ENTREVISTA
Quais são as principais mudanças ocorridas no jornalismo da época narrada em seu livro aos dias de hoje?
A diferença fundamental é tecnológica. Nos anos em que comecei, tudo era mais complicado. Para fazer uma ligação para São Paulo, você levava o dia inteiro. Toda a parafernália disponível hoje facilitou muito nosso trabalho. O sistema de impressão evoluiu muito e as novas mídias trouxeram a instantaneidade da informação. Qualquer imagem pode ser enviada do celular. Quando ocorreu o incêndio do Teatro Ouro Verde, fiquei sabendo imediatamente porque minhas netas postaram imagens no Facebook. Fui atrás da notícia e os jornais já traziam as informações na versão digital. Essa agilidade é uma grande vantagem em relação a boa parte da época em que trabalhei em redação.
Como o senhor vê essa transição do jornalismo impresso para o digital?
Acredito que os jornais impressos vão acabar. Só não sei quando. É um caminho inevitável. Essa tendência já começou no Brasil com o fim da versão impressa do Jornal do Brasil. No futuro, os custos para manter a mídia impressa vão inviabilizá-la. Apesar disso, acho a perpetuidade do jornal um ponto vantajoso em relação ao digital. No dia seguinte, você quer reler uma notícia e o jornal estará lá, enquanto o digital já substituiu aquela notícia por outra. No livro, faço uma previsão do futuro do jornal a partir de um sonho.
O livro traz um bom número de páginas dedicadas ao período da ditadura militar. Poderia contar algum episódio curioso ocorrido na época?
Havia muita perseguição aos opositores do regime nos primeiros anos após a revolução de 1964. A esquerda tentou reagir invadindo terras. Em Londrina, alguns fazendeiros planejavam se armar para defender suas fazendas dos comunistas. Um dia, receberam a visita de um grupo de supostos oficiais do Exército que lhes prometeram entregar uma carga de armamento na cidade de Paranaguá. O que os ruralistas não imaginavam é que eram dois vigaristas aplicando um golpe. Eles pegaram o dinheiro com a venda do suposto material e sumiram. Isso foi parar na capa do jornal. Outra história que conto no livro é a do Major Barros, um caçador de comunistas que anotava placas de carros de suspeitos e entregava a lista para o SNI (Serviço Nacional de Inteligência). Os agentes, porém, estranhavam a lista que continha nomes de pessoas bastante importantes e conhecidas na cidade como Hosken de Novaes, Dalton Paranaguá e Orlando Mayrink Goes. Descobriram que ele tinha problemas mentais e o afastaram da função.
Como era o clima nas redações durante a ditadura?
Havia censores na Redação e na oficina. Depois, ficaram só na oficina. Eles também davam telefonemas proibindo a publicação de notícias sobre isso e aquilo. Lembro de uma matéria do repórter Luiz Carlos Guizzo que deu problemas. Era sobre um protesto de estudantes contra o governador Ney Braga, da Arena, partido da situação. Ele foi intimado a comparecer na Polícia Federal e eu, como editor, fui junto. Chegando lá, o delegado Arco Verde mostrou uma pilha de relatórios sobre matérias da Folha de Londrina. Dizia que só não tomava uma medida mais enérgica porque era amigo do João Milanez (1923-2009), fundador do jornal . A pressão era constante, mas não havia uma ameaça, não era algo perigoso. Havia simpatizantes dos militares nos jornais, que eram mal vistos. A maioria era contrária ao regime por causa da falta de liberdade da imprensa. Ninguém queria ser tolhido.





