ENTREVISTA
Todos os seus discos anteriores trazem parcerias. Este é seu primeiro álbum em que você compôs todas as letras sozinho?
É o primeiro. Todos os outros trazem parcerias com Tom Zé, Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Glauco Matoso, Ademir Assunção e outros. Procuro sempre mostrar o que estou pensando em relação ao mundo que eu vivo no momento em que gravo o disco. E nesse momento tinha muitas coisas pra falar. À exceção da música ''Piá'', que compus em Ponta Grossa (PR) anos atrás, todas as faixas revelam o que estou pensando agora.
De onde vem essa diversidade rítmica presente em sua obra?
Eu nasci na periferia de São Paulo, onde tem muita informação e tudo é muito fragmental e se mistura. Sou resultado disso, da riqueza harmônica e melódica da música brasileira, do rock, dos Beatles, de Hendrix, de Janis, da Tropicália, do choro, do iê iê iê e do forró que era tocado e ouvido em casa o tempo todo. E não tem nada de novo nisso. O Jackson do Pandeiro, o Pixinguinha e a Bossa Nova já traziam essa alquimia.
Quando você decidiu ser músico?
Eu sonhava ser cantor como o Antônio Marcos (1945-1992), que morreu cedo com a mesma idade de Raul Seixas e Paulo Leminski e também como consequência de problemas com alcoolismo. Morávamos no mesmo bairro. Só que eu tinha um calo nas cordas vocais e o pessoal me gozava e me chamava de pato rouco. Aí pensei: vou ser compositor. Daí comecei a participar de festivais nos anos 70 como integrante da banda Matéria Prima. Nessa época conheci o Tom Zé, que foi a primeira porrada estética e com quem aprendi muito.
Algumas canções desse novo disco foram feitas em homenagens a algumas pessoas: à sua avó, a seu amigo e produtor, a um jardineiro. É um disco bem sentimental, não é?
Ele está bastante emocional. Gosto de falar das coisas da cidade, das relações humanas, das dificuldades sociais vividas pelo meu povo, da picaretagem na política e também do meu lado mais pessoal - e nesse novo disco isso ficou mais aguçado. ''Eva Maria dos Anjos'' fala de minha avó, uma cabocla negra-índia pequena mas forte e sagaz. ''Aí Joe'' fiz para meu amigo e produtor Waldir Aguiar, leal e camarada, um parceiro com quem corri o Brasil. Em ''Poda da Rosa'', falo do jardineiro Valdemar que evitou o ferimento de crianças na saída de uma escola pública.
Como está a repercussão do disco?
Fizemos o lançamento na Choperia do Sesc-Pompéia em São Paulo e lotamos a casa. Depois fizemos shows em Porto Alegre (RS) e cidades do interior paulista como Marília, Bauru e São José dos Campos. Tudo sem patrocínio, dentro do caminho independente. Agora estamos fazendo um show mensal na casa noturna Melograno, na Vila Madalena.





