ENTREVISTA - Uma mocinha à moda antiga
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de janeiro de 2004
Roberta Brasil<br> TV Press 
Ana Paula Arósio acredita que tem mesmo ''cara de personagem de época''. Só assim ela consegue explicar porque, em dez anos de carreira, só foi chamada para interpretar tipos do passado. E não foram poucos. Afinal, desde os tempos em que participava dos sofríveis episódios de ''Teleteatro'' do SBT, são sete produções, entre novelas e minisséries fora as peças de teatro, todas ambientadas em algum tempo pregresso. ''É engraçado porque, sem querer, acabo incorporando hábitos do passado. Às vezes, eu me pego até meio 'mocinha de época'!'', conta, aos risos, a intérprete de Yolanda Penteado, protagonista da minissérie ''Um Só Coração'', uma nova heroína na galeria da atriz, de 28 anos.
Com os olhos vivos e os traços irretocáveis de Ana Paula Arósio, a personagem é uma versão romanceada da verdadeira Yolanda Penteado mulher da alta sociedade paulistana que, ao lado de Ciccillo Matarazzo, criou a Bienal e o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Segundo Maria Adelaide Amaral, autora de ''Um Só Coração'', Yolanda viveu uma vida de folhetim, cercada de gente ilustre como o aviador Santos Dumont e o jornalista Assis Chateaubriand. Mas passou de ''princesinha do café'', nos anos 20, à primeira-dama da cultura, na década de 50.
Essa não é a primeira vez que Ana Paula vai encarnar uma mulher que existiu de verdade. O mesmo aconteceu em ''Hilda Furacão'', minissérie de Glória Perez que ela protagonizou em 1998. Guardados os exageros da ficção, a moça de família que vira prostituta no livro homônimo de Roberto Drummond viveu, de fato, na Belo Horizonte dos anos 50. Já em ''Esperança'', a atriz mergulhou na São Paulo das décadas de 20 e 30 período que também será retratado em ''Um Só Coração''.
São oito trabalhos na televisão e oito personagens de época. Como você explica isso?
No início, achava que era simples coincidência, talvez porque o número de produções desse gênero tenha aumentado. Mas agora não sei... Acho que devo ter mesmo cara de época. Só pode ser! A verdade é que todo trabalho para o qual me chamam ou que me interessa fazer é assim. Até as peças de teatro! O lado bom é que aprendo muito nas pesquisas. E também me sinto prestando um serviço, levando informação para as pessoas. Afinal, muita coisa que é mostrada num trabalho de época não está nos livros didáticos. Sabe que algumas coisas eu acabo até incorporando para a minha vida? Às vezes, eu me pego meio ''mocinha de época'', sentando bonitinho, essas coisas.
E como foi compor a Yolanda Penteado?
Estudei vários recortes dela e aprendi muito. Até então, eu sabia apenas que havia existido uma mulher extraordinária, que tinha construído o Museu de Arte Moderna e feito a Bienal de São Paulo. Mas não sabia quem ela era e porque ela fez tudo isso. Só descobri ao estudar para a minissérie. A produção me forneceu bastante material. Li a biografia da Yolanda, uma edição da ''Vogue'' especial, toda sobre ela, e algumas coisas do Modernismo.
Não é complicado interpretar uma mulher que existiu de verdade?
Não temos a necessidade de reproduzir a semelhança física. O Manga me pediu para não fazer uma cópia do que seria a Yolanda Penteado. Então, estamos usando várias licenças poéticas, baseadas na personalidade dela. Foram muitas as adaptações e temos uma boa margem para brincar. Além disso, as próprias limitações de interpretar uma personagem de época acabam ajudando na composição.
A personagem passa por transformações ao longo da minissérie. Como será
isso?
Eu começo com 20 anos e chego aos 50. Vou passar por um envelhecimento gradual, com mudanças no cabelo e na maquiagem. Mas tudo bem sutil. A Yolanda também muda de comportamento. Na juventude, ela é uma Sissi, uma princesinha do café. Vai crescendo aos poucos, à medida em que se depara com as adversidades. Primeiro, enfrenta a autoridade da mãe, que a obriga a um casamento arranjado. É aí que percebe que tem de se adaptar à vida, e não o contrário. Só que a Yolanda nunca desiste da própria felicidade. Tanto que pede a separação do primeiro marido num tempo em que as mulheres traídas sofriam caladas. Mas ela não. Toda a história da Yolanda é assim, marcada por uma força extraordinária. Admiro muito isso.
Realmente, as suas personagens têm sempre uma personalidade forte...
Na verdade, eu não sei direito se os papéis vêm para mim porque são de mulheres fortes ou se sou eu que dou um jeito de eles ficarem fortes. Mas o fato é que gosto de personagens assim. E como sempre faço composições de época, esta força fica mais evidente ainda. Afinal, as mulheres do passado eram reprimidas e precisavam lutar muito pelos seus direitos e suas paixões. Eu me identifico com elas nesse aspecto. Não seria uma pessoa que ficaria conformada num casamento infeliz ou qualquer tipo de relação, pessoal ou profissional, que me fizesse mal.


