Pela segunda vez, o público de Londrina vai poder prestigiar o talento da bailarina Cecília Kerche, que se apresenta neste domingo, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, acompanhada de Vítor Luiz. Ambos fazem parte do elenco de gala do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e trazem ''O Gran Pas-De-Deux O Cisne Negro'' para encerrar em grande estilo o 3º Festival de Dança de Londrina.
Com uma carreira consagrada internacionalmente, Cecília, aos 45 anos, não se intimida ao se denominar 'top do top', posto conquistado com muito esforço ao longo dos seus 20 anos de carreira, e confessa que também teve que enfrentar as barreiras que o ''passaporte sul-americano'' representa na área da dança.
Da sua figura frágil e voz suave e rouca, Cecília deixa transparecer a objetividade de quem acredita na dança e reivindica mais apoio do governo e da iniciativa privada. ''O governo precisa entender que arte é para o povo'', argumenta.
Ela lamenta a exaustão a que muitos artistas são submetidos na luta por patrocínios e ressalta que a dignidade precisa ser resgatada em um país que não valoriza devidamente os próprios artistas e abre espaço para que muitos tenham que recorrer a empregos no exterior.
Convicta de ter feito a melhor escolha ao optar por seguir carreira no Brasil, enquanto intercalava apresentações no exterior, Cecília deixa o exemplo de que a arte também insere posicionamento político e tem um poder mobilizador. Confira abaixo entrevista concedida à Folha de Londrina.
Qual a sua expectativa em relação à sua segunda participação no Festival de Dança de Londrina? Como vê esse processo na área de dança que está acontecendo na cidade, mesmo ainda de pequena proporção, comparado com o tradicional Festival de Joinville
Acho importantíssimo que a cidade tenha espaço para que os artistas da dança possam mostrar e comparar os seus trabalhos. E os alunos concorrentes (da Mostra Competitiva) possam se desinibir e avaliar os conhecimentos que estão recebendo no decorrer de cada ano. Todo movimento de dança que se faz por esse País tem que ser valorizado. Nós temos um país em que muitas cidades estão longe dos centros de dança e, se não houver integração realmente vai ficar muito difícil a gente atuar no meio da dança. A dança tem evoluído muito no Brasil graças a iniciativas como essas de Londrina.
Você acha que o Brasil comporta grandes festivais ou a tendência é que que se tenha vários festivais de pequeno porte?
Acho que a tendência é crescer, tudo é evolutivo. Os pequenos vão se fortalecer através da qualidade. Não adianta vir com mediocridade, porque isso não tem espaço.
As jovens bailarinas normalmente tem a expectativa de integrar as grandes companhias internacionais. Isso é um reflexo do restrito mercado brasileiro na área da dança?
O País não oferece companhias de dança suficientes para abarcar todo a gama de profissionais competentes que se formam a cada ano. Temos uma única companhia de balé clássico, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, nesse país de dimensão continental. Muitos profissionais entram no mercado e acabam se desviando para o contemporâneo, jazz, grupos pequenos que se juntam e vão tentando remar para sobreviver, o que também é uma lástima, porque tem espaço para todo mundo.
O que fazer nessa situação?
É preciso fazer com que a iniciativa privada também tenha interesse em patrocinar a arte da dança no Brasil. Infelizmente, grandes expoentes da dança que poderiam brilhar no país estão indo embora. Porque assim como tem brasileiro saindo do Brasil, russo também deixa a Rússia, o polonês... e o mercado fica cada vez mais difícil para o estrangeiro, principalmente se vem da América do Sul. Na Rússia, também se formam muitos alunos e nem todos são absorvidos pelas inúmeras companhias que esse país tem. Só em Moscou tem mais de dez companhias e esses excedentes vão pra fora. E nós, que temos uma única companhia num país continental, também formamos gente boa todo ano que sai em busca de emprego. Um passaporte sul-americano é tão difícil de abrir uma porta... Você tem que ser o 'top do top' para poder ficar de frente com o europeu.
Você chegou a sentir essa dificuldade? Por ser brasileira, mesmo tendo tanto talento?
Eu era o 'top do top'. Eu tomei o espaço de uma americana, uma italiana...Tem que ser o 'top do top'. Você realmente tem que 'matar um leão por dia' para ter espaço.
E isso é devido ao fato de não termos uma tradição cultural de balé clássico?
Acho que não é falta de cultura no balé clássico, não. Já temos quase 70 anos de formação clássica no nosso país. Acho que o maior problema é a mentalidade governamental no nosso país, é entender que arte é para o povo, que balé, dança é entretenimento. É uma indústria de entretenimento. A iniciativa privada também tem que entender isso.
Quando a senhora fala da falta de apoio da iniciativa privada, significa que não adianta mais esperar isso do poder público?
