Que tipo de contribuição você acha que deu à obra de Chico Buarque?
  (risos) Não sei. Eu sempre achei que o Chico é mais popular dos nossos autores mesmo ele pertencendo a uma casta, a uma elite da música brasileira. Eu sou mais popular, pertenço a todas as camadas, circulo por todos os universos... Olha, sempre que traí minha intuição as coisas não aconteceram. E minha intuição forte agora era fazer um disco com músicas só do Chico Buarque. Testamos o disco em shows populares, lonas culturais, teatros nos subúrbios e o repertório sempre foi todo cantado. Pude perceber que muitas pessoas podiam não saber se essa ou aquela música era do Chico, mas cantavam junto comigo.
Você acredita que pode esse projeto pode vender bem? Enfim, você o fez pensando nisso também?
  Eu acho que vai ser um sucesso imenso. Eu acredito que seja possível uma cantora popular como eu cantar um grande autor brasileiro sem essa mítica de que a boa música não vende.
Eu pergunto isso porque você fincou raízes nas camadas populares a partir do disco ‘‘Grandes Amores’’ (87), que tinha uma sonoridade digamos mais comercial. E em alguns trabalhos dessa fase você resvalou no popularesco, no comercialesco, não é?
  Exatamente.
Vê então se concorda comigo também: nos quatro, cinco últimos álbuns a Fafá de Belém estaria mais seletiva com o repertório..
  Exatamente. Olha, isso passou por uma refrescada geral na minha carreira. Passou, por exemplo, em montar uma nova equipe que pense no popular, sim, mas não no óbvio. Eu peguei vários caminhos em determinado momento da minha vida... Por exemplo, o disco ‘‘Cantiga para ninar meu namorado’’ (1994) eu acho o maior erro da minha carreira. Um disco antes tinha feito o ‘‘Fado’’, em Portugal, e aqui eu fiz ‘‘Do Fundo do Meu Coração’’ (1993), que já apontava para esses caminhos a que hoje me proponho. É que a gravadora Sony, que àquela altura me empresariava, tinha uma leitura popular óbvia.
Do jeito que fala parece que as gravadoras programam sua carreira. Você não conquistou autonomia ainda, é isso?
  Não é isso. Eu sempre trabalhei junto com as gravadoras. Quando eu gravei ‘‘Memórias’’, tinha gente da gravadora que queria se rasgar por achar que a música era muito popular.
E era, Fafá, cá pra nós era...
  Mas escuta, eu gravei para o meu público!
Mas para quem acompanhava sua carreira desde o início e de repente se deparou com essa guinada popular se assustou, pode ter certeza que levou um baita susto!
  (risos) Peraí, querido. A Bethânia gravou ‘‘É o Amor’’, a Gal gravou ‘‘Chuva de Prata’’ e ‘‘Um Dia de Domingo’’ e todo mundo fica assustado comigo? Quer dizer que sobrou pra mim isso tudo? É ruim, hein?!
Então escolheram você como bode expiatório?
  Minha liberdade e transparência incomodam muita gente.
Vamos voltar ao disco-tributo ao Chico. No disco você regrava pela terceira vez ‘‘Sob Medida’’. Há um apego especial a essa música, não?
  Tenho, claro. Mas exclusividade, querido, a gente só tem com filho. É de um egoísmo muito grande, de uma vaidade enorme achar que só você pode ter acesso uma determinada música.
A Bethânia já afirmou que se considera uma espécie de intérprete oficial do Chico...
  Eu a respeito muito, mas ninguém deve se proclamar intérprete oficial do Chico. Mesmo a Bethânia com sua majestada e magnanimidade. Aliás, existem cinco cantoras que eu respeito profundamente: Maysa, Elizeth Cardoso, Maria Bethânia, Elis Regina e Cássia Eller. Todas elas apaixonadas e insubordinadas, graças a Deus!
Por que cantar ‘‘Terezinha’’ em francês. Algum encanto especial, algum charme, o quê?
  Essa música tem uma doçura especial porque ‘‘Terezinha’’ em português é mais crua. Bethânia deu uma leitura definitiva dessa música na minha opinião... Aliás, em ‘‘Olhos nos Olhos’’, outro sucesso de Bethânia, eu fiz uma outra leitura mais contida. No caso de ‘‘Terezinha’’ a versão em francês foi feita por Bia Krieger, uma brasileira que vive no Canadá e que é uma grande autora. Gostei e gravei
Você e Chico mantêm relacionamento próximo?
  Não, não. Eu o conheço apenas. Tenho por Chico uma reverência tão grande que eu não consigo me imaginar amiga dele. Às vezes acho que o Chico não pode ser humano de tão genial que é. Ele é tão perfeito que me causa uma timidez monumental.
É quase um fato, não fosse ainda uma lenda, o fascínio que Chico exerce nas mulheres. Você se rende também em encantos ou a cantora consegue isentá-la de maiores arroubos?
  (fortes gargalhadas). O Chico Buarque é uma coisa muito... Ele é muito grande. O dia em que ele me telefonou para dizer que estava gostando do projeto eu fiquei muito nervosa. Numa reunião com Marina Ghiaroni e Vinicius França (co-produtores do disco) disse brincando: ‘Ah, bem que o Chico poderia cantar uma música comigo’’. E o Vinicius me disse: ‘E por quê não?’. Me deram o telefone dele e eu fique quatro meses com o número no bolso sem coragem de ligar. Tomei coragem liguei, deixei recado e ele me retornou.
Foi ele quem sugeriu a música para fazer dueto com você?
  Não. Ele disse ‘‘Fafá, fique à vontade, estou sabendo do projeto, estou adorando tudo e o que você escolher, está escolhido’’. Eu estava para cantar com ele ‘‘Maninha’’ ou ‘‘Sem Fantasia’’. E ‘‘Fado Tropical’’ eu tinha pensado no Joaquim de Almeida (ator português), mas ele estava em Los Angeles filmando. Então pensei que poderia ser muito carinhoso pra Portugal ter o Chico falando esse texto. Havia estado em Portugal pouco antes e o Carlos Paredes, que foi o maior tocador de guitarra portuguesa de todos os tempos, tinha acabado de morrer. E entre as homenagens feitas era ele tocando ‘‘Fado Tropical’’. Falei com Chico e ele gostou muito da idéia.

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