Marcos Caruso se autodefine como um ponto de exclamação. Do alto de seus longilíneos 1,92 m de altura, o ator, que interpreta o submisso Alex em ''Páginas da Vida'', assegura que é um curioso nato. ''Minha frase exclamativa é 'Oh!'. Isso porque me espanto com tudo. Sou um curioso pela vida'', enfatiza o paulistano de 54 anos, que desde os sete anos de idade já sabia que seria ator. Naquela época, Marcos pegava caixas de frutas e, com os retalhos de tecidos da avó costureira, fazia pequenos fantoches e cortininhas de palco e montava historinhas para entreter as clientes dela. ''Ali nasceu o cenógrafo, figurinista, ator, diretor e autor'', exagera, com gestos extensos. Daí em diante, a atuação esteve presente na vida do ator, mesmo quando ele decidiu estudar Direito. ''Em último caso, eu vestiria a beca e, ainda assim, estaria num palco'', brinca o ator, que pela terceira vez atua numa trama de Manoel Carlos. Com o resignado personagem da novela das oito da Globo, Marcos realiza um contraponto com a amarga Marta, de Lilia Cabral.
Muitos criticam as atitudes vilanescas da Marta, personagem da Lilia Cabral. Você não acha que a passividade do Alex diante de sua profissão também não contribui para os atos da Marta?
O Alex é um homem subjetivo e emocional que vive num mundo imediatista, consumista e descartável. A forma de lutar contra é tentar conjugar menos o verbo ter. A Marta é racional, objetiva. Ele é o contraponto dela. Isso trago de mim também. Tenho muito do Alex. Sou essa pessoa que se preocupa com o outro. Preciso ter alguém para cuidar, seja mulher, filho, cachorro, vizinho, empregada. Está muito prazeroso porque estou tendo um retorno pessoal muito grande e exercitando, através de um personagem, essas qualidades humanas que acabam se perdendo no dia-a-dia, não parar para enxergar o próximo.
Esse lado humanizado do Alex se destaca pela Marta ser uma personagem absolutamente distinta. Qual o cuidado que você e a Lilia tiveram para que essa disparidade não ficasse tão maniqueísta num texto do Maneco, onde tudo é tão naturalista?
O Manoel Carlos é um sábio nesse sentido. Ele não coloca um personagem na novela que não exista na realidade. Às vezes ele sublinha com tintas mais fortes. Poderia ser menos, mas se ele põe menos, concorre com a realidade e as coisas podem passar meio desapercebidas. Na medida em que ele sublinha, ele chama a atenção para o fato. Você pode até ser contra, se indignar com o que a Marta faz, mas não pode dizer que não exista gente assim, que não existam casais que se unam por serem opostos, aquela coisa dos pólos opostos.
Você tem uma longa trajetória na comédia como autor, diretor e ator no teatro. É mais instigante vir da comédia e exercitar o drama?
É muito mais prazeroso. Você sabe que está fazendo uma cena que resulta dramática, mas vivencia a cena com um bom humor entre aspas. Sempre digo que feliz é o homem que ri de si mesmo. Eu, por exemplo, sou careca. Vou fazer o quê? Não tenho cabelo. Tenho 1,92 m de altura e pareço uma lombriga. Eu sou um poste. Tenho de admitir que esses meus defeitos fazem parte do meu ser. Quando abro os braços, tenho 1,92 m de extensão. Sou um ponto de exclamação. Se eu já me vejo dessa forma, estou com meio caminho andado para entender o meu destino. Mas se eu quero disfarçar a careca, fingir que não sou tão magro, fingir que não sou tão alto, vou virar uma pessoa curva, que vai olhar os outros de baixo para cima. O meu drama vai ser muito maior. Talvez eu leve isso para os meus personagens e para as cenas.
oo Silvio de Abreu já convidou você três vezes para escrever novelas. Você já chegou a escrever duas, o ''Braço de Ferro'', na Band, e ''A História de Ana Raio e Zé Trovão'', na Manchete. Por que você reluta em voltar a escrever?
Porque sei escrever novelas. Parece que estou me gabando, mas sei que vou fazer bem e, se fizer sucesso, vou fazer a próxima e mais outra e outra. Assim fico preso para o resto da minha vida escrevendo, ganhando bem, viajando, tendo poder e prestígio, vou ter muito status, não vou mais saber viver sem aquela grana. Isso me amedronta porque a necessidade é mãe da criatividade. Quanto mais necessitado eu sou, mais me torno criativo. Se eu fosse um ator ou diretor medíocre, ok. Mas não sou. Sou um ator que tem o seu espaço. Quero manter o que conquistei. Posso fazer uma novela daqui a cinco anos, não importa. Meu espaço está lá. Quero fazer cinema, tevê, teatro, quero tudo. Seria um caminho sem volta. Talvez uma minissérie, que são 40 capítulos...

mockup