No final dos anos 90, o carioca Tico Santa Cruz entrou em uma sala de bate-papo da internet perguntando se alguém ali tocava algum instrumento, pois ele queria montar uma banda. Foi quando conheceu o baixista Tchello e, juntos, recrutaram os demais integrantes para formar o Detonautas Rock Clube. No álbum de estréia, em 2001, as canções ''Outro Lugar'' e ''Quando o Sol Se For'' fizeram sucesso nas rádios e ganharam versão em videoclipe.
Admirados principalmente por adolescentes, apesar de nem sempre ser unanimidade entre a crítica, os Detonautas pareciam focar o trabalho em canções com temas cotidianos e desventuras amorosas. Mas não era bem assim. A preocupação com algumas mazelas sociais abordada com sutileza começou a ganhar discursos de Tico Santa Cruz nas apresentações do grupo, que fez uma série de protestos do gênero na época que estourou o escândalo do mensalão.
No ano passado, os Detonautas viveram o momento mais difícil de sua trajetória: durante um assalto, o guitarrista Netto foi assassinado com um tiro a queima roupa. A perda do amigo motivou Tico a ir além dos discos e dos palcos. O roqueiro participa constantemente de protestos pela paz e está à frente de uma grande mobilização prevista para o próximo dia 4 de junho: o Apagão Moral. Confira a entrevista que ele concedeu.

Desde a morte do guitarrista Netto, os Detonautas ficaram conhecidos pelo discurso contra a violência. Vocês estão à frente do 'Apagão Moral'. Como será essa ação?
A gente já tinha uma preocupação grande com os problemas sociais e a violência. A morte do Netto só potencializou isso. O ''Apagão Moral'' é uma ação que a gente está desenvolvendo para convocar as pessoas que estejam em casa ou no trabalho a protestar contra a impunidade, contra a corrupção e contra a violência, apagando a luz por um minuto, às sete da noite, no dia 4 de junho. Elas devem pensar no que podem fazer para melhorar o País. Nesta data completa-se um ano do falecimento de Netto.

Você está sempre discursando nos shows contra a corrupção e a violência nas grandes cidades. Esse engajamento parte de você?
No Detonautas todos têm a mesma preocupação. Agora, por conta mesmo de ter a palavra, minha imagem fica mais diretamente associada à conscientização. É algo que eu desenvolvo na minha vida desde sempre. Ficou tão forte que até para a banda não ser o tempo inteiro vinculada a essas questões, eu criei o ''Voluntários da Pátria''. É um grupo formado por artistas, músicos e poetas que participam de projetos em escolas tanto públicas quanto particulares. A gente usa menos música e mais palavra. Assim consigo equilibrar melhor o engajamento do Detonautas e o meu.

Apesar de estarmos cada vez mais reféns da violência, parece que há uma fatia enorme da população meio apática. Você acha que ainda tem muita gente que desliga a televisão só para evitar o assunto?
Eu acho que a sociedade brasileira é esquizofrênica. Tem gente que acha que a violência parte de um garoto que nasceu mal, vive num ambiente marginal e daí pega uma arma e parte para a criminalidade. Essas pessoas não conseguem enxergar que os políticos corruptos desviam verbas da educação. Uma criança deveria ser mantida na escola mas, uma vez não sendo protegida pelo Estado, passa a ser protegida pelo tráfico de drogas. Aí ela percebe que o dinheiro que a mãe dela ganha trabalhando duro e formalmente é ridículo perto do que se ganha no tráfico. Então as pessoas nem sempre conseguem associar a política ao aumento da violência, que também é reflexo da negligência em outros setores, como a saúde, a cultura. Para piorar ainda temos a impunidade dessas autoridades. A Justiça precisa parar de julgar o cidadão e julgar o ato dentro da lei. Eu acho também que estamos muito atrasados: o Código Penal brasileiro é de 1940. É possível encontrar muitas brechas que fazem que os criminosos não sejam responsabilizados por seus atos.

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