Ela é uma ‘‘patricinha’’ que compra suas ‘‘lingeries’’ em Miami. Não, ela é uma jovem que namora homens mais velhos. Não, ela é uma ‘‘tchutchuca’’ típica dos bailes funks cariocas. A Raíssa de ‘‘América’’ é tudo isso. Uma jovem instigante, com profundos problemas familiares e uma personalidade multifacetada, do jeito que Mariana Ximenes gosta. Aos 24 anos de idade e com nove de carreira profissional, intérprete de Raíssa mais uma vez se depara com um papel complexo e que exige um exaustivo trabalho de interpretação. Com um currículo que inclui tipos pouco ortodoxos como a ‘‘apimentada’’ Bionda, de ‘‘Uga-Uga’’, e a ‘‘noviça rebelde’’ Celi, de ‘‘Andando nas Nuvens’’, desta vez ela vive as crises existenciais de uma adolescente filha de uma família de classe alta emocionalmente desestruturada – completada pelos personagens Glauco, de Édson Celulari, e Haydée, de Christiane Torloni. Tamanha densidade pegou a atriz meio de surpresa. ‘‘Na verdade, eu não sabia que iriam acontecer todos esses conflitos. E a Glória tem desenvolvido com muita maestria essa relação entre pai, mãe e filha’’, avalia.
A Raíssa tem se mostrado uma personagem com conflitos bem complexos. Como é viver esses conflitos?
  É muito interessante abordar essas questões, até para mostrar como não devem ser as relações, que as relações devem ter um maior aprofundamento, que as pessoas devem tomar mais cuidados, cuidar mais. A filha precisa de atenção, não apenas de bens materiais, já que a Raíssa é de uma família rica. Não apenas os bens materiais são necessários. Há uma necessidade de atenção. Logo no primeiro capítulo, a Raíssa toma um tiro de raspão – em uma coisa, infelizmente, muito comum no Rio de Janeiro, que são os tiroteios – e a solução que a família apresenta é sair do país. E aí há um questionamento: será que sair do país realmente é a solução? Eu não acredito nisso. Não é fugindo da violência que você vai solucionar a vida do país.
Outra polêmica envolvendo a personagem é o fato de ela ser uma menina de classe alta e freqüentar bailes funks. O que acha de a Glória Perez abordar o tema?
  Eu acho muito interessante. Porque o funk é uma manifestação popular espontânea. E é tudo o que a Raíssa estava querendo agora: a verdade. Ela está manifestando suas vontades, está procurando sua verdade interior. O que acontece é que o funk é verdade, é aquilo, as pessoas cantam o que se passa nas comunidades, sem maquiagem, sem rodeio, está ali, a verdade nua e crua. Esse foi o canal de identificação que a Raíssa teve com o funk. É um lugar onde ela não é julgada, ela se diverte, ela ‘‘solta a franga’’. E é bom dançar. Não que cure, mas alivia.
Você tem vontade de fazer algum tipo específico de personagem?
  Ah, muitos. Eu gosto de personagens diferentes. Nenhum especificamente, são tantos. Quando eu vejo um filme e o personagem tem uma garra, uma gana, sofre alguma modificação... É tão prazeroso ficar imaginando ‘‘nossa, que personagem bacana de fazer!’’. Eu gosto do processo de criação, me interesso por isso. Como, por exemplo, a Hillary Swank, que fez ‘‘Meninos Não Choram’’, onde ela era um garoto, e depois fez ‘‘Menina de Ouro’’, onde você vê que a mulher treinou muito. Então, esse tipo de processo, de treinamento, de desafio é bacana. Eu gosto do processo de criação mesmo, é isso que me desafia, que me instiga.
A Raíssa sofre com uma certa falta de compreensão dos pais. E a sua família, sempre apoiou sua decisão de ser atriz?
  No começo foi meio difícil. Eu vim morar sozinha com 17 anos no Rio e acabei não fazendo faculdade por conta disso, por conta dessa opção. Eu já tinha passado para a faculdade de Cinema. E aí eu pedi o apoio deles, porque senão eu seria uma jovem para sempre frustrada em casa. Eles optaram por me deixar vir e por me dar toda a orientação possível. E eu acho que é a melhor solução, mas cada pai tem a sua consciência, o seu método. Mas aí a gente volta para toda aquela discussão de família que Glória Perez aborda, de exercitar o diálogo, a compreensão sempre.

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