ENTREVISTA - Tom Hanks na pele de um vilão
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de setembro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Veneza - O filme deve estrear no Brasil em outubro. Desde já é um dos melhores do ano. Está aqui em Veneza, na competição oficial, e não seria exagero dar a ele o Leão de Ouro. O diretor Sam Mendes e o ator Tom Hanks vieram ao festival mostrar a produção hollywoodiana que custou 80 milhões de dólares, pecado mortal que a rigor inviabiliza a premiação máxima num festival como o de Veneza.
Uma história de crime e castigo inserida num duplo relacionamento pai-filho. Em cena velhos e sedutores gangsters que tocam piano juntos, comungam, dizem a cada momento ''que Deus me ajude''. Em cena animados funerais de criminosos, a permanente semi-obscuridade nos ambientes, a chuva noturna, os roubos de banco, a valise com a metralhadora desmontada, a estrada, a planície, o céu, a luz, a grandiosidade da América captada entre nostalgia, ferocidade, amor e medo.
''Estrada da Perdição'', título no lançamento brasileiro, é o segundo filme do jovem inglês Sam Mendes, o premiado diretor de ''Beleza Americana''. Com roteiro a partir de uma história em quadrinhos escrita em 1998 por MacAllan Collins e desenhada por Richard Reyner, ambientada no inverno de 1931 durante a Grande Depressão e em plena era criminal comandada por Al Capone, ''Road to Perdition'' descreve uma longa viagem, real e simbólica. Tom Hanks é Michael Sullivan, gangster letal e de inteira confiança na quadrilha de um chefão irlandês em Chicago, espécie de filho adotivo do velho mafioso (Paul Newman). Um incidente leva o irresponsavél primogênito do big boss a matar mulher e o filho menor de Michael, obrigado a fugir para não morrer com o garoto mais velho. Esta é uma jornada simultaneamente de perdição e salvação, para pai e filho.
Suntuoso e austero, o filme é uma alegoria com trânsito bíblico e proporções de tragédia grega. O tema é o do crime e castigo, da inveja e da rivalidade, da violência e da vingança. Apesar das melhores intenções de Sullivan, a profissão acaba invadindo sua casa e sua família, com terríveis resultados. O filme é um paradoxo: simples e linear do ponto de vista narrativo, mas complexo enquanto trama e conteúdo. Referência óbvia mas não indigesta é ''O Poderoso Chefão''. Há outras, mais ou menos perceptíveis - o Sergio Leone dos westerns barrocos e de ''Era uma Vez na América'', ''Bonnie and Clyde''. Uma das diversas grandes virtudes do filme está no talento que resulta na construção dos planos, fascinante combinação entre engenharia e arquitetura. Mérito de Mendes e do diretor de fotografia, Conrad L. Hall.
Gélido e brutal, o personagem Michael Sullivan é interpretado por Tom Hanks, que faz tão bem aquele tipo que ninguém julga capaz de matar uma mosca. Isto para quem se lembra das dezenas de personagens bonzinhos das comédias românticas com Meg Ryan. E mesmo amadurecendo em papéis mais recentes e complexos como em ''Philadelphia'', ''Forrest Gump'', ''Apollo 13'', ''À Procura do Soldado Ryan'' ou ''Náufrago'', nada até ''Estrada da Perdição'' foi tão radical como este Sullivan, ladrão e assassino.
Um Tom Hanks pálido, de olhos pequenos e testa cada vez mais alta, calmo mas muito falante, solícito e simpático. O ator conversou com a ''Folha'' na manhã de domingo, no Hotel Excelsior no Lido. A seguir os principais trechos da entrevista.
Como foi a decisão de se transformar num matador, mais precisamente um gangster mafioso na Chicago dos anos 30?''
Na verdade, não que me interessasse particularmente interpretar um homem cuja profissão fosse matar outros homens. Mas por outro lado me agradava entrar na cabeça dele e procurar saber o que se passava ali. Imaginei que eu fosse um garoto na estrada. Um que aos oito anos tivesse roubado pela primeira vez. Aos dezesseis tivesse cometido seu primeiro homicídio. Aos vinte fosse atirado na carnificina da Primeira Guerra Mundial. E então tivesse escolhido entrar numa família mafiosa de Chicago para a qual tivesse trabalhado honestamente, honrando e servindo com fidelidade. Interpreto o matador, é certo, mas com o mesmo empenho de um bancário.
E se o filme for lançado no mundo inteiro se apoiando no slogan ''o primeiro personagem mau de Tom Hanks''?
É o marketing que inventa essas coisas. Sou um ator, a mim cabe dar credibilidade aos personagens. E o meu gangster, Michael Sullivan, não é um homem mau. É leal, não trapaceia; obedece. Quando decide tomar uma atitude contra sua família mafiosa não busca vingança mas justiça. Os dilemas que dilaceram os seres humanos são sempre os mesmos, desde os antigos romanos. É este eterno moto continuo que me atrai.
Fala-se muito em ''Estrada da Perdição'' sobre pais e filhos. Pessoalmente, como o senhor vive este relacionamento?
Tenho quatro filhos e sou muito ausente de casa. É natural que desconheça quais as músicas que eles cantam. Ou que, às vezes, à noite, quando me deito, eu pense que uma atitude ou uma palavra minha possam ter causado algum dano irremediável. Mas espero ser melhor pai do que fui como filho. Pelo menos tento...
O senhor não acha que contar uma história de gangster no cinema pode transformar um bandido em herói?
Mas de forma alguma! ''Estrada da Perdição'' não exalta a violência ou o crime. Pelo contrário. Fala dos efeitos que a violência e o crime possam ter na alma dos homens. Para mim, ao final Michael tem um recado muito simples e direto ao filho: ''existe a possibilidade de escolher a estrada que se percorre nesta vida, não repita os meus erros''. Um discurso universal que narra o eterno conflito entre gerações diversas.
''Estrada da Perdição'' não foi um campeão de bilheteria dos Estados Unidos...
Nos primeiros dias andou muito bem, depois parou, agora é a vez do boca a boca. É um filme um pouco mais complicado do que a maioria. Pouco dialogado, muito visual. E o verão é tempo de blockbuster ou de pequenas histórias.
E como foi trabalhar com Paul Newman? Dizem que é o sonho de todo ator mais jovem...
Se você não perguntasse sobre isto, eu teria dito de qualquer maneira. Um dia eu estava sentado à uma mesa quando Sam Mendes se aproximou e disse: ''Sabe, Tom, falei ontem com Paul sobre o papel de Rooney''. Perguntei a ele: ''Paul? qual Paul?'' ''Paul Newman'', ele me respondeu simplesmente. E então a sala começou a girar e eu não sabia o que dizer, perdi a voz, achei que fosse desmaiar...Isto responde sua pergunta?


