ENTREVISTA - 'Sou uma missionária da música'
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de agosto de 2006
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Como foi se apresentar no mítico Carnegie Hall, Rosa?
Foi lindo. Tenho a alegria de dizer que só três artistas na história da música brasileira foram convidados para o Carnegie Hall: Antônio Carlos Jobim, João Gilberto e eu. Agora, entrei para a galeria de Carnegie Hall, está lá minha foto. Tudo isso por causa do Yo-Yo Ma que é meu padrinho. A penetração do meu trabalho nos Estados Unidos se deve muito a ele, apesar de ter a força também de Ron Carter que é uma referência, uma lenda viva do jazz. Só posso dizer que foi um concerto bom, com casa lotada.
Olha só!
E foi um convite do próprio Carnegie Hall. Fiz sozinha com violão. Você não sabe como estou plena de felicidade, plena de música. Tranquila! Quando tinha 18 anos, certa vez estava sentada tocando violão, meu pai, que vai fazer 90 anos,me disse: ''Minha filha, um dia você vai tocar no Carnegie Hall''. Falei: ''Painho, pare com isso''. E ele: ''Oxente, vai cantar no Carnegie Hall sozinha e com seu violão. Escute seu pai''. Tanto que quando me apresentei com público repleto de norte-americanos, minha platéia é de estrangeiros eu dediquei essa noite a meu pai. Cantei para Deus, que é meu 'manager' maior e para meu pai que fez essa profecia. Disse a todos que estava feliz porque um artista chegar ao nível que cheguei, no teatro mais importante e sozinha com meu instrumento só posso ser uma pessoa realizada.
Tem uma frase de ''Sutileza'', música do disco que diz: ''eu busco a sutileza do sussurro'', que traduz bem a alma do projeto. Estou certo?
Está certo. Em princípio o disco até poderia chamar-se ''Sutilezas'' porque o Sérgio Natureza fez uma letra muito bonita pra mim, sobre a forma que ele me vê fazendo música.
Em ''Rosa'' parece haver uma economia de acordes, como que se você quisesse dizer que não há necessidade de malabarismos rítmicos para demonstrar virtuosismo. Estou certo também?
Eu acho que sim. Fiz um disco para as pessoas que acompanham meu trabalho e que gostam de mim ao violão. E também me dei esse disco de presente no sentido de que há uma conscientização de um trabalho que tenho capacidade, hoje, de fazer sem ansiedades melódicas.
Gostei disso: ''ansiedades melódicas''...
O menos para mim é mais. Se você pode fazer de uma forma econômica colocando mais a estética da música na frente, o belo, acho que tem muito mais efeito na pessoa que escuta.
O repertório passa por uma melancolia, um jeito transversal de falar de amor. Foi intencional ou coincidência?
Isso é muito meu. Queria dar um toque de intimismo e ao mesmo tempo de romantismo às pessoas apaixonadas, separadas, saudosas...Eu quis dar um toque de melancolia, não a que fere, mas a de uma melancolia doce. É para refletir, para sentir saudade, de querer dar um beijo, se expressar, de ligar para a pessoa e dizer: ''quero te ver, estou com saudade!''.
Acho que vou seguir seu conselho...
(risos) Liga, liga! O que posso dizer é que essa melancolia a que você se refere é uma melancolia morena!
Mudando de assunto. Você é aclamada lá fora, isso é fato. O que o público exterior vê na sua arte que a maioria dos brasileiros não vê ou se negar a ver?
Eu não sei... É algo que eu me pergunto sempre. Venho aumentando meu público, me consagrando no exterior... O que posso lhe dizer é que lá fora existe um respeito muito grande por mim tanto pelo público quanto pela imprensa. Mas vou lhe dizer uma coisa de coração e alma: do mesmo jeito que canto nos Estados Unidos, Europa e Japão eu canto no Brasil. Só sei que sou uma missionária da música e cada vez sinto isso mais forte. Sou desprovida de vaidades porque acredito que pedi a Deus para vir cantando a esse mundo. Agora, quanto à sua pergunta talvez falte oportunidade de me apresentar mais aqui e a mídia prestar mais atenção ao meu trabalho.
Teria sido melhor o Brasil ter te conhecido primeiro para depois te ''exportar''?
A resposta que tenha a lhe dar é essa: se foi assim era porque tinha que ser assim. Era para ser reconhecida de fora para dentro... Para mim o que está acontecendo é o resultado de um trabalho de qualidade e que talvez ainda não era hora de vir ao Brasil. Então tenho que continuar a fazer meu trabalho lá fora para, aos poucos, meu País me reconhecer, me aceitar. Não vejo isso como algo negativo, acho que é o momento de cada artista. Há artistas que aconteceram muito aqui... No meu caso, batalhei muitos anos no Brasil, mas as coisas começaram a acontecer de fora para dentro. Por incrível que pareça estou tendo muitas surpresas, como a comunidade Rosa Passos no Orkut. Tenho fãs no Brasil inteiro.
E aí o Yo-Yo Ma declara para imprensa internacional que você, Rosinha, tem a voz mais bonita do mundo. E daí?
(encabulada) Meu Deus, fico até sem jeito de responder. É uma honra. Ele foi ao programa da (apresentadora norte-americana) Oprah Winfrey e quando perguntado sobre o que estava ouvindo: ''Rosa Passos''. Ele sempre me manda rosas vermelhas lindíssimas... Yo Yo foi a primeira pessoa a ouvir esse disco e ele mandou uma carta tão linda...
Você está tão à vontade que parece que o rótulo ''João Gilberto de saia'' incomoda mais...
Não mesmo porque isso é usado só no Brasil. Lá fora eu sou Rosa Passos, uma cantora e compositora brasileira de jazz. Fui certa vez comparada a Ella Fitzgerald pela articulação rítmica. Mas eu sou mesmo Rosa Passos, uma artista que não perde nunca sua brasilidade. Vou lhe dizer uma coisa: acho que o disco ''Rosa'' tem uma missão, que é a de me trazer de volta à minha terra, ao Brasil.
Para terminar como você resume seu momento artístico e pessoal atualmente, minha flor?
Tenho a sensação de missão cumprida. Sabe uma rosa com pétalas molhadas? É assim que me sinto: tranquila, madura. Com frescor!
Serviço
- Disco ''Rosa'', de Rosa Passos, gravadora Telarc, com distribuição no Brasil pela gravadora Universal Music. Preço médio: R$ 30,00


