ENTREVISTA - Um mestre das palavras
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sábado, 10 de setembro de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Quem conversa com o professor Donato Parisotto, se impressiona com a sua vitalidade. Aos 71 anos 40 deles dedicados à arte de ensinar literatura e linguística , ele é a prova viva do que a paixão pelo ofício que escolheu pode fazer. Quase foi padre daí vem os primeiros passos no latim , mas preferiu fazer do magistério o seu principal sacerdócio. Amigo das palavras, gosta de desmembrá-las, quase dissecá-las, para chegar à sua origem e assim ficar mais próximo da sua verdade original. Nesse contexto, trabalha com os conceitos de ''mens agem'' que significa o que age na mente do falante e de ''inter pretiu'', que nada mais é do que buscar o preço, avaliar, buscar o valor, isto é, compreender bem. Movido por essas idéias está lançando em Londrina o livro ''Análise e Interpretação de Poemas'', pela Edições Humanidades. Na obra, Parisotto interpreta os poemas ''Ciclo'', de Olavo Bilac; ''Caso pluvioso'', de Carlos Drummond de Andrade; ''Tarde'', de Guilherme de Almeida; ''Mar lírico'', de poetas brasileiros e ''Mar épico'', de Luís Vaz de Camões. Sob o aspecto linguístico, semântico, estilístico, filológico e estético, os poemas ganham vida dentro da sua busca constante pela expressão do belo na palavra.
Aposentado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Parisotto integra a Academia de Letras de Londrina e atua como professor particular de literatura e redação. Defensor de uma metodologia de ensino que valoriza a criatividade do aluno, Parisotto diz que está na mão do professor a principal responsabilidade de ''encantar'' o aluno e criar o terreno propício para que a literatura deixe de ser apenas ciência, conhecimento e passe a ser arte, firmando-se como estética que promove transformações para a vida inteira. O livro está sendo vendido nas livrarias Porto, Moderna e Bom Livro a R$ 14,00. Confira abaixo os melhores trechos da entrevista concedida à Folha2:
Como surgiu a idéia de escrever o livro? Foi difícil selecionar os poemas abordados?
O livro é resultado de dez anos de pesquisa. E a escolha dos poemas foi feita pela afinidade que tenho com eles. Uma coisa é você pegar o texto e tirar as idéias; outra é fazer a análise microscópia do texto. É uma análise de laboratório que eu gosto muito.
Qual o seu objetivo ao lançar um livro que faz análise de poemas visando um público bastante restrito? Isso é um assunto pouco abordado nas universidades?
O que tem ocorrido é que há muita teoria e pouca prática e olha que eu fui durante 30 anos professor do ensino superior e há dez dou aulas particulares.
Vou dar um exemplo: até há 70 anos a filosofia era a mãe, a rainha da ciência, e tinha o luxo de determinar metodologia, princípios, objetivos de todas as ciências. No caso, o português foi diretamente influenciado pela filosofia. Hoje a teoria está distante e os centros universitários passaram a criar residência, especialização, jogaram tudo para a experiência, a pós-graduação. O aluno da graduação sai praticamente despreparado, veja o exemplo das reprovações dos testes da OAB.
A linguística deveria ser ensinada para coisas práticas. O Saussure, pai da linguística, vai mostrar a diacronia, a sincronia...Você estuda português a partir daquilo que você fala, não a partir do que está na sua cabeça. Por exemplo, substantivo é denominado palavra que nomeia seres animados, inanimados, mas amor não é ser. Ser tem que ter essência, existência e substar e mesmo assim, dentro da linguística, podemos considerar amor um substantivo.
Essa reflexão faz parte do livro?
Não, essa análise crítica faz parte da gramática que estou escrevendo.
Qual a importância do 'mar' no sentido figurativo dos poemas analisados?
Muitas vezes o mar é colocado como um tigre, indomável, depois o mar passa a ser um mar sereno, de reflexão, de indagação, e, no final, é o mar filosófico, significando a luta do ser minúsculo com o ser maiúsculo. É muito bonito e eu apresento o mar visto pelos poetas. Também tem a epopéia. Quando você fala em mar épico, em epopéia, tudo é grandioso, misterioso, senão não é epopéia. Você vai encontrar em Camões um mar perigoso, ''mares nunca dantes navegados'', em perigo de guerras ameaçadas. Mais do que permitia a força humana. É esse mar perigoso que dá a grandiosidade da epopéia. E é exatamente o barco, que era o inimigo dos portugueses, que arma com o mar as peripécias, as aventuras, para que a obra seja grandiosa. E Vênus, pela sensibilidade feminina, vai aplainando. Então, Os Lusíadas passa a ser um conflito de deuses e de mar. É uma aventura que se torna deliciosa, porque além do aspecto épico, existe ainda o conflito amoroso, mitológico entre os deuses. E por isso vai aparecer um episódio lírico, a 'Ilha dos Amores', que Vênus prepara para os portugueses. Porque cansados de viajar a serviço militar, houve a necessidade de uma interferência da deusa em mostrar uma ilha com as ninfas. Acho tudo isso muito bonito.
