ENTREVISTA
Que repertório você preparou para o show?
Vou fazer um mix de discos anteriores ao Free Blues (que é o meu último e que lancei no ano passado), além de tocar clássicos que sempre rolam, como Hey Joe, de Jimi Hendrix.
Como assim? Não vai tocar nada de seu disco mais recente?
Vai depender da plateia, vou ver na hora. Talvez eu a poupe de experiências novas que requerem um pouco mais de concentração... É que o Free Blues não é um álbum de blues convencional. Foi feito para oxigenar o gênero. Gravei clássicos de blues e rock que fizeram a minha cabeça nos anos 60 e 70, mas usando a eletrônica numa fusão natural. É o disco mais radiofônico de minha carreira, o que tem mais possibilidades de agradar a um número maior de pessoas.
O que o levou a essa proposta musical?
A ideia era reenergizar o blues, que tem sido revigorado desde os anos 60 com injeções de eletrificação, rock e psicodelismo. Agora é a vez da eletrônica.
Como tem sido a reação do público?
Eu me surpreendi com a reação positiva, já que achava que haveria purismo por parte das pessoas. Acontece uma coisa curiosa: os blueseiros xiitas me cobram e querem me ver vomitando sangue pela guitarra, mas falam que a namorada, a irmã, o irmão caçula e até a mãe gostaram do disco. Na verdade, minha aventura por outras sonoridades começou no álbum anterior, o Outros Nunos, que também mostrava novos elementos misturando o blues do Delta com rap, violão acústico de blues de raiz com intervenções do rapper Rappin Hood.
É fácil executar essa mistura de blues com eletrônica no palco?
Tem o problema da rítmica. Quando usamos a batida eletrônica, o compasso da música tem uma velocidade x que se mantém x até o final do show. Para mim, isso é limitador e me dá uma sensação de prisão. Existe uma dinâmica ali entre os músicos que fica reprimida. Quando estou tocando ao vivo com a banda, gosto de ficar mais solto.
Você viu o blues nascer no Brasil e participou de todas as fases experimentadas pelo gênero no mercado nacional. Como está essa cena hoje?
Do ponto de vista técnico, os músicos estão bem melhores. O blues é coisa que você aprende no berço. É um fenômeno cultural. É como o samba do morro: o sujeito que nasce lá traz aquilo no DNA e faz o negócio bem feito organicamente. O blues chegou ao Brasil por volta de 1987 e 1988. As crianças da época, que ficavam fascinadas vendo a gente tocar, cresceram contaminadas pelo vírus do blues e agora tocam bem melhor. Mas se a execução melhorou, a divulgação e os espaços dimininuíram. Mesmo assim, mesmo relegado ao gueto, o blues surpreende com a proliferação de festivais pelo País em cidades pequenas e de porte médio como Viçosa, Rio das Ostras, Guaramiranga e Londrina.





