ENTREVISTA - Um músico entre a dor e a paixão
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domingo, 28 de novembro de 2004
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Quem vê o pianista João Carlos Martins, 64 anos, não imagina tudo o que já passou. As mãos, que há dois anos estão impossibilitadas de tocar o piano, o consagraram como um dos maiores intérpretes de Johann Sebastian Bach (1685-1750), e hoje se movimentam para a regência. Sob a sua batuta, na última quinta-feira, esteve a Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (OSUEL), em concerto comemorativo aos 14 anos do Catuaí Shopping. Admirado com a qualidade do som, ele fez apenas um rápido ensaio com a orquestra, coisa comum para quem tem percepção musical e já gravou todo o repertório de Bach, muitas vezes tendo que enfrentar espasmos insuportáveis de dor. Na ocasião, foi exibido, pela primeira vez na região Sul, o documentário ''A Paixão Segundo Martins'', da cineasta alemã Irene Langemann, mostrando a trajetória do pianista que se apresentou nas principais salas de concerto do mundo antes de passar pela tristeza de perder o movimento das mãos.
Mas a vida de Martins não é só marcada pela dor. ''Esperança'' é a sua palavra-chave e impressiona ver sua desenvoltura e bom-humor ao relatar os desafios que enfrentou. Brigar com Deus? ''De vez em quando'', confessa ele, que sempre faz as pazes no final e vive agradecido pelo dom da vida e da música.
Martins começou a tocar piano aos sete anos. Aos 25 já brilhava em escala internacional, quando teve a sua carreira abruptamente interrompida pela lesão do nervo cubital (próximo ao cotovelo), em decorrência da entrada de uma pedra no seu braço durante um jogo de futebol. Depois de sete anos sem tocar, voltou triunfante em concerto no Carnegie Hall, em Nova Iorque. Em pouco tempo, começou a sofrer de Lesão por Esforço Repetitivo (LER), que o afastou dos palcos por mais sete anos. Em 1995, durante viagem à Bulgária, foi assaltado e recebeu uma coronhada na cabeça que causou uma lesão cerebral. Após intenso tratamento, passou a tocar com a mão esquerda, até que esta também fosse lesionada, o que o levou a se dedicar à regência.
Em entrevista à Folha2, Martins conta detalhes da sua trajetória, que, como ele diz, é cheia de altos e baixos, mas também de música, paixão e esperança.
Você se sente incomodado em falar sobre seus problemas de saúde a cada entrevista?
Olha, sobre isso, eu sempre conto a história de um rapaz que foi preso junto com outros três loucos e levado a um manicômio na saída de um jogo de futebol. Seis meses depois, aparece uma junta médica e ele pede para que o tirem de lá imediatamente alegando que trata-se de um erro o fato dele estar preso com três pessoas loucas sem que ninguém lhe peça uma única explicação. Aí, o levam para a sala do diretor. Lá, ele pega um tijolo, joga na cabeça do diretor e afirma que faz isso para que não se esqueçam de tirá-lo do manicômio. Afinal, ele não é louco. Então, sobre a saúde, é como se a cada dois meses, alguém batesse com o tijolo na minha cabeça e falasse: ''olha, é só para você não se esquecer''.
Você já está 'calejado'?
Já. Isso faz parte da minha vida e eu acho que é o direito das pessoas, dos jornalistas perguntar, seja quando estou em Nova Iorque, Paris ou aqui... Esse assunto de saúde faz tanto parte da minha vida como o de Bach.
Qual foi a sua reação quando soube que estava com o movimento dos braços prejudicado em decorrência de um acidente em um jogo de futebol?
Na primeira vez foi doído, eu fiquei revoltado e distante do piano por sete anos. Eu não tinha condições psicológicas para encarar o piano. Eu tinha 27 anos nessa época. Depois voltei a tocar, mas tive LER e novamente foi dramático e fiquei mais sete anos sem tocar. Se pudesse voltar atrás, teria voltado a estudar regência quando tinha 27, 28 anos. Mas como eu sou daqueles que não se arrepende de nada, parto do princípio de que tudo é válido, que tem uma razão de ser, é a missão que Deus dá e o destino que você cria.
O senhor atribui ao destino, à fatalidade ou a Deus os problemas que o impediram de tocar piano, enfrentando uma grande sequência de dor?
