ENTREVISTA - Truques da experiência
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de fevereiro de 2005
Danielle Araújo<br> TV Press 
Paulo Betti voltou à Globo, na pele do médico Miguel de ''Malhação'', depois de quase três anos sem participar de uma produção inteira na emissora mais precisamente, desde ''Os Maias'', de 2001. Nesse meio tempo, se dedicou ao seu filme ''Cafundó'' e embarcou no malsucedido projeto de ''Metamorphoses'', da produtora Casablanca para a Record não é à toa, portanto, que estava com saudade dos bem-estruturados estúdios do Projac.
Tanto que quando faz as cenas do ''folheteen'' tem a sensação de estar brincando. Ele chega até a comparar o trabalho com férias. ''É uma coisa gostosa de se fazer. Parece que estou de folga em um lugar maravilhoso'', exagera. E foi justamente o fato de ter dias certos para gravar que o fez aceitar o convite. Isto porque não quer parar de desenvolver projetos paralelos. Além de ''Malhação'', o ator está envolvido com o lançamento do longa-metragem e com a direção do musical ''A Canção Brasileira'', escrita por Francisco Iglesias. ''Estou sempre fazendo mais de uma coisa. Não gosto de ficar 'preso' a um só trabalho'', assegura.
Com 25 anos de carreira, Paulo não ''perde'' mais tempo compondo personagem. Aos 52 anos, a ator conta que construiu o médico do ''folheteen'' baseado na própria experiência. Além disso, pegou alguns trejeitos do pediatra do filho João. Para ele, o segredo de uma boa atuação está na observação da vida. ''Claro que se fosse um astronauta precisaria de laboratório. Mas as profissões que estão no dia-a-dia são mais fáceis de desenvolver'', explica.
Muitos atores consideram ''Malhação'' um produto ''menor''. O que fez você aceitar?
Tem gente que tem preconceito com ''Malhação'', mas nem imagina que é a segunda novela de maior audiência, depois da das oito. E me chamaram para ''Malhação'' em um ótimo momento, quando eu tinha acabado de finalizar o filme ''Cafundó''. Foi uma bela coincidência. Achei ótimo por dois motivos. Primeiro porque voltaria para a Globo, que, sem babação, é um ótimo lugar para se trabalhar. Segundo porque a novela tem um público diferente. Depois que entrei, as pessoas vieram me falar que estavam com saudades. A recíproca é verdadeira. Gosto de ser ator e de interpretar.
Mas o que atraiu você na novela?
Achei muito interessante a temática deste ano, que é a saúde. Além de ter esse lado do passatempo, tem também o lado de ser uma informação importante. Ao mesmo tempo em que diverte as pessoas, dá um alerta: 'olha, usem camisinha'. Então, essa mensagem subliminar se encaixa melhor. Sem dúvida, a novela é um dos melhores veículos para falar sobre saúde. Isto porque está dentro da dramatização da realidade. Fora que o brasileiro tem prazer de assistir a essa simulação da vida real.
O elenco de ''Malhação'' é bem jovem e muitos estão iniciando a carreira. Eles o encaram como ''professor''?
De jeito nenhum. Existe uma troca maravilhosa. Ao mesmo tempo em que aprendo quando assisto aos garotos trabalharem, eu ensino. Não existe essa coisa dos veteranos serem os mestres. Até porque ser mais velho não significa ser melhor. A gente aprende com o tempo e batendo a cabeça. A dica é observar. Fora isso, percebi que todos são bem esforçados.
Depois que você entrou em ''Malhação'' mudou o tipo de assédio que você enfrenta?
É impressionante que sim. Principalmente das crianças. Eu levo todos os dias meu filho para passear no Jardim Botânico. Vire mexe, passa uma garotada que antes nem me notaria. Agora já sabem quem sou e param toda hora para conversar. É um barato. Adoro esse contato com o público. Além de me fazer muito bem.
Valeu a pena ficar longe da tevê por causa do filme?
Nossa! E como valeu. ''Cafundó'' conta a história do escravo, João de Camargo, que encontra através de uma iluminação mística uma possibilidade de ser alguém no mundo dos brancos. É baseada em fatos reais e está relacionada com minha infância. Isto porque a igreja que ele construiu ficava no caminho da roça do meu avô. No filme, vou poder mostrar a visão peculiar que tenho sobre a história dos negros. Dirigi junto com Clóvis Bueno e produzi ao lado de Rubens Gennaro. A sensação de ver esse projeto finalizado é maravilhosa!


