ENTREVISTA - Um show de peruagem
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de junho de 2005
Renata Petrocelli<br> TV Press 
Toda vez que deixa as gravações de ''América'', Daniela Escobar toma sempre a mesma primeira providência: prender os cabelos. As madeixas alouradas são o único detalhe que a atriz ainda não conseguiu ''aceitar'' na peruíssima Irene. ''Não tenho vocação para ser loura'', decreta, entre risos bem mais discretos que os da personagem. Acostumada a viver papéis dramáticos, como a judia Bela, de ''Aquarela do Brasil'', e a contida Perpétua, de ''A Casa das Sete Mulheres'', Daniela custou a acreditar que pudesse dar vida a uma mulher tão escrachada quanto a esposa do ricaço Laerte, interpretado por Humberto Martins. E o começo não foi mesmo dos mais fáceis. ''As primeiras frases dela foram uma tortura. Não conseguia dizer: 'Só entro neste carro se estiver no meu nome'. Hoje, falo qualquer absurdo'', garante, completamente à vontade.
A distância entre a ''tortura'' e a diversão foi vencida com uma lição da qual a atriz sempre ouvira falar, mas só com Irene aprendeu de fato. ''Não criticar a personagem é fundamental, principalmente se a gente não acredita que ela possa existir'', ensina.
Depois de tantas personagens dramáticas, você se imaginava capaz de fazer comédia na tevê?
Só passei a me imaginar fazendo comédia depois de participar de ''Kubanacan'', que era uma comédia rasgada. Foi uma participação pequena, mas me vi realmente engraçada, com jeito, olhares, maneira de falar e um texto ''cuspido'' com uma rapidez que não lembravam em nada aqueles tempos lentos do drama. E isso me acendeu a vontade de fazer comédia. Acho que a tevê, de um modo geral, oferece pouquíssimos desafios para os atores. As pessoas nos escalam pelo tipo físico. Se eu sou mais clássica, faço sempre a rica. A Perpétua, de ''A Casa das Sete Mulheres'', por exemplo, era muito parecida comigo. Eu poderia ser daquele jeito se tivesse nascido no século retrasado. Mesmo a Maísa, de ''O Clone'', que era amarga, ressentida, poderia ser próxima do meu universo se eu cismasse em não largar de um marido ''banana'' como aquele. Já a comédia não me é nada familiar, porque não acho graça em bobagem. De tudo que houve de humor na tevê nos últimos 15 ou 20 anos, só gostei de ''Os Normais'' e ''Os Aspones''. Não é qualquer comédia que me faz dar risada.
Você tem conseguido achar graça da Irene?
Às vezes sim, mas é difícil. Há uns lances do casal que eu acho que funcionam muito bem, mas às vezes ainda me acho esquisita. No começo, tinha muito medo de não acertar, de fazer uma ''mulher veado'', aquela que só fala alto. E acho que fui um pouco por este caminho mesmo, com muitos gestos, uma coisa muito teatral, que na tevê não funciona mesmo. Hoje gosto do resultado, acho verdadeiro, vejo que não é uma caricatura de um personagem engraçado.
E o que foi que mudou?
Acho que humanizar é a regra número um para qualquer personagem dar certo. No começo, achava tudo muito esquisito: as coisas que ela dizia, a maneira como vivia, o universo dela era muito distante de qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Mas não posso criticar o que ela diz ou faz. E fui percebendo que ela é uma mulher criança. Ela tem espírito infantil, é boba, inconsequente, gosta de gastar, mas não faz maldade. Este caminho foi o que me fez descobrir esta mulher de verdade. Por um lado, ela é materialista, calculista, só pensa no dinheiro do marido. Mas também gosta dele, não trai, não pensa em outros homens. Se ele a cobrir de jóias e de roupas o resto da vida, vai continuar sendo o homem perfeito para ela. Mas, se começar a ser mesquinho, ela se ''desapaixona'' mesmo.
O que o público tem achado deste ''estilo''?
Tenho ouvido coisas engraçadíssimas, que me deixaram muito surpresa. Muita gente vem dizendo: ''Aí, Irene, você está certa, é isso mesmo. Tem de aproveitar!''. E são pessoas de todas as classes sociais. Sinto um carinho grande do público por ela. É como se ela dissesse coisas e agisse de uma maneira que as pessoas até gostariam de imitar, mas não têm coragem. Então elas apóiam. Até porque ela é alegre, para cima, não faz mal a ninguém, se contenta com umas ''bobagens'' uma carteira, uma bolsa, uma roupa, uma viagem. E o cara é milionário, ele pode dar. Na cabeça dela, não é uma coisa absurda, embora não tenha limites. Na verdade, o absurdo é justamente não ter limites. Ela só quer grife, coisas caríssimas. É uma louca.
O fato de ser uma personagem tão diferente de seus outros trabalhos mudou seu processo de composição?
Tudo está na observação. Tive de ficar com o olhar mais aguçado para o externo. Ela foi composta de fora para dentro, enquanto todas as minhas outras personagens foram compostas de dentro para fora. Ela veio a partir da roupa, do cabelo, do físico. Foi a partir deste visual que eu entendi a essência, o coração e a cabeça desse tipo de pessoa. Foi ao contrário. Hoje em dia eu já cheguei ao interior dela. Não importa o que eu vista, ela está lá.
Foi fácil encontrar mulheres como ela por aí?
Eu tenho uma grande amiga que, na aparência, é uma perua, uma verdadeira Irene. É o tipo de pessoa que tem um coração enorme, mas tem prazer no brilho, no tamanco de oncinha, que entra num shopping quando está deprimida e gasta horrores. Ela trabalha feito uma louca, está gastando o dinheiro dela, não é nem o do marido. É um laboratório na minha frente. E tenho outra amiga que não vai correr na praia se não estiver com rímel no olho.
O que elas acham da Irene?
Elas acham o máximo, batem texto comigo, falam: ''Não, amiga, é assim que você tem de fazer''. E fazem. Falam aquele texto com uma naturalidade impressionante. Sempre que estou lendo os blocos de capítulos, me inspiro diretamente nelas.
Você foi casada com o Jayme Monjardim e fez vários trabalhos com ele. Como reagiu à sua saída da novela?
Achei uma pena, porque ele é um grande diretor. Mas achei mais pena ainda o ''carnaval'' que foi feito em torno disso. A autora tem de escrever, o diretor tem de dirigir, a novela está lá e não vai sair do ar, com este ou aquele diretor. Achei um erro da emissora expor isso. Acho que não tinha de ter nenhum comunicado oficial. Troca-se o diretor e segue-se em frente. Sou contra este tipo de exposição desnecessária. É ruim para ele e para a autora. Eles se desentenderam, todo mundo tem direito de se desentender. Achei isso uma guerra de egos e não sou a favor desse tipo de coisa. Foi falta de postura da emissora. Não acredito que uma emissora como a tevê Globo precisasse expor seus profissionais desta forma.
Em 11 anos na tevê, você tem seis novelas e cinco minisséries no currículo. Considera-se uma privilegiada por fazer tantas minisséries?
Totalmente. Eu prefiro minisséries. Diretores, por favor pensem em mim para minisséries e participações especialíssimas em horários tardios. É menos tempo com um personagem e a gente tem noção de como acaba. Sabendo o final, é possível trabalhar muito melhor o personagem. E é mais fácil fazer bem-feito. Como é o ''filet mignon'' da emissora, e não tem o compromisso de estar sempre no ar, a própria casa dá ao diretor e aos autores mais tempo para elaboração. Consequentemente, é mais cinematográfico, mais bem cuidado e eu adoro.


