Curitiba - A primeira pergunta que vem à cabeça quando se está ao lado de um cosmonauta, uma das poucas pessoas no mundo que conheceram o espaço e um dos recordistas mundiais de permanência fora da terra é: ''por que eu não aprendi a falar russo?''. Certamente foi o que os participantes do bate-papo com Anatoly Berezovoy Nicolaevich questionaram durante o evento. Ele esteve em Curitiba na quinta-feira para autografar o livro, ''Rumo às Estrelas'', de autoria de L. Ron Hubbard (ed. Nova Realidade, 296 pág). A obra de ficção científica não foi escrita pelo cosmonauta, mas isso foi o que menos importou. O que as pessoas queriam era saber detalhes da emocionamente experiência de ver a terra do espaço. E essa curiosidade ultrapassa a barreira do idioma.
Nicolaevich permaneceu 211 dias, 9 horas, 4 minutos e 32 segundos no espaço em uma nave ''Soyuz'' (numa nave desse tipo viajará, em março de 2006, o astronauta brasileiro Marcos Pontes). O cosmonauta embarcou rumo à maior aventura de sua vida em 13 de maio de 1982. Lá se vão mais de 20 anos, mas o tempo não é capaz de apagar lembranças tão marcantes. Aos 63 anos, o cosmonauta diz lembrar ''como se fosse hoje'' coisas como o gosto da comida, o fato de ''nadar como um peixe'' dentro da nave e outras peculiaridades que, pelo menos nas próximas décadas, ainda serão restritas a poucos mortais.
O bate-papo com o cosmonauta aconteceu nas Livrarias Curitiba do Shopping Estação, com tradução mais ou menos simultânea, portanto é possível que as palavras de Nicolaevich não sejam exatas, mas a essência foi transmitida pela sua simplicidade e atenção com os presentes. O cosmonauta também falou com a Folha sobre a sua experiência no espaço. Confira a entrevista:

Como o senhor se preparou para a viagem espacial?
Ao todo a preparação durou 12 anos, mas não foi exatamente para a missão que me levou para o espaço. Eu trabalhava com uma outra equipe e depois de mais de uma década de preparação, o vôo foi cancelado. Até hoje não entendemos o real motivo da desistência, mas acredito que a mudança do regime político tenha influenciado bastante. Mesmo depois da programação ter sido cancelada, passamos mais ou menos uns quatro anos acreditando que ela iria acontecer. Depois desse tempo recebemos o comunicado oficial do cancelamento. Foi uma decepção. Mas em seguida, fui convidado a fazer parte da equipe que voaria mais tarde. Infelizmente, muitas pessoas que treinaram para a missão anterior, não puderam voar.

Depois de todo esse tempo de preparação e principalmente depois da tensão que antecedeu ao cancelamento oficial da missão anterior, o que o senhor sentiu quando, finalmente, conheceu o espaço?
Em primeiro lugar felicidade. Era uma felicidade misturada com a tensão e a vontade que tudo desse certo. O primeiro dia é um vôo para que a tripulação acostume com o espaço. Passamos um dia inteiro subindo, subindo, até que chegarmos à estação. Felizmente deu tudo certo.

E como era sua rotina lá em cima?
Não posso falar dia após dia porque ficaríamos sete meses aqui (risos). Mas eram dias longos, sem descanso, em que fazíamos um programa planejado pela equipe terrestre para cuidar e manter os equipamentos funcionando. O horário lá em cima é sempre o mesmo: o horário de Moscou. Algumas vezes, trabalhávamos durante dois dias seguidos sem descanso. Recebemos algumas visitas também, o que quebrava a rotina. Mas em geral pareciam dias muito longos. Nos levantávamos e tínhamos 15 minutos para escovar os dentes e fazer a higiene pessoal. Essa higiene era feita com lenços úmidos. Em seguida já tínhamos que checar todos os equipamentos.

Como era a alimentação na estação espacial?
Mesmo depois de 23 anos, lembro do gosto da comida. Tínhamos alimentos de três tipos: em conserva (carnes e peixes); em tubos (sopa e massas desidratadas) e bebidas como chá, água e café, que também eram solúveis em água. Apesar da aparência, era uma comida muito gostosa. Só de lembrar sinto vontade de comer novamente.

Acho que muita gente que tem curiosidade em saber como são feitas as necessidades fisiológicas, por exemplo, e como é ficar tanto tempo em um local fechado. Como o senhor lidava com essas situações?
Com certeza não é tão fácil. Você tem que se concentrar no que está fazendo mais do que qualquer outra coisa. Para fazer as necessidades, por exemplo, entrávamos numa espécie de cápsula, mas antes de sair de lá tínhamos que ligar um ventilador que suga os dejetos e lança ao espaço. Se você esquecer, assim que você abre a porta os dejetos te acompanham e voam pela nave. Isso aconteceu algumas vezes, sem que ninguém confessasse a autoria (risos). Então quando você menos percebe vê aquela ''coisa'' voando na estação e pergunta: ''De quem é isso?''. Mas para evitar essas situações, tínhamos um poster grande na cabine avisando para ligar o exaustor.

O que mudou desde a época que o senhor foi para o espaço até agora? O Marcos Pontes, por exemplo, astronauta brasileiro que está se preparando para uma missão espacial, vai precisar de um treinamento diferente do que o senhor teve?
A diferença entre nós é que eu nasci e aprendi russo. O Marcos precisa aprender ainda. Nos encontramos um vez e ele fala muito mal, apesar de estar aprendendo. Mas acho que a diferença está mais na língua do que no treinamento em si.

O que o senhor acha do turismo espacial?
Atualmente as opiniões se dividem entre os astronautas. Alguns são favoráveis outros não. Eu sou a favor. Acho que como aconteceu no passado, com aviões usados apenas para turismo, está acontecendo agora. O primeiro turista espacial americano gastou US$ 20, mas acho que ele já conseguiu reverter esse investimento nos livros que lançou e nas palestras que ministra até hoje. Não tenho nada contra as pessoas explorarem comercialmente essas experiências, enquanto não ficam viáveis para todos.

Viajando ao espaço o senhor realizou o seu maior sonho?
Com certeza. Depois de tanto tempo de preparo, seria uma frustração muito grande não ter ido ao espaço. Seria como um ator que ensaia um papel durante anos, mas nunca sobe ao palco.

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