Não é um ato de muita originalidade odiar Yoko. Duro mesmo é achar alguém que goste dela ou de sua arte. É provável que essa retrospectiva da artista japonesa no CCBB permita que se aprofundem tanto a rejeição quanto a admiração. Admiração pela profunda coerência de seus pressupostos zen, que vêm de 1955. Ela constrói suas ''instruções'' como se fossem haicais, e os espalha pelas paredes do centro cultural: ''Caminhe sobre as pegadas da pessoa à sua frente: 1) no chão; 2) na neve) 3) no gelo; 4) na água. Tente não fazer barulho. Yoko Ono, Primavera de 1964.''

Em contrapartida, sua presença aqui permitirá a exteriorização do desprezo pelo que alguns chamam de ''picaretagens'' - as instalações óbvias, ready-mades pobres, o discurso ''populista'', ou as muitas ''bobagens'' (como as fotos de uma vagina e um seio da obra intitulada ''Minha Mamãe É Linda''). É ela mesma quem põe gasolina na fogueira, ao dizer, sobre a instalação ''Water Event'': ''A água pensa, sente e cura.''

O curador Gunnar Kvaran explicava na manhã de quarta-feira, um pouco antes do encontro de Yoko com uma centena de jornalistas, no CCBB, que uma das perspectivas da arte da viúva de Lennon é anticomercial. Para Kvaran, ela prioriza o valor da idéia e, por conseguinte, diminui o valor do objeto (fetiche comercial das galerias e dos colecionadores).

Filha do happening dos anos 60, avó espiritual de Bjöork, Cibelle e Devendra Banhart, a arte de Yoko incita à liberação, mas parece presa a uma fórmula discursiva, não tem responsabilidade formal. Ela explora pintura, escultura, desenho, instalação e performance (e música popular). No grande átrio do CCBB, uma cascata de cordas brancas vem de uma roldana no terceiro andar e vai se abrindo até ser presa no chão. Em Ceiling Painting (1966), uma sala guarda uma escada de pintor de paredes e, no teto, uma lupa e um quadrado pendem do teto, pendurados.

E os Beatles. Os Beatles são a maldição e a bênção de Yoko. Ela será sempre a viúva de Lennon, quer queiram quer não. Esse é o paradoxo subjacente à sua presença: sem o carimbo Lennon, que tipo de curiosidade despertaria seu trabalho, cuja noção de ''obra aberta'' parece presa a certo período histórico? ''Eu era artista antes de John, fui artista durante os anos que vivemos juntos e sou artista agora'', ela disse, em 1998, na primeira vez que veio ao Brasil.

Yoko detesta perguntas demais sobre os Beatles. Mas sua vida está irremediavelmente atada ao destino da banda (tanto é que até o presidente do fã-clube dos Beatles, Marco Antonio Malagolli, estava na coletiva). Yoko usava chapéu laranja e blusa e calça pretas. Como John ensinou, ela usa a celebridade como trunfo pessoal.

E quando foi exatamente que Yoko acabou com os Beatles? No livro ''Beatles Antologia'', a biografia da banda, fica claro que o casal se sobrepõe à união do quarteto após a gravação de ''The Ballad of John and Yoko'', em 1969. George Martin considera que essa gravação é o ponto em que John deixa de ser um beatle e passa a ser apenas Lennon. Os outros beatles concordaram. ''Eu não liguei por não ter sido convidado para o casamento e não liguei por não estar na gravação, porque não era da minha conta. Se fosse 'The Ballad of John, George and Yoko', então eu estaria nela'', ironizou George Harrison.

mockup