O senhor acha que a literatura era melhor transmitida antigamente nas escolas?
O que houve na realidade foi que havia uma distinção muito acentuada entre prosa e poesia. A prosa sempre foi difícil, complexa, e a poesia era mais festejada, mais comunicada. Mas com uma dificuldade: gostar da poesia era considerada coisa de criança, de poeta e de professor meio ''afrescalhado'' (risos). Tinha o estigma de algo que não era de gente séria. Você começava a declamar, e..., já viu. Mas o modernismo quebrou isso porque passou a ter prosa poética e poesia prosaica. Você pega ''Morte do Leiteiro'', do Drummond, por exemplo, é uma crônica, mas está em versos. Quer dizer, torna-se mais acessível. E a dificuldade que se apresenta hoje, também, é por causa dos meios de comunicação, mesmo que seja para assistir a um programa tipo Gugu, as pessoas que estão ali sentadas, tanto os adultos quanto as crianças, preferem isso aos livros porque a imagem fala muito.
Quer dizer que os livros são preteridos?
O que acontece em termos de leitura é que há uma distância muito grande entre aquilo que as pessoas, as crianças têm em casa, ou seja, a televisão com todos os seus recursos, e a escola sem nenhum. Então, o professor para motivar uma aula tem que ser mágico. Não se pode dizer que a televisão, a internet prejudiquem o processo da escrita, mas os meios de comunicação não estão apresentando algo que motive a pensar um pouco em arte. A maior parte dos programas investe na distração, mas em cultura. Infelizmente, não é o hábito da família, do povo, da massa, cultivar arte e cultura.
Essa realidade afeta o ensino de literatura?
Afeta porque o mais importante da literatura ao meu ver é sua divulgação. O colégio hoje, em termos de literatura, é um desastre. Porque manda ler um livro mas não prepara o espírito do aluno sobre a época, a escola, a tendência. Não lê os textos para chamar a atenção do aluno. Mandar ler um livro e fazer um teste é estúpido. Então, o que está acontecendo é que o tiro está saindo pela culatra. Os meus alunos particulares chegam detestando a literatura e muitos autores. O próprio vestibular, os cursinhos, estão assassinando a literatura. Já começa que o brasileiro, como o bom índio de ''Macunaíma'' - ''preguiçoso e indolente'' -, lê resumos das obras. Nos próprios cursinhos, para manter um nível econômico, o professor já faz um resumo da obra e a maioria dos alunos está prestando vestibular com os resumos. Isso é assassinar a literatura. Eles podem até passar no vestibular, mas essas leituras não vão acrescentar nada na vida deles como arte.
E como o senhor trabalha a literatura com seus alunos?
Os meus alunos acabam apreciando, percebendo a beleza dos textos. Quando eu falo da harmonia do texto, eles já sabem que têm que considerar o ritmo, a sonoridade, etc. Porque o que está me interessando é a criatividade de outro ser. Hoje em dia não se trabalha mais a criatividade no colégio. Então, o meu aluno tende a ter criatividade usando a palavra em todos os seus recursos. Para aprender a fazer redação, vai ler as lendas, as fábulas, para que ele possa criar textos diferentes...Vai desenvolver o universo da criatividade.
Debato com o aluno a história dos protagonistas, porque eles reagiram de determinada maneira...ensino-os a perceberem as entrelinhas. Só conhecer é cultura, ciência. Admirar a beleza, o significado das coisas é arte. E fazer aquilo a que você se propõe exatamente é criatividade.
Qual a sua definição para o poeta?
O poeta é apenas um borrão no papel do universo.
Por que o senhor preferiu não fazer um lançamento oficial do seu livro?
Porque não gosto de confete, sou tipo Mário Quintana (risos).
Serviço:
- ''Análise e Interpretação de Poemas'', de Donato Parisotto. À venda na Livrarias Porto (Catuaí Shopping), Livraria Bom Livro (Rua Pernambuco, 391) e Livraria Moderna (Rua Pernambuco, 752). Preço: R$ 14,00.


