ENTREVISTA - Um ator que sabe o que quer
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de janeiro de 2004
Roberta Brasil<br> TV Press 
Quando soube que a autora Maria Adelaide Amaral e o diretor Carlos Manga estavam à frente de ''Um Só Coração'', Pedro Paulo Rangel não se fez de rogado. Telefonou para os dois e perguntou se havia algum papel para na minissérie da Globo. Não que o ator precisasse de trabalho ele é contratado fixo da Globo e, atualmente, já está no ar com a microssérie infantil ''A Terra dos Meninos Pelados''. Mas o rompante de ''cara-de-pau'' tem explicação. ''Já trabalhei com a Adelaide, em 'A Muralha' e com o Manga, em 'Engraçadinha'. Por isso, sei que esta minissérie vai dar muito certo e não queria ficar de fora!'', justifica.
Na minissérie em homenagem aos 450 anos de São Paulo, Pedro Paulo encarna o senador Freitas Valle personagem real e grande mecenas dos anos 20. Já em ''A Terra dos Meninos Pelados'', o ator vive o destrambelhado Benjamim, um motoqueiro metido a inventor. ''Bem que tentei aprender a pilotar o triciclo, mas tive pouco tempo e, afinal, era uma Harley Davidson! Não deu!'', confessa o ator que, aos 56 anos, achou mais ''sensato'' optar por um dublê.
Em ''Um Só Coração'', você vive um personagem que existiu de verdade. Isso modifica a sua forma de composição?
Muda pouco porque o Freitas Valle não é uma figura conhecida. Não é como Santos Dumont, que todo mundo conhece. Na verdade, nem eu o conhecia e fiquei surpreso com a figura interessante que ele foi. O Freitas era um político e poeta, um mecenas que apoiava as artes. Mas que, de início, resistiu ao movimento modernista de 1922. Foi um dândi dos anos 20. Então, pesquisei a época, mas não fiz um trabalho arqueológico em cima do personagem.
Você já interpretou vários personagens de época. Eles são mais interessantes?
Sem dúvida. O ator sempre coloca uma máscara. Mas, se o personagem tem características bem marcantes, vira um parque de diversões para o ator. Os trabalhos de época nos oferecem mais recursos. A postura, a maneira de falar, tudo isso ajuda. Para ''O Quinto dos Infernos'', por exemplo, eu raspei a minha cabeça. Virei outra pessoa! É sempre bom ter este toque de fantasia. Fugir do realismo urbano do século XXI e viajar para um outro lugar, uma outra época... Um dos baratos da arte de interpretar é justamente este ''brincar de casinha''.
Mas, às vezes, surge uma ''brincadeira'' nova... Como foram as aulas para pilotar um triciclo em ''A Terra dos Meninos Pelados''?
Eu bem que tentei... Mas a Harley Davidson era muito pesada. Parecia um ônibus! A moto ficou linda, bem fantasiada... O problema é que eu tinha muitas coisas para aprender em muito pouco tempo. Então, acabamos optando por um dublê. Agora, se o programa emplacar na grade fixa da Globo no ano que vem, aí vou aprender direitinho. Prometo!
Em 36 anos de carreira, você consegue eleger um trabalho predileto?
É difícil... Mas gostei muito de ''TV Pirata''. Foi um marco para a televisão brasileira e, também, para a minha carreira. Eu sempre fui muito tenso com o pouco tempo que temos para criar na tevê. Então, o programa me deu essa agilidade de fazer vários personagens no mesmo dia. Mas fiz muitas outras coisas boas... A Globo alcançou um nível de produção invejável. Ela pára um bairro inteiro para fazer uma novela. Isso me impressiona muito.
Por outro lado, a profissão de ator é muito instável...
Essa instabilidade faz parte do ofício. Eu, por exemplo, nunca parei de trabalhar, mas não me sinto seguro. Daqui há quatro anos, vou me aposentar. O que vou fazer? Vou continuar trabalhando! O ator só pára quando não é chamado nem consegue produzir por conta própria. Hoje, dependemos do governo, da Lei Rouanet... Ai, quem me dera ter um mecenas como o Freitas Valle para promover as minhas peças!


