ENTREVISTA - Samba e política, com Beth Carvalho


Julio MariaAgência Estado
Julio MariaAgência Estado

Expulsão do carro na Mangueira e polêmica com cantora Alcione no lançamento da biografia de sua antiga rival, Clara Nunes (‘‘Clara Nunes: Guerreira da Utopia’’, Ediouro). O inferno astral que Beth Carvalho viveu em 2007 parece dar um respiro com o lançamento de seu DVD ‘‘Beth Carvalho canta o samba da Bahia’’, no qual divide o palco com cantores baianos. O álbum é o assunto sobre o qual quer falar agora. Mas, quando se dá conta, Beth já opinou sobre tudo. Por trás da voz de veludo da madrinha de cantores como Zeca Pagodinho, está uma carioca passional, ela admite. Alguém que não esconde o que pensa e fala de tudo. Menos de Clara Nunes. Confira a entrevista:
Seu DVD dá espaço à revelação baiana Mariene de Castro. É o gosto por lançar talentos? Gosta de ser chamada de madrinha dos sambistas?
Beth Carvalho - Tenho o maior carinho pelos meus afilhados. Madrinha, como dizem, é mãe com açúcar. O que analiso é que não haveria necessidade de ser madrinha de ninguém se o País se preocupasse com a cultura, as gravadoras principalmente. Elas é que tinham que fazer esse papel que faço. As editoras de música ficam só esperando: ‘‘Quem a Beth vai revelar agora?’’. Nunca fazem o trabalho. Não que eu goste de ser madrinha. Tenho esse espírito de mostrar o talento dos outros. Isso é uma coisa. A outra é que passou a ser necessidade o meu trabalho, porque as editoras não fazem o que deviam fazer. Mas foi natural, o povo chama de madrinha.
  Dava para ver que o Zeca Pagodinho faria tanto sucesso?
  Dava para ver que era diferente, tanto que foi o único que convidei para cantar comigo. Coloquei o Zeca no ‘‘Fantástico’’ (da Rede Globo), que era o nosso clipe antigamente.
  E aí...
  Aí nada. A gravadora que indiquei não gravou com ele. A RGE fez um disco Raça Brasileira em que ele participou em algumas faixas e fez um sucessinho. Aí a RGE fez um LP dele e vendeu 1 milhão de cópias.
  Foi a primeira a ver o talento nele.
  Ah, isso aí eu fui mesmo. Ninguém me tira. (risos) O Zeca era um cara magrinho, com uma sacola de supermercado com o cavaquinho dentro. Neguinho nem queria que ele cantasse. E eu: ‘‘Peraí, esse cara aí é bom, deixa ele cantar a풒.
  Há samba bom e samba ruim?
  Existe música boa e música ruim. Até na música clássica. Tinha compositor chinfrim mesmo, que não sai do assunto... (risos)
  Mas o samba muda? Ele piorou?
  Muda porque a vida muda. O samba é revolucionário, é vanguarda porque é a crônica do dia-a-dia. Se não quiser ler jornal, acompanhe o samba que ele vai dizer o que está acontecendo agora.
  E o samba feito agora, como o do CD da Maria Rita, por exemplo?
  Adorei, botou seis músicas do (músico lançado por ela) Arlindo Cruz, você quer que não goste? (risos)
  Aquilo é samba legítimo?
  Claro que é. Ela pôs do jeito dela, tanto que nome do disco é ‘‘Samba Meu’’. Gravou seis sambas do Arlindo. Eu já gravei 35, né? (risos). Mas sou madrinha do cara.
  O Carnaval também evoluiu? Está mais comercial, chato...?
  É, tem que tomar cuidado, que está ficando assim. Gosto do mesmo jeito, porque amo desfile de escola de samba. Nunca vai ser tirado esse valor. Agora, essa coisa de achar de escola de samba é empresa... Escola de samba é instituição cultural. Essa mentalidade de empresa é que está dando essa confusão toda. É uma instituição cultural que tem que prestar serviços ao povo brasileiro, à sua comunidade.
  E estão se descaracterizando?
  Alguns dirigentes estão descaracterizando as escolas de samba.
  Não são todos?