Tem os dois lados. Os políticos precisam entender que a população está carente de instrução, de arte, de cultura. E, no caso da iniciativa privada, muitas companhias particulares ficam de 'pires na mão', pedindo 'pelo amor de Deus' um patrocínio. A lei de incentivo à cultura no país é muito direcionada para o cinema, infelizmente, e a área da dança, principalmente, fica relegada.
Há um debate no meio da dança para reverter essa situação?
Eu sinto que as pessoas estão cansadas de remar contra a maré. Tem gente de muita competência, que sabe como trabalhar, e se cansa no trajeto. O triste é a gente encarar a realidade das pessoas que são batalhadoras e ver que não dão certo. Falta os empresários ouvirem mais os diretores de companhias de dança, os captadores de recurso para a dança... Que os governadores possam ir mais ao teatro, observarem o que a dança tem a dizer. Que eles tenham mais orgulho dos seus artistas.
Fale sobre a sua escolha em permancer dançando no Brasil, apesar do seu sucesso internacional
É o maldito, não no mal sentido, amor que esse Teatro Municipal do Rio de Janeiro inspira em todos os artistas que pertencem a essa casa. Ele tem uma magia enorme. Eu tive uma carreira no exterior de aproximadamente 17 anos, dancei nas companhias mais importantes do mundo, e tudo intercalado com a minha carreira no Municipal. Foi uma opção de ficar aqui e fazer alguma coisa pelo balé do Brasil. Se não as pessoas estariam lamentando que todos os bons profissionais abandonaram o país e iriam desistir de tentar.
Você já ficou em dúvida se essa foi uma boa escolha?
Eu olho para trás e vejo que foi a melhor escolha que eu fiz.
Normalmente, as pessoas têm uma visão romântica e idealizada da bailarina, ainda mais quando ela é famosa. Como é o dia-a-dia de Cecília Kerche, é glamuroso?
Além de romântica, a visão que as pessoas têm é um pouco lúdica. As pessoas menos informadas acham que a gente adora a badalação, que é uma vida cheia de novidades. Na verdade, é uma vida repleta de dedicação, trabalho e também é uma carreira, uma profissão que a gente abraça por amor e faz parte da vida. Eu tenho que ir ao supermercado, pagar contas, cuidar dos meus cachorros, tenho que ir à faculdade, para estudar e ter mais conhecimento. É uma vida normal. Pego ônibus, metrô, trabalho das dez da manhã às quatro da tarde, faço musculação, fisioterapia, aula particular, estudo mais uma língua, estudo música. É uma vida normal. A bailarina não é um bibelô que simplesmente se veste de bailarina e vai pro palco e encanta o público. É uma jornada mais do que dupla.
Os cantores líricos costumam falar da 'vida útil' da voz. Acontece o mesmo com os bailarinos?
Isso é algo sério, porque o tempo cobra esse desgaste do físico. É um esforço que vai acontecendo diariamente na vida do bailarino, do atleta, mas depende do preparo físico que foi feito ao longo dos anos, dos machucados, das lesões.
No meu caso, enquanto for fácil fazer o que venho fazendo ao longo dos meus últimos 20 anos, vou continuando. Na hora que ficar difícil, aposento as sapatilhas e pretendo seguir a carreira de ensaiadora do corpo de baile do Municipal.
Com um mercado tão restrito, há muita competição na área de dança?
O mercado é muito competitivo, mas o relacionamento entre os artistas é muito cordial. Existem picuinhas, tem artistas que não aprecio, mas sou capaz de respeitá-los e compreendê-los. Apesar da competição, não chega ao nível de colocar gilete na sapatilha da concorrente (risos).
Isso já chegou a acontecer?
Dizem (risos)..., os mais antigos dizem que isso já chegou a acontecer.
O que é mais importante para um bom bailarino: técnica, esforço ou talento?
A pessoa tem que ser tocada por Deus. Reunir físico, vitalidade, inteligência simétrica. Esse é o especial.
Mas você acha que um bailarino com muito talento e pouca disciplina pode dar certo?
Pode. Se tiver muito talento, a disciplina acaba incutida nele na marra. A pessoa passa a entender o que é necessário para ele ter uma posição, dinheiro, poder usufruir do seu talento de uma forma melhor. O balé faz o garoto mais endiabrado ser disciplinado. Tudo é muito matemático. Se não se concentrar, não consegue dominar o corpo.
Algo mais a dizer sobre a dança?
A dança tem que ser um veículo de comunicação para o público. As pessoas precisam ir mais ao teatro, apreciar os seus artistas, aprender com eles e ter orgulho de ver um artista brilhando no próprio país e ser convidado para dançar fora. E que a população cobre dos seus políticos mais apoio à cultura para que os artistas não saiam daqui por falta de opção de trabalho.

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