ENTREVISTA - Uma senhora artista
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sábado, 05 de maio de 2007
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Patrimônio vivo da música regional brasileira, a cantora Inezita Barroso, 82 anos, esbanja vitalidade e simpatia. De passagem por Londrina na última terça-feira, onde realizou show alusivo à reinauguração da Praça 1º de Maio e lançamento do Memorial do Pioneiro, a artista contou à FOLHA2 um pouco da sua trajetória artística e pessoal. Com o sorriso largo e sincero, o mesmo com o qual há 27 anos o Brasil está acostumado a receber no programa ''Viola, Minha Viola'', da TV Cultura, Inezita recebeu a reportagem para um bate-papo horas antes do show.
De bem com a vida, Inezita revelou que mora sozinha na companhia do cachorro de estimação e confessou que é uma pessoa bem difícil - o humor melhora depois do café da manhã.
Avessa à cirurgia plástica, diz que prefere morrer do jeito que Deus lhe fez. E com a agenda lotada não tem tempo de fazer exercícios, já que além de comandar o programa de televisão, dá aula em duas faculdades e realiza uma média de dez shows por mês. Parar algum dia? ''Nem pensar'', responde dando gargalhadas a grande senhora da canção popular que canta desde os seis anos. Ela estreou profissionalmente em 1950 na Rádio Bandeirantes de São Paulo, sendo que quatro anos mais tarde começou a fazer programas folclóricos na TV Record. Além disso, também realizou programas sobre a música regional brasileira para o Uruguai, Paraguai, EUA, Israel, antiga União Soviética, França e Itália. Definitivamente, Inezita é uma senhora artista que merece respeito. A seguir os principais trechos da entrevista que ela concedeu à FOLHA2.
De onde vem a vitalidade que você transmite? A Inezita Barrosa é sempre bem-humorada?
Não, eu acordo uma onça. Acordo muito cedo e fico toda confusa com essa história de horário de verão, por exemplo. O tempo é o tempo, não vamos mexer com ele. E eu sou incapaz de quebrar a minha rotina, então eu janto na hora que escurece. Aí vou dormir depois, mas não admito essa história de horário de verão. O mundo é mundo desde que ele apareceu e é uma coisa muita séria.
A que você atribui esse interesse atual pela música de raiz?
A um trabalho grande de muitos anos. Mesmo assim, na minha terra, que é São Paulo, nunca sou convidada a cantar, preferem artistas de fora...Resolvi não olhar para essas coisas, colocar duas viseiras e continuar com o meu trabalho, que é descascar essa raiz, de tirar um pouquinho para que apareça cada vez mais... Tem muita criança querendo aprender viola, estão se conscientizando da própria origem. Para quê imitar o que é de fora, se temos um tesouro artístico musical e poético na mão? O Brasil é lindo.
Você se incomoda com essa onda de sertanejo pop?
Não incomoda. É como se houvesse um muro e as duas coisas ficassem separadas. Uma é sentimento, transmissão de emoções, espontâneo, como é o caipira. A outra coisa é a letra encomendada, que fica tudo igual, com a mesma cara, a mesma roupa, mesmo cabelo, mesmo brinco, isso enjoa. Mas a parte da raiz não enjoa nunca. Vejo surgir orquestras mil de viola, poesias novas e com conteúdo. Não essa história de ''ela me deixou, eu tô chorando, e foi embora...'', tudo igual, não dura. Meu Deus, é a raiz que sustenta a planta, tem essência, emoção. Tem raça!
Vamos falar um pouco da Inezita. Você mora sozinha?
Sozinha, graças a Deus. Tenho meu cachorro querido e amado, meu guarda-costas e morro quando viajo e tenho que deixá-lo sozinho. É um pintcher e se chama Corisco, nome de cangaceiro como o dos outros três que já tive. Ele é uma peste. Eu também gosto de plantas e outros bichos e por isso nunca estou só.
Tem filhos?
