos os jovens talentos que conheci ao longo desses anos, pois certamente não caberia aqui nessa folha e, principalmente, seria traído pela memória e não lembraria de todos.
Há alguns cantor(a), compositor(a) ou banda da nova geração que você destacaria no cenário nacional e internacional
Criolo, Esperanza Spalding, Júlia Vargas e Racionais MC's.
Você anunciou alguns trabalhos para 2014, entre eles gravações com Herbie Hancock, Speranza Spalding e a banda pop inglesa Duran Duran. Como estão esses projetos ?
Estão todos caminhando. Não posso reclamar de nada, consegui coisas que eu jamais pensei em ter. E, para minha sorte, sempre estou envolvido em vários projetos ao mesmo tempo. Pois além desta nova turnê, o compositor Chico Amaral acaba de lançar um livro baseado em conversas que tivemos no ano passado. Também acabei de participar da trilha sonora do filme "Orfãos do Paraíso", do André Ristum, que foi uma das coisas mais felizes que me aconteceram nos últimos tempos. Outras coisas muito importantes devem acontecer ainda em 2014, mas disso ainda não posso falar, é surpresa.
Atualmente o Brasil vive um momento de balanço histórico com a Comissão de Verdade, que investiga os crimes ocorridos durante a ditadura militar. Como você experimentou aquele período autoritário? Poderia citar alguns episódios que o marcaram pessoalmente?
Praticamente todos os artistas com um posicionamento contra ditadura que viveram no Brasil durante os 20 anos de repressão foram perseguidos. E como eu decidi ficar no País, minha situação ficou muito delicada. Pois era o tempo todo com a polícia observando todos meus caminhos, em casa, na rua, nos shows... Esse tipo de tortura é uma das mais cruéis e mais covardes que uma pessoa pode suportar. E como eu era uma pessoa pública, eles não podiam sumir comigo (apesar de terem feito isso com muita gente que estava em evidência na época, como Zuzu Angel, Vlado e Tenório Jr), então, eles usavam de todas as formas possíveis de opressão. Só existe uma avaliação a fazer: quem enfrentou uma ditadura sabe bem que a única lembrança que os militares moldaram na nossa memória foram perseguições, torturas, mortes, repressão... Foi um dos períodos mais nojentos da nossa história, pra não dizer outra coisa.
Você é um dos artistas que participam do documentário do cineasta americano Spike Lee sobre a projeção do Brasil no cenário mundial nos últimos dez anos. Está otimista ou pessimista em relação ao momento atual e ao futuro do País?
Pra dizer a verdade, o gigante ainda não acordou completamente. E eu ainda sonho com uma virada ainda maior. Em qualquer que seja a situação eu procuro ser otimista, sempre.





