Curitiba Saravá é uma interjeição, uma saudação utilizada nos cultos afro-brasileiros que pode se assemelhar a um 'salve', por exemplo. A diferença é que a palavra está carregada da cultura verde-amarela e assim como o verbete, o selo do músico maranhense que ganha o nome ''Saravá Discos'' quer sair impregnado dessa cultura também. O selo estréia com dois lançamentos que nascem imprescindíveis para quem gosta de história, de poesia e de música nacional. Um deles ''Ode descontínua e remota para flauta e oboé De Ariana para Dionísio'' homenageia a poeta paulista Hilda Hilst (1930-2004) e o outro ''Cruel'' o cantor capixaba Sérgio Sampaio (1947-1994).
O primeiro reúne dez poemas musicados de Hilda Hilst interpretados por Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Angela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Angela Maria. Os arranjos são assinados pelo próprio Zeca Baleiro e por Swami Jr. (com Carlos Ernest nos sopros). O segundo é o disco que Sérgio Sampaio estava gravando em Salvador, em 1994, quando morreu, bem distante do sucesso nacional alcançado na década de 70 com ''Eu quero é botar meu bloco na rua'', mas traz coisas inéditas também.
Os dois artistas homenageados não se conheceram e há uma distância de uma década entre a morte de cada um. Em comum, no entanto, as duas obras lançadas por Baleiro tem a qualidade técnica, a primazia sonora e encartes cuidadosos, consolidadas sobre o trabalho delicado de cada artista. Sobre os lançamentos, Zeca Baleiro falou à Folha2, por e-mail. Confira a entrevista.

A idéia de lançar um selo próprio é antiga? Desde quando o projeto vem se desenhando e como ele vai funcionar? Terá uma periodicidade de lançamento, um 'conselho editorial' ou algo semelhante?
O projeto é mais simples e casual do que parece. Tudo começou com a produção desses discos que saíram agora. Quando vi a cara que eles teriam, percebi que não interessaria ao grande mercado, então pensei ''por que não fazer o meu próprio selo?''. Chamei a Rossana, minha empresária, para mais essa parceria e ela topou. A periodicidade vai depender da loucura e do tempo disponíveis. Projetos não faltam. Para esse ano faço outro disco póstumo, de um compositor maranhense fantástico, que morreu em 2004, aos 77 anos. O cara compunha de tudo, samba, marcha, baião, carimbó, um gênio popular. Seu nome é Lopes Bogéa, e devo lançar seu CD até julho. Depois quero fazer um disco infantil.

Você inaugura o selo com duas boas tacadas de uma só vez. Como foi a escolha de lançar esses dois discos?
Minha intenção era concluir um e só então iniciar o outro, mas as coisas se acumularam, e eu não quis brigar com o destino. Vai ver eles tinham que sair juntos mesmo.

Como você conheceu a Hilda Hilst e como aconteceram os contatos entre vocês?
Quando fiz meu primeiro CD, mandei um exemplar a ela. Dias depois recebo um telefonema e, pra minha surpresa, era ninguém menos que Hilda Hilst. Sempre fui um grande admirador de sua obra, nunca imaginei que ela ligaria um dia na minha casa. Conversamos e ela manifestou o desejo de se tornar minha parceira. Mandou-me um disquete com toda a obra poética dela, e lá descobri esses dez poemas, reunidos num capítulo chamado ''Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé''. Resolvi musicá-los e mostrei a Hilda, que adorou. Então pensamos na idéia de fazermos um CD com cantoras.

Ela teve participação no projeto?
Ela sugeriu nomes, participou ativamente, estava muito excitada com o projeto, mas antes que o disco saísse ela morreu, para nossa tristeza. Era uma grande figura, muito contestadora mas muito alegre também, doce e bem-humorada, com um humor mordaz.

E o Sérgio Sampaio? Como foi o seu primeiro contato com a obra dele e qual foi o critério de seleção para as músicas que estão no disco?
Conheci a música do Sérgio ainda menino e me encantei com suas canções e sua voz. Em 89, de passagem pelo Rio, fui a ele apresentado no Circo Voador. Em 94, Sérgio se preparava para gravar seu primeiro CD quando morreu, aos 47 anos. Em 97, gravei uma participação no disco-tributo ''Balaio do Sampaio'' e então conheci seu filho, o João, e sua ex-mulher, a Angela (Breitschaft). Ficamos amigos e então eles resolveram me dar uma fita dat com oito músicas inéditas, todas belíssimas, do Sampaio. Recorremos a cassetes que estavam em poder da família e pescamos mais seis canções. Assim chegamos a esse repertório, que é um grande documento, acho eu. O Sérgio passou os últimos anos num ostracismo danado, ficou muitos anos sem gravar, mas é um artista fundamental da música brasileira.

E como você conheceu o trabalho do Lopes Bogéa, que é tão pouco conhecido no cenário nacional. Já pensou nos intérpretes para o disco?
Conheci o Lopes pessoalmente há uns cinco anos, mas já conhecia seu trabalho. Ele foi um grande pesquisador da cultura popular, multifacetado, artista intuitivo e talentosíssimo. Escreveu livros e compôs mais de 300 canções. Curiosamente ele foi contemporâneo de minha mãe nos primeiros anos escolares. Era uma grande figura, engraçadíssimo e grande boêmio. Gravei mais de 100 músicas na casa dele. Sempre que ia a São Luís, colhia algumas músicas, muitas das quais ele já nem lembrava por inteiro. Infelizmente estava doente e não resistiu. O CD terá participações de Alcione, Rita Ribeiro e Beth Carvalho, além de algumas canções na sua própria voz. Devo cantar umazinha também.

Você tem alguma influência no projeto gráfico das capas dos discos?
Sim, sempre participo de tudo, concebo e depois discuto com os profissionais da área. Tenho sorte de trabalhar com craques sempre. Minha parceira mais constante na aventura de fazer capas tem sido a Luciane Ribeiro, artista carioca com quem já trabalho desde o segundo disco. É curioso você fazer essa pergunta, porque tenho vontade mesmo de um dia meter a mão na massa, fazer uma capa do começo ao fim.

Como está a produção dos seus próximos projetos o disco de samba, de reggae e o infantil? Serão lançados pelo seu próprio selo ou pela Universal?
Por onde serão lançados ainda não sei, só sei que os farei. Primeiro darei cabo do infantil, projeto que existe há tempos na minha cabeça. Talvez para o fim deste ano ou quem sabe para o início do próximo.

Existe um projeto de parceria com o Ramiro Musotto? Quem são seus parceiros no selo Saravá atualmente?
Com o Ramiro pretendo fazer o CD de sambas. Ele é um percussionista/produtor argentino/baiano que, assim como eu, tem grande amor pelo samba e todas as variantes do ritmo, jongo, bossa, samba-rock, etc.

Aliás, fale um pouco sobre a escolha do nome Saravá
Gosto muito da palavra ''saravá'', é brasileiríssima e emana coisas muito positivas. Assim quero que seja o selo, brasileiro e interessante.

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