Mesmo antes de começar a aparecer em ''Celebridade'', o presidiário Ubaldo era um dos personagens mais comentados da novela de Gilberto Braga. Justamente por isso, Gracindo Jr., seu intérprete, encara o papel como uma espécie de homenagem do autor, de quem é amigo há anos, apesar de nunca ter participado de uma novela sua. ''É o sonho de qualquer ator. Os outros personagens criam todo o clima e eu só tenho de pontuar as aparições dele'', justifica o ator. O privilégio, no entanto, acaba dando mais trabalho. Gracindo admite que há um determinado momento numa novela em que os atores deixam de ter tempo para ler os capítulos inteiros. Mas ele faz questão de ir bem além de suas próprias falas quando estuda os textos de ''Celebridade''. ''Preciso saber o que se passa na cabeça de cada personagem sobre o Ubaldo'', explica.
Ao falar do personagem, Gracindo atua, quase sem perceber, como uma espécie de advogado de defesa do ex-presidiário. E, apesar de não arriscar muitos palpites sobre o desenrolar da trama, aposta que ele seria um dos menos prováveis assassinos de Lineu, personagem de Hugo Carvana, que vai morrer nos próximos capítulos da novela. ''A princípio, as suspeitas vão recair sobre ele. Mas é claro que o Gilberto tem alguma carta na manga'', especula, com ar de quem está no ramo há 45 anos.
Quais aspectos mais pesaram na construção do Ubaldo?
O Ubaldo é um personagem interessante, causa uma estranheza grande. Costumo partir sempre de exemplos: ou pessoas que conheço, ou figuras que observo nas ruas, ou o trabalho de colegas em filmes. Começo procurando uma inspiração para criar uma leitura pessoal. No caso dele, me lembrei logo do Robert de Niro em ''Cabo do Medo'', por causa da semelhança física. Então, foi o aspecto físico que mais me chamou a atenção.
O fato de ter de maquiar todo o corpo com as tatuagens do Ubaldo ajuda na composição dele?
Ajudou muito no começo, porque pesquisamos como seriam estas tatuagens, o estilo do traço dos presidiários, o que serviria e o que não serviria. Na primeira vez em que pintei o corpo, foram oito horas de trabalho. Aproveitei para me abastecer de impressões, de informações. Já no dia-a-dia, só repito este processo a cada 15 dias, porque gravo de uma vez só as cenas em que ele aparece sem camisa.
O que o levou a voltar à tevê depois de três anos de afastamento?
O fato de ser um trabalho do Gilberto Braga influenciou muito. Tenho com ele uma relação pessoal e nunca trabalhamos juntos. Além disso, precisava fazer tevê, porque é uma vitrine. E a novela das oito é uma vitrine melhor ainda. A Globo é fundamental para qualquer ator, porque o mercado é diminuto, os colegas precisam conhecer o meu trabalho, eu preciso fazer parte do núcleo que está atuante na profissão.
Mas você acha que tem esta necessidade mesmo depois de 45 anos de carreira?
Ator brasileiro está sempre começando, não importa o tempo que tenha de carreira. É necessário conquistar o nosso espaço a cada dia. Eu tenho o conforto de já ser reconhecido pelos personagens que fiz, por fazer pelo menos um filme por ano e dirigir ou atuar em duas peças anualmente. Mas a cada trabalho ainda tenho de mostrar que sou bom. Se for mal em determinado trabalho, vai ser deste erro que as pessoas vão se lembrar.
Como você costuma selecionar os trabalhos na tevê?
Não estou com esta bola toda para ficar escolhendo os trabalhos. De um modo geral, escolho um autor e confio que ele vai me dar margem para desenvolver um bom trabalho. Isso é fundamental em novela, porque a gente nunca tem noção do que vai acontecer. Então, o que acho fundamental em tevê é ter confiança no autor. Só à medida em que a novela caminha é que vamos tendo mais dados do personagem, e desenvolvemos nosso trabalho junto com o autor, um alimentando a criação do outro.

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