ENTREVISTA
"Rua dos Amores" é bastante romântico. O que o inspira a compor temas tão delicados em tempos de tanta violência?
A vida e tudo que é inerente a ela me inspira, principalmente as relações humanas e em Rua dos Amores falo disso, dos diversos tipos de amor, como um elo para falar de várias sensações, nuances que estão presentes nesse processo. De certa forma procuro fazer um trabalho que aponte uma saída, que fale do amor ao próximo, independente de conceito religioso, que valorize o comportamento amistoso, que reconheça a necessidade do outro. Todos nós precisamos disso e com o acesso rápido à informação temos uma proximidade maior com vários tipos de problemas e em grande intensidade, é preciso nos sensibilizarmos. Acho que o artista é mais 'antenado', mais observador. No meu caso, sempre estou em estado de observação e sou pego pelo olhar. Uma rua bonita, uma árvore, uma folha, com sua textura e coloração, podem me encantar, aliás, depois da música, sou apaixonado por arquitetura e botânica.
O show que você apresentará em Londrina será pautado por grandes sucessos ou pelas músicas novas? Pode adiantar parte do repertório?
Serão 24 músicas, sendo sete do disco novo e as outras são clássicos, com novos arranjos. Não há como ser diferente, pois show é interação e o público quer ouvir as canções mais conhecidas.
Em Londrina você se apresentará em um ginásio de esportes. Para você é mais prazeroso encarar um grande público ou prefere as apresentações mais intimistas?
Gosto das duas coisas, mas esse show, que venho apresentando desde novembro do ano passado, já foi projetado para grandes públicos. Sobre a questão de me apresentar em espaços adaptados não vejo problema nisso. Acho que temos que ter consciência de que no Brasil temos outras prioridades, é diferente dos países ricos onde mesmo em cidades pequenas temos espaços excelentes para apresentações musicais. Além disso, atualmente temos uma estrutura de som que garante uma boa qualidade sonora independente do local. Ainda não tivemos problemas quanto a isso.
Sua obra é apreciada tanto pelos admirados da MPB mais tradicional como também pelas galeras do samba, do pagode e até do rock. Ao que você atribui esse poder?
É interessante e acho que tem a ver com a minha formação musical que sempre buscou compreender o jeito de fazer os mais diferentes gêneros musicais. Isso acabou influenciando o meu trabalho e agradar públicos diferentes acabou sendo uma consequência natural.
Você também tem uma grande popularidade entre distintas faixas etárias e em classes sociais diversas mesmo mantendo uma qualidade musical inquestionável. Você compõe você tem essa preocupação de chegar ao coração de todos quando está compondo?
Isso tem a ver com o que respondi acima e tenho muito orgulho disso, mas também é fruto de muito trabalho em uma carreira de 37 anos.
Milton Nascimento já revelou que compõem pensando na voz de Elis Regina? Caetano diz que adora fazer músicas pra Gal Costa cantar. Bethânia se diz a maior intérprete de Chico Buarque. As suas músicas já encontraram a intérprete ideal?
Não, não tenho uma intérprete ideal, até porque as minhas músicas já foram cantadas por muita gente. De modo geral, gosto muito do que ouço e fico feliz que a minha música tenha tocado outras pessoas a cantarem também. É uma outra situação.
No ano passado você produziu o excelente disco "Não Tente Compreender" da cantora Mart´nália. Trabalhar como produtor é uma coisa que faz parte dos seus planos. Tem outros projetos previstos nessa área?
Olha, sinceramente não tenho nenhuma pretensão em fazer isso de novo. Acabei aceitando porque a Mart´nália insistiu muito e acabei cedendo. Foi muito legal esse trabalho, mas exigiu uma dedicação extrema e preciso ter uma espaço para a vida pessoal também, ainda mais com uma agenda tão apertada. A ideia era que eu fizesse apenas quatro arranjos, mas acabei fazendo para o disco todo.
Você pertence a uma geração de compositores considerada imbatível. Você destacaria algum nome contemporâneo que tem despertado sua atenção? Quais cantores e cantoras você tem ouvido e quais mais admira?
Como estou em turnê, no ano que brinco ser o sim (o ano que vem será o 'ano não', em que Djavan se dedica apenas à criação musical) a minha vida anda muito corrida e estou tendo pouco tempo para ouvir música, mas sempre recebo muitos discos na viagem e encaminho para o escritório para ouvir com mais calma depois. Da nova geração, posso citar o trabalho da Amélia Assunção, filha do Itamar Assunção e da Buena Caram, que convidei para abrir o meu show em São Paulo.
E a importância do palco para você?
É imprescindível para mim, assim como o trabalho de composição, que é a minha autoafirmação, questão de sobrevivência. Quando estou em processo de criação em estúdio é quando tenho a oportunidade de melhor extravasar meus sentimentos e, no palco, é onde partilho, divido tudo isso e me sinto em casa. Estar no palco reforça o meu papel na vida.





