Você está completando 30 anos de carreira. O que ainda a instiga a interpretar?
O que me faz voltar aos estúdios de tevê, ao cotidiano cansativo de uma novela, é contar uma história. Ter algo legal para dizer e causar alguma comoção em quem está assistindo. Ao longo do tempo, a gente fica mais experiente e exigente com o trabalho. Tem de ser algo humano e interessante, que mexa comigo de alguma forma e eu sinta que isso possa ser bacana de ser visto.
Na vida ou no trabalho, a passagem de tempo a assusta de alguma forma?
Prefiro não pensar muito nisso. Não faço essas contas, mas outro dia alguém estava falando sobre isso em casa, e foi aí que parei um pouco para analisar esses anos. É uma data redonda, mas, ao mesmo tempo, tenho tanta coisa para fazer. Enfim, acho que é só um número. Assim como eu tenho 48 anos e sinto, sinceramente, que tenho menos. É tudo muito relativo. Claro que é meio assustador você pensar que 30 anos se passaram. Mas o susto fica menor quando penso que já tenho uma filha de 23 anos. Por que não ter 30 de carreira?
Ao analisar essas três décadas, qual é a primeira coisa que vem a sua mente?
Independência artística. Em um primeiro momento, lá no início, eu fui fazendo tudo o que pintava. Isso foi ótimo para experimentar de tudo um pouco, ter boas e más lembranças de trabalho. Porém, com a maturidade fui elegendo mais as coisas que gostaria de fazer em um determinado momento. Em alguns períodos gosto mais de estar no teatro, penso mesmo que é nos palcos que me preparo para fazer todo o resto. Isso vai mudando ao longo do tempo. Em algumas épocas, faço mais cinema, em outras, me dedico à tevê. E, em um momento de loucura, topo fazer as três coisas ao mesmo tempo, como agora.
Você está gravando ''Fina Estampa'', ensaiando para fazer um filme e em cartaz com a peça ''Deus da Carnificina''. Como consegue conciliar esses compromissos?
É bem difícil, mas desde de que comecei a conversar com a equipe da novela, expliquei minhas limitações. Por isso, gravo sempre até quinta. Só assim dou conta de gravar a novela no Rio de Janeiro e fazer a peça em São Paulo. O projeto para o cinema está no início, então não me toma tanto tempo. Sabia que ia ser apertado, mas pensei no futuro. Ano que vem eu paro um pouco. Não tenho mais 20 anos. Não dá mais para ficar nessa rotina. Tenho filhos, casa, toda uma vida. Preciso me dedicar a algo que não seja apenas trabalho.
A primeira vez em que você trabalhou em um texto do Aguinaldo foi em ''Otelo de Oliveira'', um ''Caso Especial'' de 1983. Quais lembranças você tem desse trabalho?
Tinha 19 anos e acabado de fazer ''Eu Prometo''. O especial foi meu segundo trabalho na Globo. Uma adaptação do texto de Shakespeare, ambientada no universo do samba e gravada no morro. Um trabalho muito lindo! O Roberto Bonfim fazia o Otelo, eu a Desdêmona. Depois, fiz ''Tenda dos Milagres'' (1985), minissérie do Aguinaldo baseada no romance do Jorge Amado. Só voltei a trabalhar em alguma coisa dele em ''Porto dos Milagres'', de 2001, que também era algo dentro do universo do Jorge. Era um barato fazer a Genésia, uma beata virgem, uma personagem superdivertida. Em ''Fina Estampa'' é a primeira vez que faço uma novela urbana e moderna dele.
A forte amizade entre Esther e a médica Daniela, de Renata Sorrah, fez com que se suspeitasse de que as duas teriam um caso, o que já foi desmentido pelo autor da novela. A personagem sofreu alguma censura e mudou de trajetória?
Nada disso. A imaginação de alguns jornalistas e veículos de imprensa ficou mais fértil que o normal. Se antes só inventavam coisas a respeito dos atores, agora os personagens entraram na roda. Não quis dar meus palpites sobre essa polêmica, mas agora todos podem ver que a informação não procede. O envolvimento das duas personagens nunca existiu na sinopse. Seria meio sem sentido, uma mulher que está querendo engravidar, que se predispõe a fazer uma fertilização ''in vitro'' com tudo doado, ainda ter um caso com sua médica. Isso não cabe na trama dela.

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