José Miguel Wisnik fala de música e literatura. O que diabos faz ele aqui, então, tratando de futebol, essa conversa para mesa-redonda e homens com barriga de chope? Simples: Wisnik vem nos dizer que futebol dá pano pra manga. Vai muito além dos 3-5-2 e daquele papo de que o objetivo, claro, é conquistar os três pontos.
É uma pena que Wisnik esteja aqui convocado porque o momento é grave. Recentemente, três torcedores foram mortos em brigas de torcidas. Enquanto vemos sete brasileiros indicados pela Fifa à disputa do título de melhor jogador do mundo, assistimos ao Campeonato Brasileiro se transformar no circo dos picaretas e oportunistas. Enquanto nos reafirmamos como favoritos na Copa da Alemanha, times da tradição de Flamengo e Atlético-MG espreitam a zona de rebaixamento. Como pode dar certo essa coisa tão completamente errada?
''Veneno Remédio - O Futebol e o Brasil'', próximo livro de José Miguel Wisnik - a ser lançado ano que vem -, vai dar respostas ao paradoxo. Músico e professor de Literatura Brasileira na USP, Wisnik nasceu em São Vicente e por lá viveu até 1966, quando tinha 18 anos. Assistiu, portanto, in loco, a era Pelé. Como não é bobo virou santista. Aos 57 anos, está com a bola na cabeça, abduzido pela tarefa de escrever, escrever, escrever (por isso pediu que a entrevista a seguir fosse feita por escrito, que assim anda pensando melhor). ''Nunca duvidei que o futebol fosse, entre muitas outras coisas, uma das mais complexas formas de arte'', diz. Quer dizer, escreve.

O livro que você escreve sobre futebol tem o título de ''Veneno Remédio''. O que ele significa?
O título completo deverá ser ''Veneno Remédio - O Futebol e o Brasil''. Tenta tratar mais uma vez do conhecido tema de como o futebol inglês foi apropriado no Brasil. Os jogos de bola medievais, ao mesmo tempo violentos e promotores de sociabilidade, desativados com a Reforma e a Contra-Reforma, foram reinventados pelos ingleses no fim do século 19. O jogo foi codificado então de maneira a aparar-lhe as arestas, torná-lo controlável, arbitrado por um sistema de regras, e sublimado na sua violência. Em vez de um número incontável e desigual de jogadores, temos 11 de cada lado; em vez de campos, brejos, pântanos e aldeias, um campo retangular e à parte do mundo comum, cercado de platéia; em vez de participantes feridos e ocasionalmente mortos na refrega, esportistas protegidos por regras; em vez de uma festa cheia de desperdício até o esgotamento das energias, um tempo regulamentar a ser esgotado. No Brasil, onde o substrato festivo e carnavalesco que se extinguiu na Europa há séculos continuou em vigor sincrético através dos tempos, a ''quadratura do circo'', isto é, o futebol ''quadrado'', linear, produtivista, da matriz inglesa, foi apropriado como elipse, como curva, como gratuidade e desperdício, sem deixar de ser eficaz. O futebol brasileiro, com seu inequívoco reconhecimento é o ''emplastro Brás Cubas'' que deu certo, o ''xis da questão'' a ''aliviar a nossa melancólica humanidade''. Sem deixar de ser o sintoma agudo da pendulação entre grandeza e fracasso, entre originalidade e incapacidade de sustentar projeto.

Que lições podem ser tiradas do drible, esse recurso tão brasileiro?
O drible é finta, negaceio, movimento que se dá e não se dá, em fração de segundo, confundindo a expectativa do adversário e explorando essa confusão instantânea. Nesse sentido, o drible é elipse, para usar um termo técnico da análise literária, isto é, uma perturbação da linearidade que produz um efeito poético. O drible é também um chiste, produzindo uma prazerosa e desconcertante suspensão do recalcado, um instantâneo do inconsciente (como propõe o ensaio de Freud sobre o assunto). O drible é síncopa, o ritmo fora da métrica regular do compasso, como acontece na música popular. Existe toda uma galeria de dribladores no futebol brasileiro, tendo seu ponto mítico em Garrincha (cujo drible Chico Buarque descreveu com perfeição na canção ''O Futebol''), e se estendendo no drible em elástico de Rivelino, na elipse da elipse em Romário, no famoso drible da elipse em forma de ''xis'' de Pelé sobre Mazurkiewicz, contra o Uruguai na Copa de 70. Robinho consagrou a ''pedalada'', sua marca de fantasia, que virou moda e a face mais visível da sua arte, mas o que ele introduz mesmo me parece ser um drible de outra geração tecnológica: cria, em alguns momentos, uma espécie de zona randômica envolvendo pé, bola, marcador e campo - um campo de probabilidades paradoxais, que o faz não um ''filho do vento'', como o veloz e unidirecional Euller, mas uma espécie de ''filho do caos''.

É possível explicar o Brasil e o povo brasileiro a partir da maneira como jogamos futebol?
Não acho que se trata de explicar, mas de tentar compreender - e nisso vai uma grande diferença. O futebol se inclui numa constelação cultural, que se pode ler nas suas relações com a música, com a literatura, com a dança, com a história social.
A título de exemplo, a conquista da Taça Jules Rimet, a série de três vitórias que contém dentro a derrota arquetípica de 66, seguida do triunfo no México, imita a saga de ''Macunaíma'' com a muiraquitã: depois de conquistado o mais cobiçado troféu do futebol, ele é roubado da CBF e irremediavelmente perdido. Estamos acostumados a ser ou apologéticos ou negativos, em relação ao Brasil - sempre uma coisa ou outra. A seleção brasileira de futebol é o objeto mais evidente dessa projeção e dessa gangorra imaginária, no fundo infantil. O desafio aqui é ir além dela.

Por que futebol é tão apaixonante?
Além de tudo o que já foi dito, por ser, dos esportes, o mais sujeito e aberto à interpretação. O juiz nunca vê tudo, ninguém nunca vê tudo, e todos têm a pretensão de ver tudo. E o futebol não tem lógica, tem lógicas, inclusive a do acaso e do paradoxo.

No momento em que são anunciados sete brasileiros como candidatos a melhores do mundo pela Fifa, acontecem essas mortes de torcedores em São Paulo. No mesmo ano em que o Campeonato Brasileiro vira a bagunça que estamos vendo, o Brasil classifica-se para a Copa de forma contundente, sendo apontado por todos como favorito ao título em 2006. Como um futebol tão desestruturado, tão porcamente administrado, pode continuar sendo, em campo, o melhor do mundo e cada vez melhor?
O Brasil é uma droga, um veneno-remédio, e o futebol talvez seja a melhor tradução disso. Esse nó ambivalente se reconhece, ao mesmo tempo, em muitas dimensões da cultura Suportamos mal essa ambivalência, e como tendemos a oscilar entre os pólos - ou um ou outro, empobrecidos do seu nervo problemático -, sem encarar plenamente nem a grandeza da singularidade nem os descalabros dos oportunismos sem nenhuma grandeza, não vamos além. A política no Brasil não irá além de nada, se não souber incorporar a grandeza da cultura e aprender com ela. Em vez de dizer que o Brasil se faz reconhecer pelo seu poderio futebolístico mas não pelas coisas de fato importantes, é o caso de reconhecer que talvez seja difícil alguma coisa ''de fato importante'' acontecer se não formos sequer capazes de compreender o sentido da importância que o futebol ganhou no Brasil.

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