ENTREVISTA - Simplicidade em cena
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de julho de 2005
Flávia Swerts<br> TV Press 
Nívea Maria tinha uma boa razão para querer o papel da humilde Maria José, em ''América'': ter acabado de interpretar a sofisticada Corina, de ''Celebridade''. Como todo ator, Nívea também queria fazer um personagem diferente daquele que ainda estava na memória do público. E é com essa variação que Nívea mantém a empolgação depois de 42 anos de carreira. Mas além disso, a personagem da atriz também ajuda um bocado. Na trama, Mazé, como é conhecida, é mãe do peão Tião, de Murilo Benício, e do ambicioso Geninho, de Marcelo Novaes, por quem foi enganada para vender as terras onde vive. ''Esse drama como mãe vai fazer de Mazé, até então frágil e tímida, uma mulher forte'', adianta, com um largo sorriso.
Aos 58 anos, a atriz que começou a carreira aos 16 parece não se preocupar com o envelhecimento e com os reflexos disso no seu trabalho. ''A idade está aí mesmo. A dramaturgia não vive apenas de mocinhas e mocinhos. Sempre vão ter as mães, avós...'', argumenta. Nívea também lida bem com as mudanças do seu corpo e, no caso de Mazé, acredita que as formas arredondadas contribuíram para o visual da personagem.
Seu último papel na tevê foi a grã-fina Corina de ''Celebridade''. Você se identifica mais com ela ou com a humilde Mazé?
O universo da Mazé é muito mais próximo de mim. Sou uma pessoa de hábitos e vida simples, uma operária da minha profissão. Vim de uma família de classe média, meu pai era advogado, mas minha mãe sempre foi dona de casa. Era uma pessoa humilde, que passou a vida cuidando do lar e dos filhos. Por isso, é muito mais fácil e confortável para mim fazer uma personagem com um jeito simples do que tipos sofisticados.
O que exatamente mais chama a sua atenção na Mazé?
O despojamento e a pureza de sentimentos. Ela é uma personagem muito humana e verdadeira, que não sofre nenhuma influência da modernidade. Ainda hoje muitas pessoas vivem dessa forma, nessa espécie de redoma de proteção contra as coisas duras que acontecem no mundo.
Como está a repercussão da sua personagem nas ruas?
As pessoas estão chocadas como eu consegui ir da Corina de ''Celebridade'' para a Mazé. Outro dia eu estava fazendo compras em uma loja de grife e me perguntaram: ''A Mazé compra aqui? A Corina, com certeza, compraria''. Muitos vêem a profissão de atriz com muito glamour e não conseguem entender como eu consigo fazer a Mazé, que é realmente uma desmazelada.
Para você é difícil deixar a vaidade de lado para interpretar a Mazé?
As pessoas acham que as atrizes são muito vaidosas e que têm de estar sempre maquiadas e com o cabelo arrumado. Mas estou em um momento muito despojado da minha vida. Estou reavaliando conceitos, valores e me preocupando muito mais com os outros. Não no sentido da bondade, mas quero compreender as necessidades das pessoas e como elas lidam com esse mundo tão tumultuado. Através dessa personagem estou aprendendo a valorizar as coisas simples da vida e a me relacionar com o tempo de uma forma mais contemplativa. Por isso, faço a Mazé com tanta tranquilidade.
Você constantemente emenda trabalhos na tevê. Qual a sua motivação para se dedicar tanto ao veículo?
É a continuidade de trabalho que a tevê me oferece. O teatro não me faz tantas ofertas e o cinema... Continuo sem fazer. Eu não perco o prazer de fazer tevê, pois trabalhar nela é sempre positivo. Às vezes, você faz um grande personagem em uma obra que não faz tanto sucesso. Mas, em outros momentos, você faz um papel fraco em uma novela de grande sucesso, que vale a pena ter no currículo. Ou seja, você sempre sai ganhando. Hoje em dia, não faço mais tevê para ser vista, para divulgar o meu trabalho. Mas não posso ignorar que através dela estou conseguindo conquistar novas gerações, que não conheceram o início da minha carreira.


