Se dependesse do sambista baiano Batatinha (1924-1997), o samba bem que merecia ter ministério. E o ocupante da pasta deveria ser Paulo César Batista Faria. Mas quis a realeza que Paulinho da Viola fosse o ''Príncipe do Samba.'' Ele agradece a deferência mas entende que título tão nobre ainda pertença ao veterano sambista Roberto Silva, que o ostenta desde os áureos tempos do rádio.''É justo que esse título seja mantido com ele para sempre. Uma vez até brinquei e disse: 'Roberto eu sou apenas um vassalo do samba'', disse Paulinho da Viola. Sim, a modéstia e a discrição sempre o nortearam, mas isso não o exime de ser tão reverenciado pela elegância com que conduz sua vida pessoal e, principalmente, artística. Aos 62 anos de idade e pertencente à linhagem mais nobre do samba herdeiro da casa real de onde saíram Cartola, Sinhô, Pixinguinha, Zé Ketti, Nelson Cavaquinho, só para citar alguns monarcas , Paulinho pode até se esquivar de vaidades maiores. No entanto, sua arte há tempos deixou de ser objeto de admiração musical para tornar-se alvo de tese de doutorado (''Velhas Histórias, Memórias Futuras'', de Eduardo Coutinho) e até mesmo documentário (''Meu Tempo é Hoje'', de Izabel Jaguaribe).
Pois muito bem, Paulinho da Viola está entre nós. Ele foi escolhido para encerrar as atividades do Cabaré do Filo hoje, num show tão aguardado quanto representativo para a vida cultural de Londrina. Sábio, sereno, dolente e acima de tudo elegante em todos os sentidos, é bom frisar , ele vem para mostrar um pouco de suas criações ao lado dos seguintes músicos: Cristovão Bastos (teclados) um show à parte , Dininho (contrabaixo), Jorginho (pandeiro), Mário Sève (sopros), Hércules Nunes (bateria) e João Rabello (violão), filho de Paulinho.
O repertório, como não poderia deixar de ser, terá clássicos como ''Dança da Solidão'', ''Coração Leviano'', ''Foi um Rio que Passou em Minha Vida'', ''Sinal Fechado'' e algumas músicas inéditas, entre elas ''Bela Manhã'' e ''Retiro'' uma de suas obras-primas estaria listada? Enfim, canções consagradas em 40 anos de carreira ele começou em 1964 tocando no Zicartola, lendário bar de propriedade de Cartola e de sua inseparável Zica.''A gente tá pensando em fazer pelo menos umas três músicas instrumentais'', avisa. A seguir os principais trechos da entrevista que Paulinho da Viola concedeu por telefone à Folha2.
®MDNM¯ O tempo lhe foi favorável, Paulinho?
Eu acho que o tempo é favorável a todas as pessoas. O tempo é uma coisa soberana e eu estou até fazendo um samba que tem esse verso. Ele ensina, amadurece e em certas religiões é uma entidade, um campo de energia. Mas sinceramente eu não tenho uma definição pessoal sobre o que é o tempo.
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Você acha necessário criar o Ministério do Samba como o Batatinha escreveu num de seus sambas?
(rindo) Não.
E o Batatinha escreveu que o ministro do samba deveria ser você, que tal?
(rindo) O samba não precisa disso não.
O samba precisa do quê?
O samba não precisa de nada. O samba é uma coisa forte, tão forte... O samba sempre incomodou demais e atravessou tudo. E hoje se você for ao Japão vai ver que tem escola de samba e choro. Para ter uma idéia em 1987 ou 1988, eu recebi um disco de três japoneses tocando choro. Era de um grupo de jazz instrumental que tocava bem. Então veja você: mesmo com todo preconceito, o samba é um ritmo muito forte que, se dependesse de mídia, já teria desaparecido. Não desapareceu porque o nosso povo não deixa.
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Você gosta dessa rapaziada nova?
É claro que eu não gosto de tudo. Tem coisas que me incomodam, mas o fato de eu não gostar de uma determinada coisa não me dá autoridade para dizer que aquilo é errado. Há milhares de pessoas que gostam disso ou aquilo e eu tenho que respeitar e acabou. Eu não entro nessa: ''mas isso é comercial''. Eu não discuto essas coisas. Acho isso uma falta de respeito com as pessoas.
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Como foi essa história de você e o João Bosco ganharem na loteria esportiva?
(rindo) Eu não me lembro exatamente o ano, acho que foi em 83 ou 84...Foi engraçado. Estávamos no carro, eu morava em Botafogo, quando resolvemos jogar na loteria, mas descobrimos que estávamos sem dinheiro. Aí eu fui até à lotérica e perguntei se podia jogar com cheque. A moça foi falar com o dono, que me olhou e disse que ela podia aceitar. Paguei em cheque. Naquele tempo tinha que colocar o nome de alguém e o João Bosco falou para colocar no nome da Ângela, esposa dele. E o comprovante ficou comigo. O João viajou para Cuba e eu me esqueci daquilo. Aí era uma segunda-feira, fui para casa da minha mãe e estava vendo aquele matemático Oswald de Souza fazendo suas previsões. Ele dizia que com aquele resultado poucas pessoas ganhariam por causa de duas zebras lá na Espanha, o Real Madrid perdeu para não sei quem. Eu peguei o jornal Última Hora e tinha o resultado. Comecei a comparar. Tudo ia fechando, quando cheguei ao 12º jogo, comecei a ficar nervoso. Só faltava o último e quando vi a gente tinha feito os treze pontos. E o prêmio foi dividido com 17 pessoas. Foi um dinheirinho legal.
Você está com músicas inéditas. E quando volta a gravar?
Estou dando um tempo mesmo. Já conversei com várias gravadoras, mas pretendo gravar só quando todo o repertório estiver definido.

Serviço
- Show com Paulinho da Viola. Hoje, a partir das 22 horas, no Cabaré do Filo (Avenida Celso Garcia Cid, 1.342, entrada pela rua São Mateus). Ingressos esgotados. A noitada no Cabaré continua com o Acústico Blues Trio e Londrina Jazz Trio.

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