''Todo clássico é verdadeiro''. É assim que Eriberto Leão define ''Sinhá Moça''. Aos 34 anos, esta é a sexta novela do ator em dez anos de carreira. Mais que isso. A atual trama das seis da Globo é o trabalho mais intenso e bem-sucedido de Eriberto na tevê. A começar pela riqueza de seu personagem. Filho da escrava Maria das Dores e do Barão de Araruna, quando pequeno chamava-se Rafael e foi renegado, sem saber, pelo pai - que o vendeu com sua mãe a um mercador de escravos. Mais velho, educado e com uma carta de alforria nas mãos, retorna à fictícia Araruna como o jornalista Dimas, nome que adota para poder se vingar do Barão. Orgulhoso, o ator só não está com saudades do idealista Dimas desde já porque dois novos projetos estão confirmados. Um dia depois de terminarem as gravações da novela, ele começa a filmar seu segundo longa-metragem, ''Um Homem Qualquer'' - do paulistano Caio Vécchio.
Em seguida, Eriberto interpretará o revolucionário Genesco de Castro, seu personagem na minissérie ''Amazônia: de Galvez a Chico Mendes'', assinada por Glória Perez e prevista para estrear em janeiro. ''O que me atrai na profissão é poder ser um ator que contribui, de maneira eficiente, com a cultura do nosso país'', diz.
''Sinhá Moça'' já está na reta final, restando exatas quatro semanas. Como você avalia esse ''remake'' após mais de cinco meses no ar?
''Sinhá Moça'' é uma obra difícil. A trama é bastante pesada, trata da escravidão, tem muito sofrimento e dor. Por isso, é uma vitória termos conseguido conquistar a audiência com uma novela que fala de um momento histórico difícil do Brasil e que toca na ferida do nosso país. Penso até que, caso contrário, a novela poderia ser usada como exemplo de que ''obras sérias não dão audiência''. E isso não é verdade. Elas dão audiência sim, e este é o nosso caso. Por exemplo, se compararmos esta novela com ''Alma Gêmea'' - sua antecessora -, são duas obras distintas e ambas de sucesso. E o que eu tenho mais orgulho é de fazer parte de uma novela séria, com um texto de altíssima qualidade, porque ''Sinhá Moça'' é um clássico da dramaturgia brasileira.
Na trama, o Dimas vem dizendo que não tentará mais matar o Barão para a Sinhá Moça não sofrer. Mas como fica o plano de vingança dele?
Acho que o Dimas trocou o assassinato pela humilhação que ele quer causar ao Barão de Araruna, vivido por Osmar Prado. Então, ele vai escrever um artigo no jornal em que entrega todas as atrocidades que o Barão cometeu em vida, as maldades cometidas por ele na senzala - desde os tempos de criança do Dimas. Além disso, ele acusa o Barão de ter matado o Capitão do Mato de uma forma muito cruel, porque o Capitão foi ferido pelo feitor e o Barão mandou jogá-lo - ainda vivo - no rio. Enfim, o objetivo do Dimas é desmascarar o Barão a qualquer custo, e acho que seu golpe final vai ser quando ele revelar que é seu filho. O Dimas e o Barão têm pouquíssimos encontros, mas são sempre muito fortes. Na trama, ele ainda não sabe que é meu pai. Ainda vão ter vários embates entre os dois. Agora, nesta fase final, a história vai ser Barão ''versus'' Rafael. Estou ansioso.
É melhor trabalhar numa trama rústica, como ''Sinhá Moça''?
O prazeroso é trabalhar numa obra de extrema qualidade, independentemente se é de época, rústica ou urbana. Então, prefiro fazer ''Sinhá Moça'' do que uma novela em outro horário que vai me dar muito mais exposição na mídia, mas que não trata de temas que me interessam. Como eu também posso fazer uma novela em outro horário, que seja atual, mas que tenha temas interessantes. E até hoje na minha carreira - e tenho dez anos de profissão -, todos os meus personagens, inclusive o Dimas, seguem essa linha, tanto na tevê quanto no teatro. Estudei muito, li diversos livros sobre a escravatura. O meu grande barato é ''entrar de cabeça'' no personagem. Assim cresço como ser humano e meus personagens também enriquecem com esse conhecimento.
Como você vê essa versão da Edmara e da Edilene Barbosa em relação ao original do pai, Benedito Ruy Barbosa, exibido na Globo há 20 anos?
''Sinhá Moça'' é um clássico. E todo clássico é verdadeiro. Se você pegar qualquer obra de Shakespeare, de qualquer época, vai ver que é super atual. Além disso, a novela trata da escravidão, tema que é mal compreendido pela sociedade brasileira até hoje. O problema é que ''Sinhá Moça'', assim como as outras novelas, é uma obra descartável. Depois desta, vem outra e mais outra, sucessivamente. Acho que tramas como esta são pouco aproveitadas no sentido da conscientização. Vivemos em meio a uma mediocridade enorme. E a tevê não aproveita temas fortes para fazer uma análise mais profunda - até para aproveitar os 36 pontos de média de audiência, o que representa muita gente. Mas independentemente disso, a novela é um sucesso. Aonde quer que eu vá, é impressionante a maneira como as pessoas falam bem da trama. A culpa não é só da mídia, mas de todos nós que deixamos de contribuir um pouco mais.
Por sua temática, ''Sinhá Moça'' marca uma nova etapa na sua carreira profissional?
Sem dúvida. E não só na minha vida, mas na de todos que a fizeram e também na da emissora. Essa novela foi totalmente feita com ''Base Light'', um software holandês de tratamento de imagem. É uma trama que tem planos de cinema, com linguagem e luz específica. É a primeira novela feita com essa tecnologia. Então, temos uma novela de planos lentos - o que no começo incomodou muita gente, porque falaram que a imagem tremia. É Barroca, é trevas e luz. E naquele tempo, era tudo mais lento mesmo. Acho um marco na história da tevê brasileira e digo isso sem nenhuma arrogância. Tanto que foi indicada ao Emmy. A Globo escolheu três obras, entre elas, ''Sinhá Moça''.

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