Tenho uma filha e três netas. Uma mora em Sorocaba, outra voltou recentemente dos Estados Unidos e a outra está em Londres trabalhando. E tenho dois bisnetinhos, um casal de gêmeos, de seis anos que são terríveis. Amo muito eles, mas moram longe.
Nunca fez plástica?
Nem morta! Cada uma das minhas rugas faz parte da minha história e isso é muito sério. Pretendo morrer desse jeito, com o que Deus me deu, como ele me fez. Não vou mudar nada, nunca mudei, nunca mexi em nada.
Você mantém algum cuidado especial com a voz?
Sim e incomoda todo mundo porque eu tomo cerveja quente, água e refrigerante sem gelo. Gelo eu odeio. Até anúncio de cerveja me dá arrepio. Sorvete aprendi a não gostar, só a cada dois anos quando estou de férias.
Faz aquecimento vocal?
Nada, é passarinho mesmo, é sabiá. Abro o bocão e vamos lá.
Fumar nem pensar?
Fumo sim senhora e bastante! Cuido da água gelada porque ela me faz mal, mas o cigarro não. Não muda nada. Eu estou cantando nos mesmos tons que eu cantava há 20, 30 anos. Os músicos que me acompanham se admiram muito.
Você é do tipo de pessoa que fica relembrando o passado, ou é mais voltada para o futuro?
Nem voltada ao passado ou futuro. Vivo muito o presente. Quando eu preciso do passado é para eu lembrar de alguma coisa importante, uma letra de música, por exemplo.
Quando você era criança já imaginava que seria artista?
Acho que eu já nasci querendo mexer com música ou ser artista de teatro. Eu tinha loucura por isso e cantava desde os cinco anos de idade. Era menininha prodígio e depois comecer a estudar música e não parei nunca mais. Mas profissional eu só me tornei muitos anos depois.
E se não fosse artista, gostaria de ter outra profissão?
Teria a que tenho, além de artista: sou professora. Gosto muito de lidar com os jovens, saber as coisas deles. Conversar com eles, aceitar alguns palpites, brigar com outros. E tem dado certo... Estou ensinando há 22 anos.
Você comentou que acorda brava. A partir de que horas o humor melhora?
(Risos) Isso é um defeito horrível de família, de raiz, o meu avó já acordava dando chicotada na parede (risos). Não pode falar comigo.. Olhar, nem o cachorro... Implico tanto com ele, coitadinho...Vou pra cozinha, faço o meu café, e quando eu tomo um copo enorme de café com açúcar aí eu acordo. Aí começo a ficar boazinha... Toca o telefone e eu atendo amavelmente, mas não me liguem antes das 7h30, vou ser estúpida. É engraçado como isso passa na família, a minha filha é igual a mim. Não falava, ficava emburrada enquanto não tomava o café.
Qual a sua filosofia de vida?
Eu tenho umas manias, vamos dizer assim. Vêm de família, fomos educados assim para nunca ficar parada. Quando era criança e deitava no sofá, cansada depois das aulas de esporte, meu pai já falava se não tinha um bordado para fazer ou um livro para ler (risos). Isso grudou na gente, em mim e no meu irmão. Sou incapaz de sentar em um lugar e ficar pensando na vida. Às vezes é preciso, mas não dá. Tem também um lema com relação aos outros. Até passo por bobona, mas gosto de agradar os outros. Prefiro não entrar em conflito. Gosto de satisfazer a pessoa, porque aí ela vai embora feliz e me deixa em paz. Acho que essa é uma atitude de sabedoria, isso é bom. Às vezes a pessoa te ofende, é invejosa, puxa o seu tapete, mas aí eu sento e penso: ''deixa isso pra lá, vai ver que está com o filho doente, o calo doído...'' E deixo passar, andar. Dali uns dias já está diferente. Não devemos guardar raiva porque senão você fica abatido, não dorme.
Sua intenção é seguir com a agenda lotada por muitos anos?
Eu acabei de completar 82 anos e não faço etapas na minha vida, eu vou indo, andando até onde der. Quando não der mais, eu caio. Enquanto a voz estiver boa, vou até o fim.