  (pausa) Alguns mais, outros menos. Mas está tomando um caminho um pouco perigoso nesse sentido: não é empresa.
  Precisa mudar os dirigentes então?
  Tem que mudar o pensamento! Instituição tem que ser bem cuidada, cuidar das pessoas que a vida inteira se deram para ela.
  E não é mais assim.
  Há muito tempo que não é assim. Isso é muito ruim, porque daqui a pouco o povo vira as costas. E aí?
  Acha que isso vai acontecer?
  O povo pode fazer isso, sabe. Cada vez menos tem povo na avenida, nem na arquibancada nem na escola. Problema econômico, somente. Ninguém tem dinheiro para comprar a fantasia. Está muito cara, porque virou empresa. É uma pena, porque é o maior espetáculo da Terra.
  Não tem no mundo nenhuma coisa nem próxima. Concorda?
  Não conheço o mundo para saber.
Eu não conheço nenhuma festa parecida. Por isso, os estrangeiros ficam enlouquecidos.
  O Carnaval parece estar mais voltado para as celebridades. Não sei se sempre foi assim...
  Quando começou a ficar assim?
  Difícil dizer. Acho que com evento de televisão, novela, Big Brothers e não sei o quê... Acho que é por aí. Isso é reflexo do País, da globalização, de governos Fernando Henrique (Cardoso) da vida e coisas assim. Por exemplo, o sambódromo foi uma coisa muito importante e a maior homenagem que o samba já recebeu na vida, feita por Leonel de Moura Brizola. Mas essa coisa de celebridade está em todos os setores. Todo mundo vira celebridade em cinco minutos.
  Você é celebridade.
  Ah, mas eu tenho história para ser, né? Mas é meio cretino eu falar que sou celebridade... (risos)
  Eu falei.
  Pois é. Se eu for celebridade é porque tive história para ser.
  Citou a obra de Brizola. Outros governos fizeram algo pelo samba?
  O presidente Lula vai dar verba para as escolas de samba. E o ministro Gilberto Gil tombou o samba do Rio de Janeiro e o samba de roda da Bahia. Basicamente isso.
  Isso é mais que os anteriores?
  Muito mais, o Fernando Henrique não queria saber disso. Queria saber de Sorbonne. (risos)
  E a simpatia pelo (presidente da Venezuela) Hugo Chávez continua?
  Não é questão de simpatia, é questão de justiça. Sei o que faz na Venezuela, como é bom presidente. Eu vi. Acabou o analfabetismo na Venezuela. Usou o método Robson. Sabe o que é o método Robson?
  Sim, soube por entrevistas suas.
  Pois é. Só eu que falo. (risos) O método Robson foi usado no Brasil pelo Lula, no Piauí. E hoje é o Estado mais alfabetizado no País. Agora precisa usar no resto do País. Com esse método, em pouquíssimo tempo a pessoa é alfabetizada, passa para o segundo grau e a faculdade. E na Venezuela tudo melhorou, também com a solidariedade de Cuba. Aliás, a pobreza de Cuba é culpa dos Estados Unidos.
  Também responsabiliza os EUA pela pobreza brasileira?
  Responsabilizo, em toda a América Latina. Americano está em tudo. São capazes de derrubar o próprio prédio deles, o World Trade Center, para justificar a guerra (no Iraque).
  Acredita na teoria da conspiração...
  Credito.
  E, no Brasil, falta um Hugo Chávez?
  Talvez sim, talvez não. Acho que o Lula entende bem o povo brasileiro. Já é uma grande coisa. Tem a mesma linguagem do povo.
  Quem seria o sucessor do Lula?
  Acho o Requião interessante, mas acho que ele não tem esse intuito de ser presidente. Vem cá, a entrevista é política?
  Só mais uma pergunta, sobre a polêmica da Clara Nunes.
  Ah, não, esse assunto não vou falar. Esse assunto está morto.
  Posso fazer a pergunta e se você não quiser, todo direito de não responder... Posso?
  Acho que nem isso deve fazer. É tão bobo isso. Não estou a fim.
  Não quer falar?
  Não.

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