Curitiba - A escritora gaúcha Letícia Wierzchowski vai assinar o roteiro de uma das obras mais aclamadas da literatura brasileira. ''O Continente'', primeiro volume da trilogia ''O Tempo e o Vento'', de Érico Veríssimo vai ganhar as telas sob a direção de Jayme Monjardim. O diretor que estreou no cinema em 2004, com o premiado ''Olga'', comprou os direitos da obra. A data de estréia do longa-metragem ainda não foi divulgada, mas Letícia e o escritor Tabajara Ruas, também gaúcho, vão começar a trabalhar no roteiro nos próximos dias.
''Eu estou contente de ter sido convidada. Vai ser minha primeira incursão no cinema e qualquer trabalho novo gera expectativa'', disse Letícia à Folha. Ela esteve em Curitiba para lançar seu mais recente livro, ''Uma Ponte Para Terebin''. Essa não será a primeira vez que Letícia e Monjardim vão trabalhar juntos. Ele dirigiu a minissérie ''A Casa das Sete Mulheres'', baseado no romance homônimo da escritora. Depois do sucesso da obra televisiva - exibida pela Rede Globo em 2003 e programada para reprisar no segundo semestre deste ano na mesma emissora - a escritora gaúcha viu os holofotes iluminarem sua então recente produção literária.
Mas desde que a minissérie estreou e as vendas e traduções do livro alavancaram consideravelmente ela mostrou que não é mulher de uma só obra. De lá para cá, já lançou ''Um Farol no Pampa'', continuação do seu romance histórico de maior sucesso e acaba de lançar ''Uma Ponte Para Terebin''. Para promover o lançamento do seu mais recente livro pela Editora Record, ela esteve em capital, participando do Projeto Sempre um Papo, no Teatro da Caixa.
''Eu me surpreendi porque tinha pouca gente no evento, mas eram pessoas muito interessadas e tinha até uma senhora polonesa que tinha uma história muito comovente'', contou Letícia. Em seu novo livro, ela mergulha nas próprias raízes. Conta a história de seu avô, Jan Wierzchowski, um polonês que imigrou para o Brasil, mas voltou à Polônia como soldado na Segunda Guerra Mundial. Uma história comovente, registrada em inúmeras cartas e fotografias deixadas para a família.
A escritora conta que esse projeto começou há cerca de cinco anos, embora desde criança, quando o avô morreu, ela sentisse uma grande atração pela história da sua família. ''Eu comecei a entrevistar alguns parentes, pessoas mais velhas, e conhecer histórias fascinantes. Eu não sabia, por exemplo, que a mãe da minha bisavó tinha sido queimada viva dentro de casa. São histórias muita tristes, que eu via em filme, mas não sabia que tinha acontecido com a minha família'', revela.
O start para a produção do livro aconteceu depois que Letícia encontrou na casa da mãe uma caixa repleta de cartas polonesas. Correspondências trocadas durante um período de 20 anos. Há dois anos e meio, Letícia começou a traduzir esse material (trabalho terceirizado, já que ela não fala polonês) e foi conhecendo ainda mais detalhes da história da família. Foi quando surgiu o mote de ''Uma Ponte Para Terebin''.
O avô de Letícia, imigrante polonês, chegou ao Rio Grande do Sul em 1936, três anos antes de seu país ser invadido pela Alemanha. Era um aventureiro. Aos 14 anos, abandonou a pequena aldeia de Terebin e foi parar em Varsóvia. Lá, por ajuda do destino, caiu nas graças de um engenheiro, que lhe arrumou o primeiro emprego, como vigia de obra. E mais: pagou seus estudos. A partir daí, a sorte de Jan estava lançada: seria na construção civil que tentaria ganhar a vida.
Mesclando fatos históricos com a vida dura de um imigrante no início do século 20, ela descortina a chegada do avô ao Brasil, a adaptação a um novo mundo, uma nova língua e outros costumes. Assim como em outros dois romances - anteriores (''A Casa das Sete Mulheres'' e ''Um Farol no Pampa'') - o livro é carregado de informações históricas. ''É evidente que isso dá um trabalho danado'', brinca Letícia.
Em ''A Casa das Sete Mulheres'', por exemplo, ela contou com uma vasta bibliografia sobre o assunto. Mas em ''Uma Ponte para Terebin'' foi mais difícil, conforme conta a autora. ''Aqui no Brasil a bibliografia sobre esses conflitos da Polônia é muito rara. Eu não teria conseguido reconstruir esse período sem a internet, por exemplo e sem a ajuda dos contatos que fiz pela rede'' comenta complementando. ''É um trabalho difícil, mas muito interessante e que me dá muito prazer''.
Quanto ao seu próximo trabalho, a experiência inédita de escrever o roteiro da primeira parte de ''O Tempo e o Vento'', Letícia sabe que vai exigir bastante dedicação, mas se mostra animada. ''Essa foi uma obra que marcou a minha vida e minha formação. Quando escrevi 'A Casa', imaginava que aquelas personagens eram muito semelhantes aos personagens do livro'', revela. Não é à toa que a escritora já foi apontada por críticos de beber na mesma fonte de Veríssimo, um dos escritores mais aclamados da literatura brasileira.
Leticia Wierzchowski nasceu em Porto Alegre, no ano de 1972, e estreou na literatura em 1998 com o romance ''O Anjo e o Resto de Nós''. De lá para cá, publicou dez livros de ficção. E mesmo envolvida com o lançamento de ''Uma Ponte Para Terebin'' e com o roteiro do longa-metragem, já tem uma nova carta na manga. Uma novela ainda sem título, mas que já está sendo revisada e terá lançamento em breve.

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