Você esteve à frente de uma mobilização de escritores que apoiou a greve de professores no Rio de Janeiro e entregou um abaixo-assinado para a Ministra da Cultura Marta Suplicy durante a Feira do Livro de Frankfurt (Alemanha) no mês passado. Foi uma atitude ocasional de engajamento ou o ativismo faz parte de seu dia a dia como escritor?
Nos últimos anos estou cada vez mais barulhento a esse respeito. Mas não encaro exatamente como ativismo. Em tempos como esses, ficar calado não me parece uma opção. É o mínimo.

Seus livros, porém, não são engajados, no sentido de propor conscientizar politicamente os leitores. Que definição seria mais apropriada para caracterizá-los?
Não acredito em literatura panfletária. No entanto, para bom entendedor, meus livros são sim muito políticos. "O Dia Mastroianni", por exemplo, é um romance satírico que discute questões de identidade nacional e alienação e cinismo pequeno-burgês. Meu livro japonês ("O único final feliz para uma história de amor é um acidente")tem páginas e páginas sobre a transformação do corpo feminino em objeto. Eu poderia dar muitos outros exemplos, mas isso é trabalho da crítica. Qual definição eu daria a eles? Eu faço literatura de gênero. Cada
livro se inscreve num gênero diferente, com variados narradores e usos de linguagem.

Você faz parte da primeira geração que antes de publicar o primeiro livro, já recebia o feedback de leitores ao postar textos em blogs. Acredita que isso tenha, de alguma forma, resultado em livros de estreia mais maduros do que de gerações anteriores?
Não sei. Mas desconfio que não.

Você escreveu um romance entre "O Corpo Presente" (livro de estreia, 2003) e "O Dia Mastroiani" (seu segundo livro, 2007), mas não o publicou. Poderia explicar os motivos?
Ele não era bom o suficiente.

Houve época em que a crônica era considerada um gênero literário menor. Rubem Braga chegou a escrever certa vez num artigo: "Há homens que são escritores e fazem livros que são verdadeiras casas, e ficam, mas o cronista de jornal é como cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha, e vai". Qual foi a sensação ao receber em mãos o exemplar de "A Última Madrugada", sua coletânea de crônicas publicadas originalmente em jornais e lançada no ano passado?
A sensação é a mesma sempre que recebo um livro publicado: pânico, terror, irresponsabilidade premiada. Fala-se muito em "teste" quando se considera a produção de crônica publicada em livro - como se elas precisassem passar pelo crivo do livro para medir sua capacidade de permanência. Eu mesmo não sei se essas crônicas ficam. Espero que sim. Escrevi crônicas durante aproximadamente sete anos em três jornais cariocas, "Tribuna da Imprensa", "Jornal do Brasil" e "O Globo". Durante todo esse tempo tive bastante consciência de que estava fazendo literatura de gênero - como tudo o que faço. Ou seja: eu fui um cronista brasileiro e minhas referências literárias eram todas ligadas à tradição nacional da crônica, Rubem Braga no topo da pirâmide, claro.

Você toca guitarra e já fez parte de algumas bandas de rock, não? Continua em atividade?
Hoje em dia eu tenho um projeto de música eletrônica solo. Mas me apresento pouquíssimo. Quando toco guitarra, o faço com o objetivo de fazer com que o instrumento soe como qualquer coisa, menos como uma guitarra. Poucas coisas são mais desinteressantes para mim hoje em dia do que o som de uma guitarra elétrica.

Soube que você irá fazer um filme baseado num romance que está escrevendo. Em que fase está esse projeto?
Pré-produção. O filme será rodado entre março e abril do ano que vem. É um desdobramento do meu novo romance, baseado em história real sobre a morte do meu duplo num prédio ocupado no centro do Rio em 2008.

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