Como surgiu a ideia de escrever contos inspirados em canções?
Mário Bortolotto: Foi por acaso. Acho que o primeiro conto que escrevi assim foi o ‘‘I drink alone’’ que é o título de uma música do George Thorogood que tem a ver com o fato do cara tentar de todas as maneiras encostar no balcão e beber uma sozinha e não conseguir dada a quantidade de número de chatos que não costumam nos deixar curtir esses momentos únicos em nossas vidas. A partir daí sempre que me pediam um conto, pensava no nome de uma música e tentava estabelecer alguma relação com o que eu estava escrevendo. Já tinha a idéia de reunir os contos num livro e batizá-lo de ‘‘DJ’’.
São todos textos recentes e feitos especialmente para o livro ou tem narrativas antigas amareladas de gaveta?
M.B.: É uma mescla dos dois. Há uma seção que se chama ‘‘Flash-Back’’ que são contos muito antigos. O estilo inclusive, é outro. Se você ler os contos mais antigos, eles são mais verborrágicos, esparramados, com poucos diálogos. Os mais recentes são mais enxutos com diálogos entremeando a prosa, que é como eu gosto de escrever hoje. Dois deles apareceram naquelas coletâneas da Editora Brasiliense dos anos 80, a ‘‘Contos Jovens’’ (Aquele olhar estudado de James Dean) e ‘‘Jovens Contos Eróticos’’ (Balada Cruel de Big Gordon). Alguns contos saíram simplesmente em fanzines de xerox como ‘‘Focas Free Forever’’. Alguns saíram em coletâneas ou revistas. Alguns só na Internet como é o caso de ‘‘Swing on Down’’. E há os inéditos, como os ‘‘Evangelhos’’ que foram escritos para serem transformados numa série de tv e que o produtor autorizou que eu publicasse. Ou alguns contos como ‘‘Dias de pés, poesia e Martha’’ que era pra sair numa coletânea pedólatra e que não vingou.
As músicas que inspiraram os contos são as ‘‘25 mais-mais de todos os tempos’’ de sua escolha pessoal ou são musicas que marcaram a sua vida afetiva? Qual é o lugar dessas canções em seu repertório intetectual ou sentimental ? A propósito, todas elas já fizeram trilha para suas peças ?
M.B.: São músicas aleatórias, escolhidas pelos mais variados motivos. São músicas que têm a ver com a história que eu queria contar, como ‘‘Knockin’ on Heavens’s Door’’, que é a história do cara que vai pro Paraíso e é recebido por Paulo Francis na porta do céu. Ele está lá substituindo São Pedro e pagando umas horas de serviço comunitário. Ele até reclama que ali tá um tédio enquanto o Nelson Motta não chegar. Lá ele toma um porre com Leminski e Itamar Assumpção e é atormentando por Vinicius de Morais e Wally Salomão enquanto esperam pela chegada do Marcos Prado pra eles irem beber umas num clube de strip tease. Quer dizer, é meu tipo de céu, né?

mockup