Curitiba Ele trocou São Paulo por Curitiba há quase cinco anos. Na capital paranaense está lecionando na Universidade Tuiuti no Paraná; é consultor de literatura do Perhappiness, evento da Fundação Cultural de Curitiba e ainda encontrou tempo para se dedicar ao que veio fazer na cidade: escrever. Desde que está em Curitiba, o poeta Décio Pignatari, 76 anos, já publicou o livro Errâncias (Editora Senac/SP, 2000), está prestes a lançar ''Céu de Lona'', pela editora local Travessa dos Editores e ainda prepara um antologia da poeta russa Marina Tzvietáiev, ainda sem data para ser lançada.
Escritor, publicitário, advogado e principal representante da poesia concreta, Pignatari foi um dos principais parceiros de Haroldo de Campos, morto no mês passado. Com os irmãos Campos (Haroldo e Augusto) fundou o Grupo Noigandres, em 1952. O grupo chegou a ter uma revista e participou dos principais eventos de poesia concreta do País.
Na última terça-feira, em entrevista para divulgar a programação da 15 edição do Perhappiness, que acontece de 15 a 21 de setembro, Pignatari conversou com a Folha2 sobre o tempo que está na cidade, seus futuros projetos e sobre a morte de Haroldo de Campos, ''uma estrela a menos na constelação Noigandres'', conforme afirmou. A seguir os principais trechos da entrevista
Como está a sua produção desde que você trocou São Paulo por Curitiba? Você encontrou o que veio procurar aqui?
Eu brinco com os curitibanos criando slogans provocativos para a cidade. Costumo dizer que Curitiba é uma cidade maravilhosa para se viver, mas não para conviver. Então eu estou no céu porque estou numa fase que preciso me concentrar para fazer a minha obra. Eu já produzi dois livros desde que cheguei, o ''Errâncias'' que já foi publicado e um livro ainda inédito, que é uma peça de teatro que será editada em breve pela Travessa dos Editores. É um projeto especial que se chama ''Céu de Lona'', sobre os relacionamentoas de Machado de Assis e Carolina. Estamos preparando um livro bonito, todo ilustrado, para que as pessoas leiam e para que quando os resenhistas e críticos receberem, se animem para escrever sobre o livro, já que ninguém escreve sobre peças de teatro no Brasil.
E de quem são as ilustrações?
Temos cinco ilustradores do Brasil inteiro envolvidos. De Curitiba tem a Maria Ângela Biscaia; de Minas Gerais, a Liriam Palombini e também o pernambucano Darel Valença. Para o gravador Evandro Jardim eu pedi uma gravura para capa. Um aluno meu, um designer chamado Ilton Torres, está fazendo o primeiro esboço da edição junto a Jussara Salazar, da Travessa dos Editores. Estou dedicando o livro para o Teatro de Cartilha. Vai fazer meio século do meu Teatro de Cartilha, o teatro amador com que fizemos uma revolução em Osasco. Vamos reunir os sobreviventes e fazer uma big festa de teatro. Mas não aqui, ainda estamos planejando.
Você também está escrevendo um livro sobre uma poeta russa, ainda desconhecida no Brasil. Fale um pouco sobre este projeto.
É sobre a Marina Tzvietáiev. Estou apaixonado por essa menina e não é de hoje. Ela se enforcou em 1941 e sofrer como ela sofreu poucos poetas deste mundo sofreram. O trabalho que estou produzindo é uma antologia sobre a obra dela. É um trabalho ''miserável'' ainda mais para quem não sabe russo. Eu e a a Aurora Bernardini, com mais alguns auxílios, estamos produzindo uma antologia sobre a obra dela porque ela ainda não é conhecida no Brasil. O Campos e o Borges já traduziram uns dois ou três poemas dela, mas nosso trabalho será uma ''big'' antologia.
Falando em tradução. Esta edição do Perhappiness tem um curso sobre o tema. A tradução no Brasil é um obstáculo? Nós temos boas edições traduzidas no País?
Não. Melhorou bastante, mas eu costumo recomendar aos meus alunos: não acreditem seriamente nas traduções brasileiras. Estão cheia de erros. Sem falar que se paga muito mal a tradução no Brasil. Nós vemos barbaridades. Gente que diz que traduzir de uma língua e traduz de outra. Tantas vezes eu já não vi traduções como se fossem do inglês, mas foram feitas do espanhol e você pega os erros. É uma lástima. E poesia, então, é sempre muito difícil. Os irmãos Campos e eu lutamos muito para isso, mas também tem gente que continua lutando na área poética e já melhorou bastante, mas ainda há muito o que fazer.
Com a morte do Haroldo de Campos você se sente um pouco sobrevivente de um gênero de poesia e literatura que vocês foram precursores?
É verdade. Nós três formávamos uma constelação que se chamava Noigandres. Apagou-se uma das estrelas. Logo mais se apaga mais uma e a constelação vai ficar com uma estrela só. Mas a nossa tarefa era trabalhar sempre. Com afinco e com paixão. Traduzindo, escrevendo, fazendo. O Haroldo mais se dedicou à crítica literária. O Augusto mais à música e a tradução e eu mais à comunicação e a semiótica, fora a poesia propriamente dita e também à prosa.
Você trabalhou durante 15 anos com publicidade. Como você analisa esse mercado hoje?
A publicidade é bastante ativa, muito rica e bastante boa no Brasil. Curiosamente o paranaense é louco por publicidade. É apaixonado e faz muito bem. A publicidade paranaense é avançada, mas a publicidade em geral não está hoje numa das fases mais brilhantes. A fase brilhante foi nos anos 70 e 80. Hoje é um ramerrão. Mas a situação profissional é boa. Quando eu comecei, as áreas estatais não investiam um tostão na publicidade, hoje investem milhões. São grandes clientes como se fossem multinacionais. Eu sou contra. Eu acho imoral a destinação destas verbas estatais, municipais, estaduais e federais para autopromoção. Eu acho indecente. É dinheiro público e você só pode usar dinheiro público, assim como no Canadá e nos Estados Unidos, para informar o que você está fazendo. Mas aqui se faz francamente publicidade de autopromoção.
E ainda é pertinente a discussão se a publicidade é arte ou não?
Não. Isso não é preciso nem discutir. Eu mesmo já defini o que é a publicidade: é a estética do consumo. Pronto. É isso.

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