ENTREVISTA - Resgate emocional
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de maio de 2004
Rodrigo Teixeira<br> TV Press 
Benedito Ruy Barbosa continua dominado pelas emoções, como sempre. Ao ver as primeiras imagens do ''remake'' de ''Cabocla'', o paulista de 73 anos perdeu a voz, emudeceu e os olhos lacrimejaram. A novela das seis traz muitas recordações a Benedito, que escreveu a original em 1979. ''Quando vejo o personagem Tomé, bambeio na hora. Lembro do falecido Maurício do Valle. Sou emotivo'', assume, referindo ao papel que será interpretado desta vez por Eriberto Leão. Em 2002, o autor abandonou ''Esperança'' alegando motivos de saúde. Mas Benedito já está com os pulmões recuperados e livre de um enfisema. ''Canto até em karaokê'', comemora o ex-fumante.
Benedito volta a ocupar o horário das 18 horas após cinco produções no horário nobre. Tirando a mais recente, ''Esperança'', todas foram sucesso: ''Terra Nostra'', ''O Rei do Gado'', ''Renascer'' e ''Pantanal'', na extinta Manchete. A última novela das seis de Benedito foi ''Vida Nova'', em 1988, mas ele já havia criado outras, como ''Sinhá Moça'' e ''Paraíso'', além de ter escrito a primeiro das seis da Globo em 1971: ''Meu Pedacinho de Chão''. ''O Boni dizia que eu era a base da pirâmide'', ressalta o autor, que deixou a Globo nos anos 80 porque queria escrever novela das oito. No entanto, Benedito não pretende assumir uma nova das oito até o final do contrato com a emissora em 2007. ''Cansei. Não quero mais. Prefiro seriados e minisséries'', jura Benedito.
As suas filhas, Edmara e Edilene, estão adaptando a ''Cabocla'' original. Até que ponto você está controlando o trabalho delas?
Deixo-as totalmente à vontade. Só que elas escrevem os capítulos e passam para mim. E eu leio todos. Elas já estão no capítulo 45. E eu comento o que acho com elas. Às vezes, peço para alterar alguma coisa, porque elas acrescentam alguma cena e mando cortar por causa do ritmo do capítulo. Não quero que encham linguiça porque esta história é muito rápida. A original tinha 178 e agora serão 140 capítulos.
Como inaugurador do horário das seis na Globo, qual a sua visão sobre o gênero de novela ideal para o horário?
A Globo tinha um estudo que recomendava que as novelas fossem românticas para o horário das seis. Considerando que as senhoras estavam fazendo o jantar e as crianças chegando da escola. Já para as sete, o ideal seria as produções mais pastelão. E, para as oito, novelas com mais drama. Isso se manteve por muito tempo, depois mudou e agora está voltando de novo. O sucesso das novelas atualmente é justamente isso. Mas agora no horário das oito pode se fazer o que quiser, até alguém tirar a calcinha de outra pessoa, que tudo bem. Mas gosto de escrever novelas para as seis e já fiz muitas. Era considerado a base da pirâmide pelo Boni.
''Cabocla'' também fala da questão rural do Brasil. Vai haver alguma citação ao movimento dos sem-terra?
Não. Tenho de manter como fiz a original. ''Cabocla'' é a luta dos barrigas-cheia contra os pés-no-chão. Ou seja, latifundiários contra bóias-frias. Não vou usar nada atual porque vai parecer mentira. O que vai acontecer que é vão perceber que tem relação. Nesta trama, o Coronel Justino adultera no cartório as escrituras para ficar com a terra dos coitados. A gente sabe que isso acontece até hoje. A novela fala mais da agricultura no plano familiar. E a situação do sem-terra hoje não é melhor nem pior da que a do pequeno agricultor. Quando se toca nestes assuntos em uma novela você acaba levando o povo a repensar a própria realidade. Em ''O Rei do Gado'' enfatizava com os meus sem-terra que ''só merece a terra aquele que a faz produzir para si e para seus semelhantes''. Então, isso já definia a terra produtiva da improdutiva. E meu líder rural não invadia terras produtivas. Ele tinha consciência e não é o que os sem-terra estão fazendo hoje. Então, recebo e-mails dizendo: ''Benedito, olha o que você fez com a sua maldita novela! Botou fogo no sertão'' (emociona-se). Não fiz isso... ao contrário.
Como é ver atores novos em papéis que ficaram marcados por outros profissionais?
Me comovi com isso. Lembrei dos atores que não estão mais aqui, como Gilberto Martinho, que fez o Coronel Justino. E também do Maurício do Valle, que era um grande amigo, e outros... Vejo as imagens e tenho de me segurar. Quando acabou a ''Cabocla'' original foi uma choradeira no estúdio. Estou sentindo este clima de novo e fico emocionado. O Tony já está fazendo o seu Coronel Boanerges, totalmente diferente do Cláudio Corrêa e Castro. Mas aponto o personagem Neco (no original vivido por Kadu Moliterno e agora por Danton Mello) como o meu alter-ego em ''Cabocla''. Ele chega para revolucionar e exigir o fim do voto de cabresto. Na época, discutia o que o voto significava e criticava os coronéis. Ele falava que os patrões tinham de pagar em dinheiro, o que muitos fazendeiros não fazem até hoje.
Você pretende voltar a escrever uma novela das oito para a Globo?
Não. Cansei. Quero fazer seriados, minisséries... Novela das oito não quero mais. Estou com 26 novelas nas costas e graças a Deus recuperei minha saúde. Estava com os brônquios inflamados, com começo de enfisema. Agora voltei até a cantar em karaokê. O que vai ter será a minissérie ''Mad Maria'', que o Ricardo Waddington já está tocando. É sobre a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, em Rondônia. Uma adaptação do livro do Márcio de Souza que fiz há muitos anos. Quando escrevi, não dava para fazer sem a tecnologia que temos hoje. Já entreguei todos os capítulos.


