ENTREVISTA - Tom multimídia
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sábado, 01 de novembro de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A crítica, a ironia e a poesia teimam em frequentar os discos de Tom Zé. Incansável explorador de sons, o compositor baiano encarna agora a figura de cronista do mundo investindo contra a censura e a invasão americana ao Iraque, temas centrais de ''Imprensa Cantada'' (Trama), seu novo álbum.
Simultaneamente ao CD, ele está lançando o DVD ''Jogos de Armar'' e o livro ''Tropicalista Lenta Luta''. No disco, o artista registra duas faixas disponibilizadas anteriormente em MP3 e num single ''Companheiro Bush'' e ''Vaia de Bêbado Não Vale'' (que ganhou também uma versão instrumental).
A primeira ataca, em tom satírico, o presidente dos Estados Unidos. A segunda alardeia as virtudes da Bossa Nova a partir do controverso show de João Gilberto na inauguração da casa de espetáculos paulistana Credicard Hall, em 1999, quando o mestre parou de tocar para reclamar da acústica do local e acabou recebendo vaias da platéia vip.
Em ''Requerimento à Censura'', um dos pontos altos do repertório, Tom Zé reproduz uma solicitação oficial à Polícia Federal para que proíbam as letras de suas músicas embutindo trocadilhos ácidos no final: ''Nestes termos, nestes termos, nestes termos / Pede, pede defé defé / De fede fede fede / De fe-ri-men-to''.
O tema é retomado em ''Sem Saia, Sem Cera, Censura'', com participação nos vocais de Jair de Oliveira, que colabora como produtor e arranjador de outras três faixas. A música foi motivada pela recepção moralista obtida pelo seu disco anterior, ''Jogos de Armar'', de 2000: ''A censura, ela ama a arte / Mas é como a fera penteando a bela / A censura, ela morre de amor pela arte / Mas é a enxada / Acarinhando a fada / A censura, ela adora a fragrância da arte / Mas é o machado / Entre as flores do prado'' diz ele num trecho da canção.
Musicalmente, Tom Zé imprime sua singularidade experimentalista ao incursionar por ritmos tradicionais, mas não deixa de apresentar canções tocantes com refrões assimiláveis, como a bonita ''São São Paulo'' gravada originalmente em 1968 e atualizada com arranjo de Ruriá Duprat, filho do legendário Rogério Duprat.
''São Paulo, quanta dor / São Paulo, meu amor / São vinte milhões de habitantes / de todo canto e nação / que se agridem cortesmente / correndo a todo vapor / e amando com todo ódio / se odeiam com todo amor / são vinte milhões de habitantes / aglomerada solidão / por mil chaminés e carros / gaseados a prestação / Porém com todo defeito / te carrego no meu peito'' canta ele numa passagem da letra.
Tom Zé assina todas as faixas, com exceção de ''Dona Divergência'', de Felisberto Martins e Lupicínio Rodrigues; e ''Você é o Mel (You're the Top)'', versão do poeta Augusto de Campos para a canção de Cole Porter. Na primeira, ele canta à capela num registro ao vivo de um show pela paz organizado pela revista Imprensa. Outra faixa ao vivo é ''Identificação'', captada no campus da USP.
No DVD que integra a fornada, o compositor aparece no show de lançamento do CD ''Jogos de Armar''. No livro, lançado pela Publifolha, ele reúne um depoimento, as letras de músicas, um conjunto de textos escritos para revistas e jornais, além de uma entrevista concedida ao músico Luiz Tatit e ao editor Arthur Nestrovski. Empolgado com o triplo lançamento, o compositor entusiasmou-se ao ser contactado pela Folha Dois.
''Adoro essa cidade. A mulher (Flávia) de meu filho (Everton) é daí. Depois de se casarem, eles moraram alguns anos em Campo Mourão, e agora estão vivendo em Araçatuba (SP). Já sou avô, meu neto João Gabriel tem sangue londrinense'' contou.
Na página 3, leia a entrevista que Tom Zé concedeu à Folha 2, por telefone, na última quarta-feira


