Noite de quinta-feira, primeiro dia do Festival Demo Sul 2003, na semana passada. Algumas dezenas de pessoas, sobreviventes dos muitos que acabaram deixando a noite de shows para acordar cedo e viver sua rotina diária de assalariados, ficaram até o fim para um breve momento de nostalgia e exaltação. O que era promessa de um bom espetáculo tornou-se realidade com a apresentação da Patife Band, liderada por Paulinho Barnabé, irmão de Arrigo.
A banda, que não se apresentava em Londrina desde 1995, levou o público ao delírio com ''Tô Tenso'' (que chegou a ter uma versão gravada pelo Ratos de Porão), ''Vida de Operário'' (uma versão da banda Excomungados) e ''Corredor Polonês'', maior sucesso entre os londrinenses. Todas as canções são do álbum homônimo da banda, lançado em vinil em 1987 e agora disponível em CDs.
Foi comum escutar nas rodas de fãs em frente ao palco as frases ''foi por isso que comecei a tocar'', ''isso é que é rock'' e coisas do gênero, principalmente porque a banda sempre agradou os críticos e influenciou toda uma geração, que, até então, nunca tinha escutado um tipo de música tão diferente produzida no Brasil: arranjos experimentais, ritmos quebrados, cadenciados, mesclados com referências de punk e rock e com uma reconhecível identidade nacional.
A Patife Band foi formada em São Paulo após o início do projeto solo de Paulo Barnabé, que até 1985 tocava com o irmão Arrigo Barnabé e o também músico londrinense Itamar Assumpção. E é justamente sobre essa fase que começa o bate-papo com Paulo, que conversou com a Folha no dia seguinte ao show do grupo em Londrina.
Como foi seu começo em Londrina?
Tínhamos um núcleo musical com Arrigo e outros músicos no começo da década de 70. O Arrigo tocava muita música clássica e eu tocava na percussão e fazíamos sons aleatórios, baseados na música experimental européia contemporânea. E foi em 73, no Festival Boca do Bode, em Londrina, que tive minha primeira incursão profissional. Mais tarde, em 75, com o Itamar Assumpção, formamos a banda Navalha, quando alugamos uma chácara em São Paulo e passamos a ensaiar sobre o repertório de ''Clara Crocodilo'' (famoso álbum de Arrigo) com o objetivo de se apresentar em São Paulo.
Quando é que houve uma abertura maior para o reconhecimento do trabalho?
Foi no Festival da TV Cultura e as pessoas estavam preparadas para isso. Nessa época nossa banda se chamava Sabor de Veneno e eu e o Itamar fomos os responsáveis pelos arranjos de base - baixo, guitarra e bateria - e o Arrigo fez os arranjos de sopros e metais. E a novidade foi esse som, porque a gente trabalhava na linguagem dodecafônica e foi algo novo mesmo, tanto é que ganhou o prêmio.
E como foi a gestação da Patife Band?
Eu já tinha uma idéia e, quando o Arrigo foi excursionar para o Nordeste eu já não fui e montei em 84 a ''João Bobo e as Bonecas Infláveis'', que era uma mini-ópera da Paulo Patife Band mas não gostei porque eu queria outra coisa. Queria trabalhar com músicas isoladas e comecei então a compor ''Pregador Maldito'' e ''Tô Tenso'' já estava pronto. Depois disso, gravei um material, que levei para o Rio durante a temporada de um ano em que toquei baixo para os Inocentes. Em uma entrevista numa rádio, levei meu trabalho e rolou uma grande repercussão. Depois, a WEA me procurou e assinamos contrato e assinamos com eles.
E quando é que a Patife Parou de tocar?
Na verdade nós não paramos, fizemos várias pausas. Tocávamos e parávamos e, nesse tempo todo, eu estava compondo porque eu não sou disciplinado como gostaria. Mas voltamos e a nossa intenção esse ano é lançar um single em dezembro para depois lançar o álbum novo, que tem uma linha de composição diferente, um pouco mais na linha de rock progressivo, mas continua com a ironia, a pegada punk rock e a música atonal, dodecafônica.
E esse retorno agora para Londrina?
Eu adoro, aqui foi o germe do meu trabalho. A gente sabia que tinha um público aqui e fizemos um show muito legal, convidados pelo Chaminé Batom, em 95. E aí com a ida do Edu Batistella (conhecido baterista londrinense) pra São Paulo já pensávamos em vir pra cá. E agora, com esse convite, mais uma vez consolidamos a idéia que tínhamos sobre o público.
Como você avalia o atual cenário rock brasileiro e mundial
O rock foi criado pelos americanos e a partir dos Mutantes é que fizemos nosso rock brasileiro. Hoje a maioria das bandas não tem originalidade e imita os americanos. Mas algumas tentam uma linguagem própria e tem alguma coisa pra dizer. Também sou muito mal informado mas do que tenho escutado das músicas americanas e inglesas não posso dizer nada, só que são muito bem produzidas. Eu escuto mais coisas antigas, como o Jello Biafra e o Dead Kennedys. As únicas bandas que eu cheguei a escutar porque falaram muito foram as inglesas The Fall, que não achei tudo isso, e o Radiohead. Mas achei meio esquisito, muito pop, achei legalzinho mas não me tocou. Só que as pessoas que falaram do Radiohead tem uma certa credibilidade, mas isso é gosto pessoal de crítico. Eu acho, por exemplo, que Excomungados é bem mais legal, mais experimental, mais louco do que Radiohead.
Como você encara a Patife Band ser influência para uma geração?
É estranho, eu nem penso nisso. Porque eu não me acho uma pessoa resolvida musicalmente. E aqui rola um boato de que a banda Primus teria influências da Patife Band, mas de certa forma isso procede porque em 97, alguém levou discos para as rádios escolares de Los Angeles e depois me disseram que algumas músicas estavam até em vídeos de skate.
Você disse que não está resolvido musicalmente. No entanto, pode se considerar realizado pelas metas alcançadas desde que começou?
Ainda não, estou procurando métodos de composição, estou meio perdido. Sou muito travado pra texto e tenho muita coisa para melhorar.

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