ENTREVISTA - Tempo de reinventar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de julho de 2004
Renata Petrocelli<br> TV Press 
Como a grande maioria dos veteranos novelistas, Aguinaldo Silva considera seu trabalho uma tarefa estressante. Tanto que chegou a declarar, enquanto escrevia ''Suave Veneno'', exibida em 1999, que aquela seria sua penúltima trama. Àquela época, ele achava que, aos 60 anos, ''não teria mais idade'' para enfrentar tamanha responsabilidade. Mas o sexagenário autor volta ao ar com ''Senhora do Destino''. A opinião sobre a ''prova de fôlego'' que o aguarda continua a mesma. Mas Aguinaldo decidiu que a aceitaria se pudesse fazer algo diferente de trabalhos que definiram seu estilo, como ''Fera Ferida'' e ''Porto dos Milagres''. ''Tentei me livrar de todos os truques, todas as 'muletas' que a experiência me deu. Estava ficando repetitivo'', reconhece.
Entre as principais mudanças, ele aponta o abandono da pequena cidade interiorana e do realismo fantástico. Como em ''Suave Veneno'', Aguinaldo volta a ''flertar'' com o realismo urbano e contemporâneo. Mas não deixou de trazer do Nordeste a família da personagem central, Maria do Carmo. ''Não podia desprezar toda a minha experiência, né?'', brinca o autor, entre sorrisos. Ele faz questão de ressaltar, no entanto, que a novela é uma espécie de retorno a suas origens na tevê. Afinal, fez sua estréia no ''urbaníssimo'' seriado ''Plantão de Polícia''. ''Quando fui chamado para escrever 'Roque Santeiro' é que dei esta guinada. Por isso considero esta novela uma retomada'', esclarece.
Você tem declarado que poderia assinar ''Senhora do Destino'' com um pseudônimo, que ninguém reconheceria seu estilo. O que há de tão diferente?
Tentei me livrar de todos os truques, todas as muletas, coisas que a experiência me deu. E todo novelista com uma certa experiência tem. Estas coisas podiam até funcionar, mas não me agradavam mais. Eu queria me reinventar, criar um novo autor, provar para mim mesmo que podia fazer isso. O próprio realismo mágico era um truque que eu usava, a cidadezinha do interior também. E também truques de ritmo, de cortes... Eram coisas que funcionavam, mas para mim não serviam mais.
Você trabalhou com jornalismo, mas esta é a primeira vez que coloca um jornalista em uma novela. Esta experiência lhe serve de inspiração de alguma outra forma?
Como ambientava minhas novelas em cidades bem pequenas do interior, não havia espaço para um jornalista na história. Mas sempre uso material que fui acumulando nesta época, tenho tudo arquivado. Isso me dá uma agilidade muito grande para escrever. Se tenho uma trama policial, já sei como as coisas se movimentam. Em muitos casos, não preciso recorrer a um pesquisador por já ter esta experiência.
Você gosta de acompanhar as gravações de suas novelas?
Não acompanho gravação. Uma cena que levei dez minutos para escrever demora quatro horas para ser gravada. Acho isso insuportável. O que gosto mesmo é de escrever e ficar em casa vendo o trabalho do diretor e dos atores. O autor, depois que escreve, tem de ficar em casa quietinho.
O que você espera de sua parceria com o diretor Wolf Maya?
R - Eu tinha um grande parceiro, que era o Paulo Ubiratan. Quando ele morreu, fiquei meio ''viúvo''. Toda grande novela é fruto de uma parceria entre um autor e um diretor. Estou acreditando muito neste encontro com o Wolf, o próprio Paulo sempre falava que um dia eu teria de trabalhar com ele. Isso é uma coisa que a gente sente, porque eu apresento uma idéia e ele imediatamente embarca. Agora, se trabalho com um diretor, digo que vou fazer um personagem voar e ele responde: ''Ah, não, mas as pessoas não voam...'', já estragou tudo.
Esta sensação de ter descoberto uma nova parceria aumenta sua confiança no desempenho da novela?
Acho que novela é um trabalho de equipe, não vejo o autor como o ''todo-poderoso''. Quando percebo que estou bem cercado, que as pessoas envolvidas são competentes e estão empenhadas no trabalho, fico mais tranquilo. Mesmo assim, existe um colaborador que só entra quando a novela estréia, que é o público. E este a gente nunca sabe como vai reagir.


