Folha de Londrina: Gravar e finalizar um álbum desse porte, quase que todo autoral, em apenas três meses, foi opção?
Vanessa da Mata - Na verdade eu tinha proposta da Natura, porque só ia mesmo pra estúdio no outro ano, já que a turnê passada (do badalado ''Sim'') havia percorrido, com 200 shows, Europa, Estados Unidos e Brasil. Então eu tinha a opção de descansar um tempo, mas sou uma pessoa hiperativa por dentro, não consigo parar muito: fico tensa, a cabeça e o pensamento ficam a mil, nem consigo dormir. Comecei a fazer as músicas, e como em um fim de semana saiu boa parte delas (cinco faixas), com a sensação de que eu já as tinha visto, um déja-vu, mesmo, o álbum saiu.
Você surge na composição de todas as 12 faixas, ainda que, em duas, tenha tido parceiros de composição. Onde busca se inspirar para uma produção desse porte?
Na vida, no cotidiano, não tem muito segredo, não. Sou super observadora.
A família é algo sempre presente nos trabalhos, nas memórias que evoca. Em que ela influenciou em sua formação como cantora?
A família contribuiu completamente, apesar de os integrantes não serem músicos. É que é uma família muito musical; minha mãe ouvia muita música, minha avó cantarolava nas igrejas e me levava a elas, ou às novenas - que, aos oito anos, eu opuxava (risos). É uma constatação da religião católica, ainda que, hoje, eu goste de várias religiões, gosto dessa coisa da evolução. Eu mesma misturo minhas religiões - é uma espécie de comungar consagrado.
Você ouve música brasileira, estrangeira, tem suas preferências?
Adoro música brasileira, tenho uma declaração de amor intensa pela música popular brasileira. Também ouço Bjork, por exemplo, mas é algo muito diferente da minha cultura. Aqui no Brasil, uma cantora que ouço hoje é Tulipa Ruiz.
A partir do título do álbum (''Bicicletas, bolos e outras alegrias''), quais as outras alegrias hoje que você compartilha?
As coisas afetivas, não os objetos, e tudo o que isso significa: seja o meio ambiente, a infância... São diversões e são delícias da vida. Ou mesmo uma música que é triste, mas que alivia; uma brincadeira. Diferente da relação de consumismo que a gente vê hoje, e que eu citei em ''Bolsa de Grife'': é como se a pessoa se sustentasse em cima de uma marca para se bancar quando não está com ela. Enfim, são coisinhas que percebo no dia a dia e que gosto de falar, assim como gosto de falar de romance.
Dá para pensar em romance quando se vê, por exemplo, uma realidade em que o virtual e o individual estão tão presentes?
É o que nos resta, né? Se a gente não tem romance de conviver e ter cuidado, não adianta. E não basta o romance: tem que ter amor com os outros, e se não tem romance com o outro, tem que haver romance com alguém, é o que pode nos salvar. Muitas pessoas só conseguem ter relação uma com outra, nem com elas mesmas conseguem. Mas com alguém tem que haver! (J.G.)

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