O que mais lhe encanta na obra de Pirandello? São as questões filosóficas que normalmente ele imprime nas suas obras?
Cacá Carvalho - É inegável a riqueza filosófica que as obras de Pirandello contêm, porém, Pirandello para nós que fazemos teatro, interessa como material de trabalho, ora cômico, ora patético, ora dramático, ora poético, ou ridículo, e esses ingredientes são ingredientes do homem, que Pirandello retrata. Então, os nossos trabalhos tentam revelar a fonte do "discurso filosófico" de Pirandello, ou seja, o homem contemporâneo e todas as suas facetas, que no dia a dia do viver são divertidas, ou tristes, ou patéticas, porém, sempre poéticas.

Da trilogia, qual parte foi a mais desafiadora para fazer? Por quê?
Todas foram desafiadoras porque sempre foram transposições de uma linguagem (literária para a linguagem teatral). Isto requer uma calma e audácia misturadas para a escolha do que é fundamental para o teatro, que será apresentado. Sem, evidentemente, descaracterizar a fonte que, no caso chama-se Luigi Pirandello. O desafio é encontrar duas fidelidades, que coexistem, a fidelidade à obra literária e a fidelidade à obra teatral. Porém, talvez, a transposição do romance "Um, nenhum e cem mil" para o espetáculo "umnenhumcemmil" tenha sido a montanha mais difícil de escalar, pois um romance é um universo, não só uma história.

Como foi se apresentar no estúdio de Pirandello, entre seus livros, na casa onde ele viveu e morreu? Posso imaginar a sua emoção...
Acho que como imagem que eu possa dar a ideia do que foi a emoção, seria como eu, com 60 anos, visitasse concretamente, fisicamente, a minha fonte, o meu berço, as minhas roupinhas infantis, tudo aquilo que sou hoje. O período que me apresentei na casa de Pirandello foi o momento em que me alimentei melhor, em toda a minha vida, porque estava na fonte.

Pode-se dizer que a solidão humana é o tema mais forte da última parte da trilogia? Você fez questão de valorizar a "insignificância" do personagem, a sua busca por uma anulação para uma nova criação, até mesmo na grafia do nome do espetáculo, em letra minúscula?
Não, o tema do último espetáculo não é a solidão, o tema é o reconhecimento da falência de um investimento/da pessoa em si. E quando você reconhece a falência de um investimento, você não fica com a solidão, você fica permeado por infinitos sentimentos. Ora você ri de si próprio, ou fica indignado com os outros, ou perplexo diante de um mundo que você nunca havia visto, ou grita, canta, ri de tudo ou de todos. Mas solidão não é o ingrediente principal... Quanto à grafia do título do espetáculo ser "umnehumcemmil", em minúsculo, é um modo de traduzir o experimento feito por Gengé (o personagem), ele queria deixar de ser o que ele era, um filho de banqueiro, um homem próprio, então "umnenhumcemmil" é um modo de trazer o que é ser um homem minúsculo.

Todos nós somos "cem mil em um"? Carregamos muitas possibilidades que às vezes acabam não se desenvolvendo por uma questão de histórico de vida, familiar? A peça tem a ver com isso?
Sim, mais isso não é somente dito por Pirandello, todos os grandes autores afirmam de formas diferentes essa consciência: dentro de nós habitam muitos. Isto já foi dito por Mario de Andrade, em "Macunaíma"; por Fernando Pessoa em tantos poemas; em Pirandello isto é um tema recorrente. Nunca nós seremos um, porque nós somos sempre uma reação a uma circunstância na qual estamos envolvidos e muitas vezes essa resposta nos surpreende.

Está é a quarta vez que participa do Filo? Qual a sua expectativa?
Acho que vou me repetir, pois já disse e reafirmo que Londrina é uma cidade que precisa agradecer ao Filo todos os dias. Pois um Festival de Teatro que existe ou resiste há 45 anos ofereceu horizontes culturais, horizontes formativos, horizontes de divertimento para várias gerações de jovens. Centenas e centenas de artistas do mundo inteiro na cidade de Londrina jogaram toda sua energia criativa para alimentar o interior do Paraná. Então, quando desta vez meu trabalho é convidado para fechar o Filo deste ano, o meu compromisso é muito grande, ser a cereja do bolo, aquele espetáculo que não fechará um festival, mas fechará o sentido de um festival, e isso honra a mim, a minha equipe. Pontedera, onde tudo nasceu, e Pirandello, de onde estiver vivendo, nunca imaginaram que um romance fosse fechar um festival de tamanha importância em Londrina.

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