ENTREVISTA - 'Trato de assuntos duros'
Você está lançando esta semana um CD, um DVD e um livro. Vamos começar falando do CD, que traz letras críticas sobre a censura e a guerra no Iraque.
Esse ano foi miseralmente rico em acontecimentos ruins. Houve a ameaça de guerra, a invasão do Iraque e manifestações de censura em várias partes do mundo, inclusive ao meu disco anterior. Tudo isso inspirou a gente a compor essas canções.
Seu disco anterior, Jogos de Armar, sofreu censura?
Houve uma censura velada da classe média. Quando saiu o disco, as críticas na imprensa faziam referências de conotação moralista a expressões chulas e ao tema da prostituição infantil presente na faixa O PIB da PIB. Além disso, algumas emissoras de rádio do interior deixaram de executar a música Chamegá, alegando os mesmos motivos. Em seu tempo, Brecht dizia que quando a classe média discute arte, ela está discutindo a moral. As coisas não mudaram.
Durante o processo de gravação do disco, você chegou a imaginar que poderia enfrentar esse tipo de reação?
Não. Usei as expressões grosseiras de propósito. Se soubesse que elas causariam tanta comoção, eu nunca as colocaria no disco. Não sou apocalíptico. Não sou um pornógrafo procurando uma posição de maldito. Quero dialogar com a sociedade, quero que as pessoas se comovam com um artista que deseja se comunicar com o mundo, um mundo onde a solidadariedade e a ética foram jogadas no lixo. Quero que todos conheçam suas próprias incongruências, suas contradições. Quero que saibam de suas vitórias, de suas covardias, de suas grosserias. Trato de assuntos duros. Procuro me dirigir particularmente à juventude, porque é ela que precisa da energia do questionamento, da proteína da confrontação natural entre as gerações com o objetivo de melhorar o mundo.
Você falou que houve censura em outras partes do mundo.
Estou sempre me comunicando com o David Byrne, o Sean Lennon, a Yuka Honda e o pessoal do Tortoise, e todos me dizem que a censura está forte nos Estados Unidos. O Sean comentou que assistiu a uma manifestação pela paz que reuniu 100 mil pessoas em Nova York e que os jornais estamparam fotos do rabo da passeata noticiando que apenas 50 pessoas teriam participado dela. Houve censuras também na entrega do Grammy, quando as cantoras Sheryl Crow e Erika foram pressionadas para não falar contra a guerra, e na premiação do Grammy Latino, em Miami, quando os músicos cubanos foram impedidos de participar da cerimônia.
Tudo é culpa do companheiro Bush, como você o trata em uma das faixas do CD?
Ele parece determinado a continuar com sua política. É um tresloucado, um doidivanas, um treme-treme desvairado, como digo na letra da canção. Enquanto ele continuar, a música não vai sair de moda. Compus Companheiro Bush durante uma mobilização estudantil pela paz. É uma música-reportagem, que gravei e disponibilizei em MP3 antes de registrá-la em disco. A letra surgiu na hora, mas fui remendando depois até torná-la uma construção elaborada.
Fale sobre o livro Tropicalista Lenta Luta. É a sua versão da tropicália?
O livro é um relato de como um jovem inábil, incapaz de criar o normalmente belo, pôde explorar suas deficiências como cantor e instrumentista e triunfar na carreira artística atuando fora dos padrões convencionais. É uma narrativa das dificuldades de cada passo e de como cada canção tinha que ser a construção de um método. É um depoimento que pode ser relacionado a qualquer jovem com dificuldades de relacionamento na puberdade e que tem diante de si um grande mistério. Resumindo, o livro tenta mostrar que toda geração tem a tarefa de compreender seu mundo para produzir a antítese dele.
Você está lançando também o DVD com a gravação do show do álbum Jogos de Armar. Fale um pouco sobre esse trabalho.
Ele traz o show de lançamento, no DirecTV Hall, em São Paulo, em 2000. O interessante é que mostro ali os instrumentos experimentais que construí em 1978, como o enceroscópio (um complexo de enceradeira afinadas e em descompasso minimalista), o buzinório (encanamento dotado de buzinas com alturas determinadas) e o hertzé (um teclado antecipador do sampler em que cada tecla aciona um determinado tipo de som captado em fita magnética e retrabalhado eletronicamente).
Essa faceta de inventor deixou seguidores? Além de despertar curiosidade e fascínio, essas experiências inspiraram outros músicos a criar instrumentos?
De vez em quando, alguém entra em contato comigo da China, da Inglaterra ou das estepes russas para falar que está montando um proto-instrumento. Fico feliz em saber que aquelas invenções desencadearam pilhérias pelo mundo, provocando a consciência de que a música não está restrita ao que já existe.
Você tem feito shows no exterior?
Este ano só estive em Paris, onde coordenei um workshop e fiz dois shows. No próximo ano, terei que viajar mais por causa de uma exposição sobre a Tropicália, patrocinada pelo museu Walker Art Center, de Minnesota, de Minneapolis (EUA). Ela vai percorrer várias cidades dos Estados Unidos e da Europa. A parte de artes plásticas será centrada nos parangolés do Hélio Oiticica, enquanto que a parte musical ficará por minha conta. Fui convidado para fazer shows e preparar a sonorização do ambiente.





