ENTREVISTA - Um olhar sobre o artesanato brasileiro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de setembro de 2004
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Beberibe, Cumbuco, Maragojipinho, Tracunhaém, Mocambo, Roça Grande... tão surpreendente quanto os nomes das localidades que visitou foi a descoberta feita pelo arquiteto e decorador paulista Sig Bergamin a respeito da variedade do artesanato brasileiro, em viagens a várias regiões do País. A experiência está registrada em fotos e textos no livro ''Adoro o Brasil'', lançado no ano passado em São Paulo e apresentado pelo autor esta semana em Londrina, na feira Arqui.Tec.
Bergamin viajou por praias, conheceu o interior, visitou as chapadas, viu de perto as festas populares e, depois de suas andanças, diz ter aberto o coração e os olhos para o artesanato brasileiro e sua diversidade, riqueza e encantamento.
No livro (bilíngue, em português e inglês), o arquiteto mistura história, personagens e lugares pitorescos; fala do artesanato quase sempre ligado à culinária e ao cotidiano de quem o faz; aborda capítulos sobre cerâmica e pedra, tecidos e tramas, prendas e rendas, ponto e linha, gente da selva e da fibra. Dicas de estética permeiam a publicação. Confira a seguir trechos da entrevista que Sig Bergamin concedeu à Folha2:
Qual o propósito da publicação?
Resgatar o artesanato, os lugares e as cores brasileiras, tudo aquilo que representa o nosso vernáculo, que pode ser absorvido como informação para uma decoração que tenha a nossa identidade, sem ser folclórica ou pitoresca; moderna, enfim.
A quem se destina o livro?
Às pessoas que não conhecem o Brasil, àqueles que conhecem e querem saber mais sobre gente e artesanato desse imenso país; turistas que querem conhecer e comprar. Como um guia, ele contém uma lista de endereços para se chegar aos lugares, apreciar e comprar.
Como surgiu a idéia de escrevê-lo?
Existe uma escassez das informações sobre arte e artesanato do interior brasileiro. Informações preciosas existem nos trabalhos iconográficos da (arquiteta) Lina Bo Bardi e da (fotógrafa) Maureen Bisilliat, mas é muito pouco. O livro, modestamente, pretende ser uma contribuição a mais.
Qual foi seu roteiro?
Não foi um roteiro rigidamente detalhado, dependeu de variáveis como o tempo, as estações, a dificuldade de acesso, mas sempre esteve presente a noção de importância, de relevância ®MDBO¯®MDNM¯dos locais e das coisas apresentadas, da significação delas dentro do imaginário brasileiro, que vem dos livros de história do Brasil, da literatura e do primeiro modernismo brasileiro.
Você diz ter percebido que o artesanato brasileiro é meio desgovernado... Em que sentido? Como corrigir isso?
O nosso artesanato acontece meio ao deus-dará, é mal-assessorado, não tem muito amparo, nem governamental nem da iniciativa privada. O artesão não tem acesso a informações sobre o que é vendável®MDBO¯®MDNM¯ nas grandes cidades, qual o dimensionamento de objetos de uso como toalhas, jogos americanos, pratos. Isso é só um pequeno aspecto. É preciso integrar essas pessoas dentro do mercado, sem descaracterizar aquilo que lhes é próprio. Ou é isso ou é só um monte dessas manifestações de arte.
Em suas andanças, o que você achou de mais atraente no artesanato brasileiro?
A multiplicidade de coisas, o engenho das soluções para objetos de uso em um meio precário, a inteligência no uso das cores, enfim, da beleza que emana disso tudo.
Como é o artesão brasileiro de hoje? Dá para definir um perfil?
O Brasil está na moda, aqui e no exterior, portanto, o aumento da demanda torna o artesão hoje mais sério, mais compromissado com os aspectos comerciais do seu trabalho, e isso tende a melhorar.
SERVIÇO:
- ''Adoro o Brasil'', livro do arquiteto e decorador Sig Bergamin. Editora: A Girafa. 283 páginas. Preço: R$ 63,00.