Para gravar o final da obra de Bach, cheguei a ficar um ano deitado porque a cada palavra que falava eu tinha um espasmo na mão. Isso porque as células que foram afetadas no cérebro eram as mesmas da fala. Hoje eu tenho os mesmos espasmos, mas não sinto dor porque eles cortaram o meu nervo, depois que concluí as gravações de Bach, e a dor não chega no cérebro. Antes era uma dor alucinante. É difícil, mas se eu tenho uma palavra na minha vida é esperança. Posso ter tido um problema sério, mas sempre que acordo agradeço a Deus por estar vivo, fazer música. Então a palavra símbolo da minha vida é esperança. Como meu pai viveu até os 102 anos, e eu tenho 64, acho que ainda tenho uns 40 para queimar.
E como está sendo a experiência de reger?
Eu sou daquelas pessoas que tem uma determinação de procurar aprender com cada fato da minha vida. Por exemplo, na regência, quando estou andando na rua, observo os movimentos de um guarda de trânsito, no jogo de futebol, os do juiz e vou aprendendo com isso. Eu peguei os dez mandamentos da regência e estou criando o meu próprio estilo. Já fui reger em Londres e gravei os dois primeiros CDs com a English Chamber Orchestra.
O senhor gostou do resultado?
Para quem estava acostumado a tocar e gravou 33 CDs, eu gostei muito.
O senhor é perfeccionista?
Sou o cara mais chato pra gravação. Eu sempre acho um defeito. Eu praticamente não durmo durante cinco dias. Eu fico no hotel ouvindo centenas de vezes o que está sendo feito. Eu sou um cara metido a perfeccionista.
No documentário sobre sua vida, há uma cena em que o senhor aparece num centro de umbanda. É praticante dessa religião?
Não, fui só uma vez. Eles chegaram a falar que eu ia voltar a tocar, mas o não deu muito certo. Acho que o espírito entendia mais de perna...(risadas)
O senhor tem religião? Chegou a brigar com Deus nos piores momentos?
Sou católico. Ia muito à igreja, mas também tinha momentos em que me afastava e me sentia o maior injustiçado do mundo. Mas hoje me sinto o cara mais feliz do mundo porque Deus me deu a oportunidade de gravar a obra inteira de Bach, da minha forma, e ter a oportunidade de reger em várias cidades.
E como foi ensaiar com a Orquestra da UEL para o concerto em Londrina?
Foi sensacional a minha relação com os músicos e achei maravilhoso o som da orquestra, que é resultado do trabalho do regente e da própria orquestra. Esse tipo de coisa não tem preço e eu só tenho que agradecer.
A escolha por Bach foi casual na sua carreira?
Não, acho que é porque eu comecei a tocar Bach com oito anos e fiquei nisso.
O senhor fala que Bach foi a catedral e os outros compositores seriam as igrejas...
Ele foi a catedral de todos. No documentário, eu falo para o Pelé que fica dizendo que Deus criou Bethoveen para a música e Pelé para o futebol , passar a falar que Deus criou Bach para a música e Pelé para o futebol, porque Beethoven é como o Maradona, é quase Bach, mas não é.
Qual a sua avaliação da música erudita no Brasil?
Eu acho que tem coisas fantásticas, como diversas orquestras que estão surgindo. O Brasil está novamente entrando no pique de recuperar os anos 50, que foram gloriosos. Depois, houve uma queda, quase todos os artistas foram para o exterior, mas nos últimos dez anos está havendo nova movimentação.
Por que o senhor ficou 18 anos sem tocar no Brasil?
Primeiro porque eu defendia que os músicos têm que lutar para terem o reconhecimento que eles merecem. Por exemplo, ontem eu soube que teve uma mudança de repertório e hoje, às 5h30, estava em volta da piscina estudando, aqui em Londrina. Acho que em termos culturais a gente faz tanto pelo país e o país tem que reconhecer o que a gente faz. A arte, o esporte e a ciência são os maiores representantes de um país, da sua imagem no exterior. Então nesse ponto eu sou 'Caxias': quero que o brasileiro respeite o seu artista. Eu prefiro tocar de graça em qualquer cidade e nesses 18 anos eu fiz dezenas de eventos beneficentes do que não ter reconhecimento e um salário digno. Dignidade é a coisa mais importante que um músico merece em uma comunidade.
E para tocar Bach, é preciso mais técnica ou emoção?
É o seguinte. O que é a emoção na música? Bach seria o primeiro computador com alma. Se você analisar a música dele (e ele faz questão de demonstrar ao piano), tem tônica, subdominante, dominante, tônica...que é a matemática, o computador. Mas isso aqui (ele toca o piano novamente) é a alma de Bach dentro do computador.
E quem toca Bach com a alma?
Quem toca Bach com a alma? Tem alguns. Eu sou um deles.


