ENTREVISTA - PRETA, muito além da irreverência
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segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Mariana Trigo<br> TV Press 
Preta Gil é muito diferente da imagem de mulher polêmica, sem papas na língua, que tantas vezes exibiu em suas aparições públicas. Com um discurso tranquilo, mas firme, a cantora e atriz nem precisa se esforçar tanto para transmitir serenidade. O olhar seguro não se desvia dos assuntos mais incômodos, como a carreira artística, adiada por 10 anos por medo de encarar uma personagem na tevê, ou mesmo o sofrimento que a carioca de 33 anos ainda guarda pela morte do irmão Pedro Gil, há 17 anos.
Mas Preta parece ter o costume de rodar a baiana quando almeja algo profissionalmente. Tanto que conseguiu organizar a agenda de cantora para aceitar o convite da Record para retornar às novelas. Depois de interpretar a rebelde Vanusa, na Globo, em ''Agora É Que São Elas'', há quatro anos, Preta regressa às tramas como a vilã Helga em ''Caminhos do Coração'', que estréia hoje. ''Acho que comecei um namoro bom com a Record, embora meu contrato seja apenas por obra'', ressalta.
Para a novela, Preta não precisou adiar a carreira de cantora, que permanece afinada com a gravação de seu DVD e de seu terceiro CD no final deste ano, em algum cenário carioca ainda não definido. Como não bastasse, a atriz ainda conseguiu colocar sua voz em uma das faixas musicais da trama de Tiago Santiago, dirigida por Alexandre Avancini. Para a novela, a filha de Gilberto Gil regravou o sucesso de Rita Lee, ''Mutante'', trilha sonora dos personagens com superpoderes da história. ''Fiquei toda boba com essa honra. Experimentei de tudo na vida e agora estou no meu melhor momento'', comemora.
Você só atuou em novelas em 2003, como a Vanusa de ''Agora É Que São Elas''. O que fez você voltar à tevê como uma vilã na Record?
O Tiago Santiago e o Alexandre Avancini me mandaram a sinopse bastante animados. Eu nem queria fazer novela agora por causa da minha agenda de shows. Mas fui para Nova York e resolvi ler com calma a trama. Adorei a Helga e decidi conhecer os estúdios da Record. Fiquei realmente impressionada com o grau de profissionalismo que eles atingiram, toda aquela estrutura e a empolgação da equipe. Vi que lá poderia estar tão bem amparada quanto em qualquer outra emissora concorrente. Eles sabiam que estavam contratando uma cantora que tem uma agenda de shows. Até agora estamos conseguindo conciliar tudo.
Você está colocando um tom de comédia na personagem?
Tenho um lado muito sério na vida. Adoro dar minhas gargalhadas, mas sou péssima ao contar piada. Sou engraçada e gosto disso, mas não sou comediante. Talvez tenha o ''timing'' da comédia, mas a Helga não chega a ser cômica. Até agora ela está mais para trágica. Não dá para compor sozinha uma personagem. Acho que a Helga vai acontecer na trama. Vou escutar a repercussão com o público para moldá-la. Se estiver caricata, vou seguir outro caminho. Se faltar malícia, acrescento. Tudo pode acontecer.
Você demorou a seguir a carreira artística. Nos anos 80 se preparou para ser cantora e atriz com cursos, mas trabalhou por 10 anos como produtora antes de se arriscar nos palcos. Por quê?
Vai saber, né? Comecei a estudar cedo. Com 10 anos fiz cursos no Tablado, na CAL, tive aulas com o ator Sérgio Britto e a cineasta Tizuka Yamasaki. Flertava o teatro, o canto e a literatura. Com 15 anos, fiz um ano de Oficina de Atores da Globo. No final, passei num teste para a minissérie ''Sex Appeal''. Mas me deu um medo danado. Tinha perdido meu irmão Pedro Gil no ano anterior, num acidente de carro. Era um momento delicado. Nisso, o publicitário Nizan Guanaes me chamou para organizar um evento. Ele achou que eu era esperta. Como tinha amarelado no teste da Globo, liguei para ele e falei ''Cara, quero ir morar em São Paulo. Me arruma um emprego?''.
Você fugiu?
Totalmente. Estava sozinha no Rio, minha mãe sofrendo, resolvi sair desse cenário e fui para São Paulo. Trabalhei na agência DM9 como estagiária. Em menos de seis meses, me apaixonei por publicidade e já cuidava dos filmes publicitários. Quando saí de lá, voltei para o Rio, engravidei do Francisco - filho que teve com o ator Otávio Muller - e quis trabalhar com produtoras. Trabalhei na Conspiração Filmes, fui figurinista, produtora, fiz direção de arte e resolvi abrir a minha produtora com a Monique Gardemberg. Ela já tinha a Dueto Produções. Abrimos a Dueto Filmes. Com 22 anos de idade comecei a produzir meus projetos e a Dueto bombou! Foram cinco anos de sucesso. Abrimos uma filial em São Paulo e eu vivia na ponte-aérea. Mas começou a bater uma crise, uma angústia... Fui para a psicanálise e o psicanalista perguntou se eu sabia cantar. Falei que tinha estudado a vida inteira para ser cantora e atriz. Aí tive a sorte de me reencontrar.
Por que ''Caixa Preta'', seu programa na Band dirigido pela Marlene Mattos,não deu certo?
Por mil motivos. A Marlene não continuou na Band. O ''Caixa Preta'' só tinha três meses no ar, mas a relação da Marlene com a emissora já estava desgastada. Achei que eles pudessem continuar o programa sem ela, mas não teve jeito. Um dia quero fazer outro programa com um formato parecido, pode até ter o mesmo nome, que é registrado por mim. Mas, primeiro preciso me firmar como cantora. Antes de tudo, sou famosa como personalidade e a minha figura como cantora ainda está num patamar abaixo. Estou pronta para uma vida nova. Me sinto começando. Hoje estou com uma estrutura emocional consolidada. Tenho uma bagagem forte de vida e isso é combustível para eu continuar na carreira artística. Não sonho em cantar com a Madonna. ''Hello!'' Aprendi a sonhar com o que posso alcançar.


