O diretor Ang Lee, que ganhou seu primeiro Leão de Ouro veneziano em 2005 com o western gay ''Brokeback Mountain'', volta a polemizar com este drama fortemente erotizado, localizado em território entre luz e sombra, entre os sentidos e a razão. Tema, aliás, muito caro a ele, também diretor de ''Razão e Sensibilidade''.

''Lust, Caution'' (Se, Jie, título em mandarim) é um thriller de espionagem que, sem constrangimentos, dialoga com guerra, política, traição, sexo e amor. A trama se passa em Shangai sob ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Narra o ambicioso complô organizado por estudantes da resistência chinesa para assassinar um importante colaboracionista, o sr. Yee (Tony Leung).

A jovem estudante Chia Chi (Tang Wei) é escalada para se tornar íntima do poderoso entreguista. O plano dá certo como estratégia, mas algo dá errado: nenhum dos dois contava com o envolvimento e uma entrega ilimitada.

Cinquenta e quatro anos agora em outubro, nascido em Taiwan de pais fugitivos da China durante a Revolução Cultural (''eram inimigos do Estado por serem donos de imóveis''), mas crescido nos Estados Unidos, consagrado a partir dos anos 1990, dois filhos e um casamento sólido e sereno, Ang Lee é um cineasta que tem a força e a liberdade suficientes para afrontar situações, psicologias e sensualidades complexas sem qualquer hipocrisia e limite. Talvez por isso seja alguém tão delicado no trato, tão calmo e sereno mesmo quando o assunto é complexo e espinhoso como falar desta China contemporânea.

Em Veneza, no amplo terraço do Hotel Des Bains, a FOLHA conversou com o diretor no meio da semana que transcorreu entre a primeira exibição do filme em concurso e antes da premiação. A seguir, os principais trechos da entrevista.

FOLHA - Em ''Lust, Caution'' temos uma situação limite, colocada a princípio em chave política, mas que evolui para uma relação íntima incandescente, até mesmo violenta. Como o sr. situa o sexo quase explícito em seu filme ?
Ang Lee - É verdade, o sexo em ''Lust, Caution'' é verdadeiro, carnal, brutal e terno, entre a estudante revolucionária e o homem que ela e seu grupo devem assassinar. Chia Chi é apanhada na voragem da sensualidade, o que deixa os ideais em segundo plano. Como colocar e lidar com esta questão ? O que é mais verdadeiro, sentido ou razão ? Ela sente que o corpo a traiu, e tudo se torna muito confuso. Por outro lado, a paixão, na eterna dualidade amor-morte, une sempre o lado obscuro e o lado solar da personalidade humana. O sexo é um caminho para a descoberta de si mesmo, e é isto que eu conto em meu filme.

Depois de um bom tempo longe da China, o sr. voltou ao país e rodou seu filme em chinês. O que pessoalmente representa este retorno ?
Crescer e estudar na América, sendo chinês e tendo ouvido na minha infância meus pais e meus avós recordarem as transformações históricas, culturais e sociais de meu país - isto tudo me ajudou a contar esta história sobre colaboracionistas chineses com o governo japonês, serviços secretos e ativistas revolucionários que cantavam ''a China não cairá''. Com este filme busquei alguma coisa que perdi na parte mais profunda da minha formação cultural cosmopolita. A China que conto é como o Iraque de hoje: um país em busca de sua identidade, da mesma forma que a minha jovem protagonista. Um país que une capitalismo e comunismo.

E como o sr. encontrou o país, sete anos depois de ter feito lá ''O Tigre e o Dragão''? Muita coisa mudou ?
Muito, com certeza. Em certo sentido hoje ficou muito mais fácil fazer um filme. Mas tive que trabalhar muito para obter aquilo que em Hollywood consigo sem ao menos mexer um dedo. Na China não existem sindicatos, as horas-trabalho são praticamente ilimitadas, trabalha-se por muitos dias seguidos sem interrupção, e não existe ainda o nível de especialização que há nos EUA, o que me faz ficar sempre atento a todos os detalhes. Mas ao mesmo tempo minhas raízes estão na China, e com um texto em chinês me senti muito confortável.

''Lust, Caution'' é baseado em conto de Eileen Chung, famosa escritora na China. É comum a presença de uma sensualidade feminina assim tão intensa na literatura chinesa ?
De maneira nenhuma. E o caso dela é ainda mais extraordinário, já que escreveu durante a Segunda Guerra, quando lutávamos contra os japoneses. O exemplo de Eileen é de muita coragem, nunca tinha ocorrido nada assim antes na literatura chinesa. Era uma escritora controvertida, considerada uma traidora, mas para mim sempre foi uma heroína.

Como o erotismo tem papel preponderante, quase vital em ''Lust, Caution'', de que forma o sr. pretende administrar uma possível ação das censuras, em especial na China ? *
Não tenho intenção de cortar as cenas consideradas mais ousadas. E de resto o título é muito claro: Luxúria, Atenção. Não é somente sexo, é bom deixar bem claro, mas é certo que a sensualidade caracteriza inteiramente o filme.

* N.R. Há alguns dias, apenas duas semanas após esta entrevista, a censura chinesa ameaçou interditar o filme, que estréia no dia 26 de outubro no país. Mas ordenou ''apenas'' um corte de cerca de 30 dos 155 minutos de ''Lust, Caution''. O próprio Ang Lee amputou, ele mesmo, as sequências que os censores indicaram.

Em declaração à imprensa, o diretor disse que ''para o espectador que não viu a versão integral, a recortada ficou razoável''. Nos Estados Unidos o filme será visto na íntegra na próxima sexta-feira, mas com classificação etária para maiores de 17 anos e em circuito reduzido. A estréia no Brasil e em grande parte do mercado mundial está prevista só para 2008. Mas a rede pirata globalizada neste momento já abastece o voyeurismo clandestino.

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