ENTREVISTA
Qual foi a crônica de maior repercussão de sua carreira?
Olha, cara, eu escrevi mais de 3.000 crônicas. Outro dia tentei selecionar 100 para fazer aquelas famosas coletâneas de Cem Melhores Crônicas e fiquei com 129. Pretensão à parte, é realmente muito difícil. Mas as mais citadas e que mais viajam pela Internet são ''Envelhescência'', ''Uma Tese é uma Tese'' e ''Na Estrada com Danuza''. Mas não sei se são mesmo as melhores. Saiu há pouco tempo um livro pela Editora Objetiva com as Cem Melhores Crônicas Brasileiras de Todos os Tempos. Tive a honra de ter uma crônica minha lá, o que me deixou felicíssimo. Só que a tal crônica considerada uma das melhores do Brasil nem está nas minhas Cem Melhores Crônicas. Para falar a verdade é uma crônica bem fraquinha,
Você acredita que a tradição da crônica esta sendo mantida na grande imprensa brasileira? Há novos autores levando o legado adiante nos jornais?
Sim, a crônica não é uma peça literária internacional. Há poucos anos esteve aqui no Brasil uma escritora austríaca entrevistando alguns de nós - cronistas - para a sua tese de doutorado. O Brasil herdou a crônica de Portugal. Na Espanha há também bons cronistas. O que todo jornal do mundo tem são articulistas e colunistas, que não têm nada a ver com a crônica.
O Brasil continua sendo um país de poucos leitores? Quais sugestões você apontaria para facilitar o acesso do público aos livros e ao universo da literatura?
O Uruguai tem mais leitores que o Brasil. E a população de lá é de 3 milhões de pessoas. O brasileiro parou de ler em 1967 quando os vestibulandos foram obrigados a ler livros nacionais de qualidade duvidosa para aquelas idades. Ou seja, a literatura foi nivelada à química, física, matemática e biologia. Você já viu alguém entrar numa livraria (depois de já ter entrado na faculdade) e perguntar: o que temos de novo de química? Assim que o cara entra na faculdade nunca mais ele quer saber daquelas matérias. Portanto, quando a leitura virou matéria, deixou de ser leitura, prazer, divertimento, pensamento. Ninguém - ninguém mesmo!!! - gosta de fazer nada que é obrigado. Enfim, desculpe o termo, mas o vestibular, desde 1967 tá f.... com a literatura. E ninguém se toca.
Você acredita na extinção do livro impresso agora com a entrada no mercado dos e-books? Como você vê essa transformação nos formatos de leitura?
Isso não existe. Assim que o primeiro cara que tiver toda a sua biblioteca num Ipad e estiver lendo no banheiro e o aparelhinho cair dentro da privada, se molhar e apagar tudo, acaba essa frescura intelectual.
O que o levou a trocar SP por Florianópolis?
Trocaria São Paulo por várias cidades. Uma das cogitadas foi Londrina (verdade!) que sempre foi um grande pólo teatral latino-americano. Meus filhos já estavam na deles, eu não tinha nenhum motivo para ficar lá ouvindo buzina e nego xingando nego nos cruzamentos. E com medo de sair de noite para comprar cigarro.
Você escreveu semanalmente durante anos no Estado de S. Paulo. Atualmente está escrevendo com periodicidade em algum veículo de comunicação?
Não. Desde que o Luis Fernando Verissimo disse no prefácio do meu livro de crônicas citado lá em cima que eu ''era inigualável'' nunca mais me chamaram. Como dizem os internautas heheheh.
Está trabalhando em algum livro, peça de teatro ou roteiro de novela?
Há seis anos estou me dedicando exclusivamente ao estudo e escrita da literatura policial. Já li mais de 600 livros e tenho ainda aqui em casa 168 na estante esperando. Estou levando a sério. Lendo os velhos e os novos. Descobrindo novos autores vivos ou mortos. Já escrevi dois policiais: ''Sete de Paus'' e ''Os Viúvos''. Depois que descobri que o Borges e o Bioy Casares eram editores de literatura policial da editora Emecê, fiquei mais entusiasmado ainda.





